Terça-feira, 27 de Novembro de 2007

A visita habitual

 

 

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Jornal O Despertador

Nº 219 --  31-Outubro - 2007

A VISITA - Nº 13

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Na maior parte das vezes, tudo o que se torna rotineiro, perde aquele encanto, aquela emoção que, o novo, sempre, mais ou menos gera.

Por outro lado, a habituação faz que as coisas se tomem como adquiridas, nossas, e, já só lhes prestemos atenção, quando, por qualquer circunstância nos falham. É assim, é da condição humana - é dos livros...

Vem isto à colação, porque, ao fim de alguns meses de enviar colaboração para o Despertador, para além de saber que, no jornal, contam com ela, eu própria, já interiorizei a preocupação de não desiludir quem em mim confia, e me esforço por cumprir a visita habitual.

            Assim que, no meu dia a dia, vá registando, este ou aquele assunto que me pareça mais a propósito para os dois dedos de conversa que qualquer visita sempre proporciona.

Foi – também, um pouco - com esse intuito que estando muito atenta aos problemas do ambiente, me chamou especialmente a atenção a referência feita à expansão das zonas urbanas, que alimentam o negócio da especulação de terrenos, e podem gerar a perda irreparável das áreas de cultivo, que resolvi focar este assunto.

Punha-se a tónica no empobrecimento que a excessiva área edificada representa como grave ameaça para o futuro. Registei, também, com a maior atenção a crítica feita à proliferação de piscinas particulares e outros hábitos que promovem o consumo insustentável, além de desperdício, de água, como se todos ignorássemos que esse Bem Vital, é – cada vez mais escasso - e paira sobre ele a ameaça de se esgotar, se o seu uso não for gerido com prudente inteligência.

Dei-me então conta que subjacente à atenção que prestava às comunicações, sobre estes assuntos, pairava na minha consciência a certeza de que o culto das aparências, a confusão entre - ser , ter e parecer - que gera a fúria de consumismo  tem tudo a ver com a degradação da “saúde” do nosso planeta.

A ideia de facilidade, instalou-se.

Ninguém mais precisa de tecer a própria meia, a camisola, o cachecol, confeccionar o vestido, o avental, o lençol, não necessita saber fazer a empada, o rissol, o pastel, o bolo... está tudo à venda feito e perfeito, desde o bacalhau à Brás, até ao faisão cozinhado da forma mais exótica, ao javali, à cabeça de xára, passando pelo salmão fumado, as codornizes não sei que mais e, as enguias ou os cogumelos ou as trufas do fim do mundo.

Não há apetite que não tenha resposta nos produtos à venda, desde os vulgares bombons de ginja até às sofisticadas flores cristalizadas, sejam elas violetas ou pétalas de rosa.

 

Tudo o que foi segredo, especialidade carismática de qualquer região, convento ou mistério dos Incas ou Tibetanos está hoje à venda até nas tendas de rua em qualquer feira ou arraial – passe o exagero!  

Tudo se banalizou! – Tudo, na aparência, perdeu a importância, o valor. E, porque tudo está (?) ao alcance de todos, nada se reveste da necessidade e emoção da conquista.

Nada vale nada...

Tudo parece banal...porque se tornou demasiado acessível.

E, a água, que era poupada porque carregada às costas, com trabalho e esforço, é agora aquele líquido que jorra das torneiras sem trabalho e sem esforço... e, é até fácil de desperdiçar...

E, o quintalinho da casa onde uma “Lúcia Lima”, dava as folhinhas para o chá que facilitava a digestão da comida tradicional que transformava a casa em lar, e, fazia sombra para o canteiro da salsa e da hortelã, não existe mais...

 

Porque as casas antigas foram trocadas pelas vivendas – todas com piscinas - que ocupam o lugar das pequenas propriedades de terra cheirosa e fértil...

Assim se foi criando o cenário de decadência das nossas cidades...

Não requalificar, não reabilitar, não recuperar, pode ser- também - atentar contra o património , para além de uma grave forma de poluição. Porque poluir, não é apenas  deitar lixo no chão ...

Do passado parece apenas merecer continuação o velho ditado: - por fora cordas de viola; por dentro pão bolorento...

Disse um dia Leopoldo Sengnor:

“A terra não é nossa. Foram os nossos Filhos que no-la emprestaram”-

Pensemos nisso...

                                  Maria José Rijo

 

 

estou: 31-10-2007
música: Despertador - nº 13 - de 2007

publicado por Maria José Rijo às 19:36
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7 comentários:
De Gustavo Frederich a 28 de Novembro de 2007 às 00:16
Gostei!
Sinceramente gostei deste seu texto.
Há sempre a sua marca íntima, o seu ferro
de inteligência.
Tem certamente toda a razão, e eu concrdo
obviamente consigo, nada há para não concordar.
Por vezes penso que o mundo só pode estar
por um fio.
Há milhões de "muitos" que não sentem nada em
relação ao mundo - apenas olham o seu umbigo,
rodando à sua volta, sempre rodando... rodando...

Mas aqui neste seu dominio...
eu sinto-me em casa.
Muito grato por me fazer sentir assim!
Com a mizade

Gustavo Frederich


De Dolores Maria a 28 de Novembro de 2007 às 00:18
Cheguei...
e hoje aqui está este bonito texto.
Gostei de verdade.

Beijinhos
Muitos...
e as suas melhoras...

Sua sobrinha virtual

DO LO RES


De Manuel Tomás a 28 de Novembro de 2007 às 09:18
Muito bem visto!
Gostei do seu blog.
Apresentea artigos muito bem redigido, onde
a palavra é rainha.
Gosto da forma que usa para expressão do
que sente... consegue chegar ao coração de
quem lê.
Gostei imenso.

Um abraço
Manuel Tomás


De maria José a 6 de Dezembro de 2007 às 18:45
Enterneceu-me o seu comentário. O meu Pai também se chamava Manuel, e, é a ele que eu devo o gosto pela língua portuguesa.
Um abraço e muito, muito obrigada pela visita.
Maria José


De Narciso Barão a 28 de Novembro de 2007 às 18:51
Gostei!
Gosto sempre dos seus textos.
São especiais, não só pela forma como
chegam a nós mas pela maravilha e pelas
lições que se tira em cada um deles.

Estou deveras encantado.
Espero receba os meus Parabéns.

Voltarei... aliás volto... todos os dias.
É como se fosse o meu livro de cabeceira,
cada post é uma pagina que leio com
imensa admiração.

Narciso Barão


De Maria José a 6 de Dezembro de 2007 às 18:40
Quase me envaidece o su apreço que muito, muito, agradeço.
Eu sei que não mereço, mas confesso aquece-me o coração ter amigos
Obrigada - um abraço
Maria josé


De Flor do Cardo a 28 de Novembro de 2007 às 18:54
Minha Amiga
Hoje ADOREI o seu belo texto no Despertador.
Os meus IMENSOS PArabéns.
Continuam perfeitos e lucidos os seus artigos.
Ler Maria José Rijo
É um PRAZER
Uma admiração

Mais uma vez PARABÈNS
Seu Admirador

A Flor do Cardo


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