Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Cá Estou ... - 2

Cá estou de novo

 Como é óbvio não vou desfiar aqui o luto da minha alma, contando das muitas pessoas queridas que desde este último ano, já só revejo na minha saudade mas, por vezes, cruzam-se connosco pessoas tão singulares que por mais apagados que sejam os percursos das suas vidas nos proporcionam momentos tão tocantes que ficam como referências indeléveis.

Foi assim com a Bia.

O seu nome próprio era Maria José, mas só por Bia Fialho era conhecida.

Ela era sensivelmente das nossas idades (um ano ou dois mais velha, talvez). Nascera e vivia em Cuba, no Baixo Alentejo, a vila onde Fialho de Almeida também vivera e repousa num jazigo decorado com gatos esculpidos em mármore tendo, também gravada essa tão carismática frase evocativa da sua obra” Os Gatos”- “miando pouco, não temendo nunca, arranhando sempre”

Nós deixáramos Évora e fôramos habitar a casa que tinha sido de Fialho, que, por coincidência, era frente à residência da Bia.

Ficamos sendo vizinhas.

Nas terras pequenas todos se cumprimentam, se conhecem e criam facilmente relações de amizade. Assim aconteceu neste 

caso também, tanto mais que seu irmão fizera o liceu em Beja na mesma altura que minha irmã e eu.

Foi portanto uma circunstância feliz.

A Mãe dela era uma senhora delicada, de voz doce, de saúde frágil, um ar resignado, pouco aparecia. Sofria de enxaquecas.

O Pai era alto desempenado, tinha a postura nobre do homem alentejano que se orgulha de viver do seu trabalho honrado.

Pai e filha cantavam como Deus, às vezes, concede aos seus eleitos.

Foi ele o fundador do primeiro Rancho Folclórico de Cuba. 

(Vão bem oitenta anos…)

Era impressionante ver actuar aquele grupo de homens.

Muito juntos, de braços dados, como que abraçados.

Moviam-se naquele passo que só os alentejanos sabem usar arrastado, lento, cheio de cadência, fazendo ressoar na calçada como se fora uma música de fundo o som rítmico da batida das solas das botas de atanado, cardadas, sobre o qual sobressaía a magia do seu cante. Tinham um ar solene, grave, como se levassem o próprio Alentejo aos ombros ou, como se fossem a voz da própria terra.

Vestiam todos os seus fatos de ver a Deus – calça Justa – de cotim ou de serrubeco, presa à cinta com as voltas da faixa de malha preta, com as pontas caídas de lado, camisa branca de colarinho alto, fechado a dois botões, colete com o cordão ou a corrente do relógio passando de bolso a bolso, a jaqueta com alamares de cordão de seda.

Nas vilas e aldeias, naquele tempo, preservavam-se as tradições como bens de herança. Religiosamente.

1.jpg2.jpg

Festividades de Igreja, feiras e romarias nas redondezas, eram -como festas de família. Ninguém faltava a não ser por doença e , então na Senhora D’Aires ( que é sem favor a maior romaria do Baixo Alentejo, desde há tantos anos, que já se lhes perdeu a conta) o som das vozes do rancho de Cuba subia ao alto como se fosse a respiração da própria planície alentejana de que todos se se reconhecem como filhos …

“Eu sou devedor à terra 

a terra me está devendo 

a terra paga-me em vida 

eu pago à terra morrendo”

 

A Bia era bonita, era alegre e feliz, vivia despreocupada, bem aconchegada no amor de seus pais.

3.jpg

Lia romances de amor e estava a par das vidas de celebridades e artistas através das revistas que a deliciavam e alimentavam os seus anseios de felicidade ideal.

Sonhava com o “seu príncipe”mas, mais do que tudo, sonhava com o brilho dos palcos onde a sua voz seria escutada com mágico encanto…

Bem merecido milagre, que não aconteceu…

Mas, um certo dia, um vago parente que embarcado correra o mundo, regressou à terra falando inglês e desfiando aventuras. Envolveu-a nesses cantos de sereia, casaram, foi Mãe.

