Sábado, 5 de Abril de 2008

“ Estar na berlinda”

Quem, ou quantos, de entre os que se interessam por estas “conversas soltas”, se lembrarão dum “Jogo de prendas”, bem antigo, que muito divertia e entretinha crianças e adultos, antigamente!

            Era o jogo da berlinda.

             

            Se pensarmos que a “berlinda” (um pequeno coche de dois lugares inventado em Berlim no séc. XVII) era utilizada nesses velhos tempos, como hoje são os carros de luxo, teremos a noção de como eram sinais de estatuto social ou grandes dinheiros e, como por consequência, chamavam a atenção evidenciando quem nelas viajava.

    

            Desse destaque se tirou o nome do jogo.

            Tirava-se à sorte, ou oferecia-se o primeiro, para início da brincadeira.

            Sentava-se o “eleito” numa cadeira afastada das outras – a berlinda – e depois dois “pajens” percorriam a assistência escutando em segredo as razões pelas quais cada qual achava que tal situação lhe fora imposta.

            Recolhidos os depoimentos, fazia-se vénia ao visado e numa ordem arbitrária denunciavam-se as razões indicadas pelos jogadores.

            ... Estás na berlinda por isso, ou aquilo ou, aqueloutro...

            Assim se escutavam graças, ironias, louvores, críticas. Ás vezes, até, se destapavam segredos, se apontavam ridículos encobertos, gostos, manias, fraquezas de cada um.

            Tudo que pudesse provocar surpresa ou qualquer divertimento na assistência sempre curiosa por novidades – era válido.

            Ponderadas as sentenças, escolhia a “vítima” para que lhe sucedesse na berlinda, quem mais directamente a tivesse atingido ou pelo elogio ou pela ferroada.

            Fazia-o tentando adivinhar de onde partira a flecha, pagando “prenda” se errasse.

            Quando “vi” mais uma vez alguns políticos de tripas ao sol – não é que pensei que agora é moda jogar à berlinda!?

            Se isto não for brincadeira – não lhe vejo remédio capaz – nem acho graça.

            Se isto é jogo de prendas! – Lá as fazem, lá as baptizam – ou, como dizem os brasileiros: são brancos, que se entendam!...

            São coisas de festas de família, onde, quer se queira, quer não – há sempre intrigas e invejinhas torpes.

            Mas... se não fôr?

            Ah! – Então daqui a pouco as berlindas começam a andar vazias porque os impolutos críticos de ontem, quando sentados nelas, ficam tão vulneráveis que nem precisam de um Guilherme Tell para acertar nas maçãs que lhes ofereceram a tentação.

                         

E, se calhar, quando todos andamos a pé e nos conhecermos melhor, havemos de cometer menos erros e viver menos equívocos.

            Sabe-se, lá!

            Pelo menos de esperanças vive o homem.

 

 

                                           Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.347 de 19 de Abril de 1996

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 01:09
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