Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

CRIANÇA - 1990

 Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.030 – 16 de Fevereiro - 1990

Criança

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Ela é, para mim, a imagem que se tem de ser criança.

Ela caminha subindo e descendo por tudo quanto for murinho,

monte de terra ou pedras, que encontre no seu trajecto; pisando nas

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poças de água que a chuva ou a rega do jardim deixem

no pavimento: parando a olhar tudo

o que mexe, tem cor, faz ruído, brilha...

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Tudo a detém e de tudo se solta.

Brinca com terra, pedras, ervas, caixas vazias.

Pára a ver os cães, as outras crianças, bisbilhuta o chão

como se tivesse perdido as jóias da coroa e investiga o céu,

como se dele esperasse resposta para todas as interrogações

e sonhos de quem tem a vida como promessa.

Ela é deliciosa. É criança.

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É franzina, tem cabelinho curto, já usa óculos, tem joelhos

daqueles onde sempre se espera ver uma esfoladela.

Tem uma mala de livros – que deve ter livros – mas

sebastiãocom bibe.jpg

também deverá guardar, berlindes, papeis de rebuçados,

batons da mãe e mais tudo que calha a uma criança cobiçar,

ou seja, os pequenos nadas a que se pode atar uma ponta de fantasia.

1305-17.JPG

Nas horas de recreio, ela passeia sozinha na praceta.

Sozinha – na aparência – porque, quando ela sobe ao muro

bem largo com dois palmos de altura e nele caminha

de braços abertos concentrada no equilíbrio, como um

tia ze e sobrinhos.jpg

funâmbulo, mudando os pés como se fosse mortal o

perigo da queda – aí – eu também vejo o circo cheio e

ouço as palmas que ela escuta quando salta ligeira

para o chão e olha em redor como que a agradecer à assistência.

leonorzita.JPG

Quando ela fala, fala com a boneca e depois lhe segura na mão

– eu sei que já a convenceu a ir pelo próprio pé, porque a

vejo rojar o chão ao compasso do andar miudinho

da Mãe cuidadosa que ela, então, se sente.    

1305-16.JPG

Aquela menina, nada embonecada, sem laços, sem folhos,

nem enfeites inibidores – vestida com bom gosto e conforto –

que se mexe à vontade na roupa que usa e suja, descontraída

bajeca e joca.JPG

 

e feliz no seu trabalho de brincar – saiu outro dia

de casa com um rolo de higiénico e um ar de ventura deslumbrada.

01.jpg

O que seria? – Não entendi

“Para fazer flores”

– informou ela.

 

Mais tarde, recebi um ramo de ervas viçosas e frescas

(que pus numa jarra) atadas com um grande laço de fartas pontas.

 

Tonta, fora eu, que não entendi que naquelas mãos pequenas de Pipi

das meias altas, tudo se transforma em milagre de verdade.

       

“São rosas, meu Senhor”

Dissera a Rainha Santa – por ser santa.

“São flores”

.

Disse a menina porque vive

o estado de graça de ser

 Criança.

 

Maria José Rijo

 

 

estou: criança-2

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Sábado, 1 de Junho de 2013

Dia da Criança - 1 Junho de 2013




estou: no Museu de Fotografia
música: João Carpinteiro

publicado por Maria José Rijo às 20:00
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Dia Mundial da Criança

 


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estou: Dia Mundial da Criança

publicado por Maria José Rijo às 12:43
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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

Criança

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 .

estou: historia das sanjoaninas
música: Angra do Heroismo-Açores

publicado por Maria José Rijo às 22:19
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

Encontros com o inesperado

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.895 – 3 de JULHO de 1987

A La Minute

Encontros com o Inesperado

 

Gostava de conhecer a criança que respondeu a um inquérito de rádio dizendo que ler um livro na Biblioteca era um bom programa para um dia de férias.

Eu não ouvi. Contaram-me.

Contaram-me e fiquei contente. Gostei de o saber.

Não se vá daqui deduzir que julgo que, isso tem alguma coisa a ver comigo. Não. Não é isso.

E apenas, penso que todos temos que aprender uns com os outros e gostava de conviver com essa criança que tendo gostos afins dos meus, poderia, porventura, ajudar-me a ir ao encontro de outras crianças para que fizessem a descoberta que ela já fez:

-- Ler é bom!

-- Ler é importante!

-- Ler é necessidade!

-- Ler pode ser considerado, também, como um saudável entretenimento.

-- Ler pode até tornar-se um vício.

 

Nesse caso confirma o aforismo que diz:

“Não há regra sem excepção”, pois que, desta vez – o vício – seria virtude.

