Domingo, 10 de Junho de 2007

Dó -Em dia de Camões!

A palavra mais frequente quando se manifesta pesar pelo falecimento de alguém costuma ser: - pêsames!

Também a palavra dó, que todos nós conhecemos e usamos quando qualquer sentimento de piedade nos confrange o coração, costuma ser utilizada em manifestações de luto com a mesma intenção – expressar mágoa – pela morte de alguém.

No entanto, parece-me que ao ser pronunciada a formula - sentidos pêsames – ela, só por si, não estabelece uma partilha afectuosa   entre os intervenientes.

É como quem se desfaz de um mau estar que o incomoda e o passa de mão.

Deu pêsames, estão dados, e acabou-se!

Porém, se disser o meu profundo dó! – já parece estar repartindo um sentimento que em si próprio  permanece  mesmo depois de confessado.

Do que não restam dúvidas, porém, é que, em qualquer das circunstâncias se confessa uma certa preocupação em confortar quem sofre mostrando que se comparticipa desse mesmo sofrimento.

Parece, que não tendo morrido, agora, alguém muito conhecido por aí, esta lucubração venha um tanto a despropósito.

Penso que não.

É  que não são apenas os falecimentos das pessoas que merecem luto.

Merece tanto, ou mais luto ainda, a perda de valores, como a honra, a vergonha, a dignidade, o brio, até a simples compostura.

Daí, que quando se reconhece, que nada disso já vale um vintém furado, embora o vintém já nem tenha cotação nem equivalência no mercado financeiro, o sentimento que nos avassala só possa ser de luto, e a sua manifestação um sentido - dó.

D. João de Castro -IV vice-rei da Índia, empenhou as suas barbas, que homem de barbas era homem de vergonha e honra, e por cumprimento da sua honrada palavra as cortou.

Que a palavra compromete e a honra a defende.

Egas Moniz nos alvores da nossa nacionalidade oferecendo a vida como penhor da sua palavra, deixou seu testemunho para a posteridade, de quanto vale um compromisso de honra.

Os tempos são outros.

Os jornais e os noticiários enchem-se de relatos de corrupções e outras atitudes quejandas que ameaçam pela falência dos bons costumes, da honradez e da coragem, a estabilidade do povo lusíada que o grande Épico cantou, e que somos, já com novecentos anos de história.

Como o sofrimento é a grande escola da Vida, e é de confusão e sofrimento a hora que passa, tenhamos fé nas gerações que hão-de renovar Portugal reabilitando e honrando valores ancestrais eternos e, púnhamos nelas a nossa esperança.

                                                              Maria José Rijo

                                                 Escritora e poetisa - Pintora e articulista

--

Jornal Linhas de Elvas

16-junho – 2005 – Nº 2.818

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publicado por Maria José Rijo às 00:31
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