Domingo, 1 de Março de 2009

Um doce pormenor

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1833 – 18 de Abril de 1986

Á Lá Minute

                      

O dia estava chuvoso e frio.

Na igreja, parentes e amigos, atentos à cerimónia juntavam-se nas filas da frente. Não éramos muitos. A saudade da Senhora que nos reunira pela segunda vez no espaço de 7 dias não nos vinculava a qualquer sentimento de tragédia.

Unia-nos um desgosto verdadeiro, mas também um sentimento de paz.

Sabíamos que iria ser muito sentida pela meia dúzia dos habituais frequentadores da sua casa nas tardes de domingo. A sua irreparável ausência.

Todos conhecêramos o seu gosto de receber, as suas observações argutas e engraçadas. Mesmo já depois de muito velhinha – morreu beirando um século – ainda conservava o hábito de ler os jornais e reler os seus autores preferidos.

 

 

 

Exma.Srª D. Ana Julia Nunes da Silva Sardinha

(víuva de António Sardinha)

 

 

 

 

 

Enviuvara cedo.

Fora companheira inteligente de um homem ilustre e, porque conservava, até ao fim a lucidez e memória tinha assunto de conversa para quem quer que a visitasse e lhe soubesse merecer simpatia e afecto.

              caminhos.jpg

Era distinto o seu convívio e, era enternecedora a maneira como tentava superar a sua debilidade física. Decaia a olhos vistos ultimamente. Entristecia-nos vê-la sofrer. Mas, mesmo assim, sabe-la ali, poder bater à sua porta, entrar nas suas salas, ricas de passado, com aquele cheirinho de casa antiga, sentindo ranger as tábuas do soalho sob os nossos passos, nos sítios já sabidos de cor, provocar-lhe com qualquer dito de espírito uma daquelas pequenas gargalhadas – frescas, como que de rapariga – ou qualquer comentário proferido com uma segurança, que já lhe faltava na voz – dava a todas as suas amigas consolo de alma de quem tivesse Avó de conto de fadas.

Tudo isso terminara, e o cinzento frio do dia que invadia o ambiente do próprio templo, devorava-me qualquer vontade de reagir a tristeza.

- Cedia! Entregava-me.

Foi então, que percebi, que alguém batia ao de leve na porta da igreja.

O guarda atento, ergueu-se prestimoso e, sorrindo, foi abrir.

Com passinho miúdo, entrou decidida uma menina, tão pequena, que batera, por não chegar ainda ao fecho da porta.

                carinho.jpg

-- “Bate sempre”! – Segredou-me o homem, correspondendo ao meu interesse.

Perdi o fio à cerimonia a pensar como a minha Amiga, se visse, teria sido sensível a este doce pormenor, e sai para a rua, enfrentando a tarde agreste com o coração transbordando de ternura pela vida.

 

Maria José Rijo

 

estou: D. Gica
música: D. Ana Julia Nunes da Silva Sardinha

publicado por Maria José Rijo às 19:49
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

QUEIJADAS

Ingredientes:

-- 1kg de requeijão

-- 12 gemas de ovos

-- 4 claras

-- 0,5kg de açúcar

-- 2 colheres de sopa de farinha

-- raspa de limão e canela

-- 1 colher de manteiga de vaca

: Mistura-se tudo – é o RECHEIO.

 

PARA A MASSA:

-- 0,5kg de farinha

-- 100g de banha

-- água e sal q.b

 

Enquanto forra as forminhas, pense em como são lindos na Primavera

os campos do Alentejo, onde os rebanhos pastam docemente.

                        Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 19:39
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

ENXOVALHADA

No dia das amassadura deixa-se um pouco de massa de pão no fundo do alguidar, coisa de 1 quilo.

Picam-se e aquecem-se uns torresmos, dos que ainda restam da matança – cerca de 250g.

Sovam-se na massa. Junta-se o açúcar, mais ou menos 250g e meia chávena de leite.

Deita-se a massa num tabuleiro untado com banha beliscando-a por cima para ficar aos bicos.

Polvilha-se generosamente com açúcar e canela, e coze em forno quente.

Com o calor, o açúcar cristaliza e fica a brilhar sobre a massa como a geada, nos campos, nas manhãs frias de Inverno…

                                    

                                                  Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 20:34
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Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Biscoitos (de Páscoa)

Ingredientes:

- 1kg de pão em massa

- 250g de banha (derretida)

- 500g de açúcar

- 1,250g de farinha (+ ou -)

- Canela em pó (uma colherada)

- Erva-doce – duas colheres de chá

 

Ferve a erva-doce em duas chícaras de água. Com o chá obtido

e a banha, adelgace o pão em massa. Junte o açúcar, depois a farinha a pouco e pouco e a canela. Depois de tudo bem ligado, abafe o alguidar durante uma hora para fintar.

Dê largas à sua habilidade. Tenda biscoitos, cobras, lagartos, pombinhas.

Ponha-lhes olhos de cravo cabecinha.

Pinte com gema de ovo. Dê-lhe alguma espera depois de arrumados nos tabuleiros de lata e coza em forno esperto.

Cheiram e sabem bem.

 

 

Maria José Rijo

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

NÓGADOS

Os nógados são o requinte na doçaria do Natal de Elvas.

Tendem-se como “grossos e longos cordões de oiro” – ensinavam as velhas às novas que lhes herdavam o saber.

Vão-se estendendo sobre brancos panais.

Fritam-se depois como meadas que se escorrem em grandes passadores.

Partem-se à mão em pequenos troços que misturados com mel de abelhas, em ponto de rebuçado, se arrumam em barras sobre a pedra da mesa, tendo o cuidado de molhar as mãos em água fria para evitar escaldões.

 

6 Ovos bem batidos com uma colher de azeite frio;

A farinha que embeber para tender 500g de mel.

 

Maria José Rijo

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

FILHÓS

Pelas Festas, no sossego do serão, quando a criançada já dorme, as famílias juntam-se para preparar o milagre da fartura frigindo as filhós que, tenras de gordura, gostosas de vinho e sumo de laranja, se hão-de derreter na boca, salpicadas de canela ou besuntadas de mel: 2 chávenas de banha derretida: 1 chávena de sumo de laranja; 1 chávena de vinho branco e a farinha que embeber até tender com o rolo.

Recortar com a carretilha e fritar em azeite fervente.

 

                       Maria José Rijo

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