Domingo, 18 de Novembro de 2007

IV e última Carta do Brasil

            Conto chegar a Elvas antes que esta carta atinja o mesmo destino.

            Porém, uma vez resolvi continuar, mesmo de longe, as nossas “ Conversas Soltas”, cada uma de nós e eu – faremos separadas os nossos percursos comuns.

            Pois, aqui estou, sem qualquer outra preocupação além de estar convosco, desfiando as minhas recentes lembranças. Aliás, isto de recordações é mesmo assim: - sem cronologia possível.

Tenho em mãos um monte de fotografias. Revendo-as, mesmo agora se me deparou o “Baiano” de quem já falei.

Ai vo-lo mando com seu balaio e um monte de flores, que varreu, juntas a seus pés.

Outro dia, avistei-o numa azáfama a cortar cana. Fui ver. Era cana-de-açúcar.

-          “Seu Aguiar mandou”.

-          É p´ra cortá e limpá este negócio”.

Cortou, limpou de folhas, raspou e fez “uns troços aí, n´e?” – que “Seu Aguiar mandou".

Mais tarde, “Seu Aguiar”, foi surpreendido em estranhas funções (com bata própria para a função) a preparar a bebida “mais gostosa qui você, já viu, n´é?”suco ou caldo de cana, que geladinho é realmente uma verdadeira delícia.

Também queria não me esquecer de contar que (na sua grande maioria) aqui na cidade vizinha – Resende – as lojas não têm portas e montras. Toda a frontaria abre como um largo portal e, da rua, vê-se tudo quanto têm lá dentro. Aliás, até dá a impressão de que estamos em contacto com pioneiros, colonizadores. Gente que ainda está desbravando e descobrindo rumos.

Já devo ter referido que nascem por aqui os rios Stº. António, Pirapitinga e o Alambari o que proporciona uma imensidade de veios de água a esta região.

Todas as propriedades, mais ou menos fruem essa benção das águas correntes que escorrem da montanha.

 Para chegar a Resende que dista uns escassos 20Km do local onde estou instalada transpõem-se 5 pinguelas (pontes de madeira) – tantos são os braços de rio que refrescam encostas e vales saltando muitas vezes em belas cachoeiras.

Resende, por sua vez, é atravessada pelo rio. “Paraíba do Sul”.

Água, é realmente o que por aqui não falta.

Beleza, pujança de verde e pitoresco – moram por cá também.

O “Bate-chapas” é aqui o “lanterneiro”.

A razão é óbvia.

O automóvel sucedeu aos trens.

Quem sabia mexer em latão era quem fazia as lanternas.

Os transportes evoluíram.

O engenho e a necessidade proporcionaram a adaptação...

o nome manteve-se.

Os pneus compram-se no... Borracheiro.

É, por aí fora um sem número de curiosidades.

O mal destas viagens, como esta minha é que se vê muita coisa em pouco tempo. Um mês para ver qualquer coisa do Brasil, é – Nada!

Vou procurando resistir à tentação de falar das cidades grandes. Há milhares de postais que delas contam tudo por imagens.

Julgo que o único interesse que estas cartas poderão ter é o relato de apontamentos de acaso que faz a experiência pessoal de cada um.

Aqui há dias, no “Nipo” (mercado das frutas japonesas) com olhos húmidos de comoção uma simpática senhora perguntou-me: é portuguesa ?

Perante o meu assentimento quis saber de que parte do nosso país eu era, se estava para ficar, se não, e mais isto e mais aquilo e lá veio de seguida a sua própria história (de êxito financeiro, por sinal) e muito especialmente da sua pungente saudade.

Tem casa em Coimbra. Deu-me a direcção, telefones e sei lá que mais e insistiram ela e o marido para nos oferecerem de almoçar.

            “Sabe? - confidenciava: nós somos mais sentimentais, mais dedicados... – aqui ninguém olha para trás”.

             Nós vamos a Portugal todos os anos. Mas... o dinheiro enlouquece as pessoas... já há muitos anos que poderíamos ter regressado! 30 Anos é muito tempo...

De quantas saudades assim estará amassado o progresso do Brasil! – Nem posso calcular.

Estes são donos de uma rede de estações de gasolina e restaurantes – mas ela só sonha com o regresso.

Uma viagem que fiz muito “gostósa” foi a Nossa senhora da Aparecida. (lembram-se da canção da Elis Regina’)

            Aparecida é a Fátima de cá.

            Rezei por Elvas.

            Visitei as termas de S. Lourenço e de Caxambu no Estado de Minas.

            Agora ficaria aqui horas a falar de orquídeas, parques, fontes, auditórios entre canas de bambú, lagos, teleféricos e mais nem sei quê...

            Mas... nem vos quero maçar mais e tenho que fazer as malas para voltar a casa.

            Sei que vou recordar com agrado estes dias diferentes. Sei que a amizade que se recebe e retribui ajuda a viver.

            Se ainda que ninguém substitui ninguém e nada substitui o nosso canto.

            De qualquer modo é bom aprender a viver com o mundo de perdas e ganhos que cada qual transporta dentro de si.

            Só com essa paz interior se consegue olhar cada flor, cada pássaro, cada dia que nasce sentindo que “isso” também acontece para nós e esse deslumbramento está ao alcance de todas as pessoas a quem nos irmana o amor à vida.

            Eu prometera falar de pássaros – passou... Afinal em lugar de “fauna” apareceu “Flora” na minha carta nº 3. Eu falaria de aves de belas cores – porém. - A “gralha” é que apareceu e... ficou.

 

                                                           Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.356 – 21 /Junho/ 1996

Conversas Soltas

estou:

publicado por Maria José Rijo às 11:50
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4 comentários:
De Dolores Maria a 18 de Novembro de 2007 às 13:02
LINDAS estas cartas do Brazil.
Conhecer o Brazil através dos seus olhos
da-me sempre a sensação de que também
estive a seu lado.

ADORO IMENSO esta sua forma de escrever.
Beijinhos e Bom Domingo

Sua amiga
DO LO RES


De Gustavo Frederich a 18 de Novembro de 2007 às 13:07
São SEMPRE especiais
estes seus relatos de Viagem.
A sua peculiar forma de "Contar" é-me grata
á minha alma.
Quando a leio não é apenas com os olhos e o
coração - Não - A Minha alma sente, absorve
e acarinha as imagens que tenho dentro de mim.
Sinto-me feliz
por a Senhora partilhar tamanha fortuna com
(todos nós) estranhos uns dos outros - mas no
fundo tão conhecidos - nestes caminhos de nós
mesmos.
A minha presença neste seu blog - é como uma
simbólica procura de mim, desta minha alma -
que por vezes me desconheço e encontro em
suas palavras.

Parabéns
Por me dar tamanhas alegrias.

Seu admirador
Gustavo Frederich


De DOLORES a 19 de Novembro de 2007 às 09:14
Meu Deus
Mas que surpresa... o Blog está tão
mais bonito com esta barra aqui de lado.

Gostei imenso das alterações - foi para
melhor - muito melhor...
E este texto é uma maravilha, o Brazil
contado pelos seus olhos é bem mais
bonito.

Adoro estar aqui...
Beijinhos
( queria... queria outra receita... pode ser...)

DO LO RES


De Mateus Maria a 19 de Novembro de 2007 às 13:12
Interessantissimos estes
seus relatos de Viagem.
Através da sua escrita podemos
ter acesso também a uma visão
especial.

Gostei da forma bela dos seus relatos,
da sua sensibiliade e de como nos mostra
e tão bem
olhares lucidos, longinquos
e tão especiais.

Bem Haja

Mateus Maria Brites


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