Saber do depoimento desta criança arreiga no meu espírito, a justiça de certas atitudes que, olhadas apressadamente, quase parecem sem justificação.

Lembro a noticia que li, sobre a criação de uma escola num ponto isolado da costa inglesa, para que os dois filhos do Faroleiro, que estavam em idade escolar, tivessem acesso ao seu direito de aprender. Fora considerado “como crueldade” separa-los dos pais, a quem o dever de profissão obrigava a tal isolamento.

Ergueu-se uma escola para dois alunos.

Não é o caso – mas – posso talvez deduzir que também é justo que mesmo para “poucos” ou “raros” uma biblioteca possa funcionar, ou um programa musical, ou de teatro, ou de qualquer outra matéria, com intenção formativa de qualidade social.

Serei, uma pessoa, entre outros, que, não sendo adepta ao futebol, respeita a promoção que se faz dessa disciplina do desporto.

 Penso, é certo, que esse horizonte foi aberto a outros ramos, eles virão, algum dia, a ocupar também, o lugar a que, porventura, tenha direito. Estou convencida de que canto, bola, dança, teatro, investigação, etc, rtc. … Deveriam ser enquadrados nos programas escolares com o mesmo respeito que merecem a história ou a matemática.

Lamento, sim, que se deixem avolumar algumas coisas de tal forma que elas acabem por encobrir outras também respeitáveis. Da coexistência dos vários sectores dependerá a boa saúde do tecido social.

Apercebi-me agora de que estou “ainda” a continuar uma longa conversa que tive com um interlocutor que, com correcta frontalidade fez a critica que lhe pareceu justa ao meu trabalho, que nalguns sectores muito reprova.

Foi numa tarde quente, amenizada pelo requinte da hospitalidade com que no Hotel D. Luís, nos acolheu a “A Associação Barman de Portugal” – que nos convidara porque ali encerrou um curso de formação.

Foi um convívio agradável e, já gora, confesso que se a critica não teve o sabor do – desejado – me deixou a impressão curiosa de mais um encontro com – o inesperado.

 

Maria José Rijo

estou: A La Minute

publicado por Maria José Rijo às 17:21
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Sábado, 14 de Maio de 2011

Há qualquer coisa que falha

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.889 – 22 de Maio de 1987

CONVERSAS SOLTAS  

Há qualquer coisa que falha

Quando há pouco tempo fui, finalmente, cumprir uma visita de há muito prometida – a dona da casa tinha à minha espera – uma guloseima que, em crianças costumávamos saborear com muito apreço.

Aceitei, agradeci, e porque se tratava de fruto tropical, pouco vulgar - como um natural reflexo, perguntei – e para ti?

Então a minha amiga, comovidamente, disse:

- Ora aí está a pergunta que nem os meus netos, nem os amigos deles, hoje fazem!

E acrescentou alguns judiciosos comentários mais, sobre o assunto.

Falou-se depois de mil coisas várias mas, desde esse dia, que cá por dentro, aquele comentário me obriga a observar e a reflectir!

Tem razão a minha amiga!

A criança hoje é rainha das atenções, e porque há qualquer coisa que não bate certo – é quase sempre – um soberano absoluto, despótico, cruel e quase tirano.

Penso que a criança pode ser rainha por direito, pode e deve, mas como tal deverá conhecer deveres que essa soberania impõe e, acima de todas as obrigações que lhe cabem, deverá estar o respeito pelos “súbditos” que a cuidam, a tratam, a protegem, a alimentam, a instruem e a educam.

Se das crianças se respeitam - e muito bem – os direitos – às crianças deverá ser ensinado o conhecimento dos seus próprios deveres.

Num velho livro de escola doutros tempos, havia uma lição, contada em verso, sobre a história de um cacho de uvas que uma mãe dera a um filho, e começava assim:

 

“ a mãe dera ao filho

Um belo cacho de uvas,

Dourado pelo sol

E regado pelas chuvas…”

 

O filho, lembrando-se do pai, para ele o guardou, que por sua vez, a pensar na mulher também não o comeu.

Desta forma, sem palavras, à sobremesa do jantar, felizes, entre os três repartiram os bagos dourados que cada um, de per si, achara impossível saborear, sem repartir com os restantes membros da família.

Bem vistas as coisas, esta é a politica do Amor, que mais do que qualquer outra – ou acima de todas – sempre há-de formar o Homem Bom.

 

Maria José Rijo

 

 

estou: Á LA Minute
música: 1889 - 22 Maio de 1987

publicado por Maria José Rijo às 15:39
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