Depois, o que o vento traz, o vento leva…e levou…

Os Pais morreram e, ela arregaçou as mangas aprendeu a ser cabeleireira e, como espaço não faltava em sua casa, abriu o seu salão.

Atendia as amigas falando da filha, cantando, desfiando lembranças e saudades, e encantando com aquele seu jeito bom de amar a vida…

 Por perto sempre o seu lindo gato cinzento – o “gento”que, no Inverno mal a dona ligava o secador de cabelo, subia para a cadeira e só cedia de boa vontade o lugar à freguesa que ao substitui-lo no assento lhe pegasse ao colo para repartir com ele o conforto do calor.

Atendida a clientela, se o tempo a tal convidava íamo-nos sentar ao lume de lenha, na ampla chaminé da enorme cozinha e na cafeteira de barro, fazíamos um café ralo, assente com uma brasa, que nos consolava a alma e falávamos, falávamos rindo e chorando com algumas recordações a que agora junto a lembrança do abraço e da voz que repetia ternamente:

Ai amiga! que saudades…que saudades…

 

Maria José Rijo


publicado por Maria José Rijo às 14:28
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4 comentários:
De DOLORES a 7 de Junho de 2017 às 19:21
Minha querida Tia
Que maravilha.
Gosto tanto quando fala assim, das suas Amigas.
Este é um 2do artiguinho que me encanta.
Quem dera eu fosse uma das suas amigas - para
falar assim de mim.
É maravilhosa a sua alma, o seu coração.
Foi - é - e será sempre uma Grande e sincera amiga
das suas amigas.

Obrigado por ter voltado a escrever assim - desta forma-
destas reminiscencias sobre amizades.
Gosto mesmo de coração.

Por cá vamos andando como Deus quer.
Muitos beijinhosss

DOLORES


De GUS a 7 de Junho de 2017 às 19:35
Minha querida Tia
Tocou-me este e o primeiro artigo que escreveu
como dedicatória para as suas Amigas.
Fiquei tocado pela forma Bella como fala da amizade
que vos uniu um dia e a forma como conta esse
sentimento, leva-nos a viajar pelas suas emoções
e pela forma bella como olhou e olha para a sua amizade.
A sua alma é linda.
Obrigado por partilhar .
Do seu sobrinho

GUS


De Xavier Martins a 7 de Junho de 2017 às 19:46
Linda Homenagem
a sua Amiga.
Bem haja a Amizade e ter Amigas como a senhora.

Gosto sempre da sua escrita, bela, sublime e cheia
de verdade.

Boa continuação e boas prosas.
Cá estarei deste lado para as ler com todo o prazer.

Cumprimentos
Xavier martins


De Maria Augusta Silva Torres a 8 de Junho de 2017 às 23:09
Minha querida Amiga
Mas que maravilha de artiguinho.
Que forma linda de falar de uma amizade, de uma amiga.
Que sorte tiveram ambas - em se terem encontrado na
vida.
Tal como eu a encontrei a si - em circunstancias diferentes.
Prezo amizades como estas que conta, também tive
algumas - embora eu nunca conseguisse escrever desta
sua forma tão maravilhosa.
Como eu queria ter alguem que falasse de mim desta
forma, e isto sem ponta de inveja, mas é muito agradável
estejamos vivos ... ou não... como é o caso...
acredito que a alma saberá receber estas queridas palavras.
.
Também li o artigo anterior e gostei . Devo dzer que conheço
a história - claro. Na época assisti a varios concertos,
o meu filho tinha, alguns negocios e eu acmpanhava-o
algumas vezes e sabia que tinha sido a senhora a
FUNDADORA do CORAL -
o que muito me agradou, porque só uma pessoa com
a sua sensibilidade teria coragem de empreender
tamanha obra.
Os meus Parabéns e desculpe minha amiga, mas o
mérito é todo seu - só seu - e é injusto que as pessoas
pensem o contrário.

Muitos beijinhos minha amiga
admiro-a muito e este blog é uma autentica delicia
só tenho pena que a minha memoria falte um
pouquinho.

Maria augusta Silva Torres


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