Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

“Guardar papelada tem seus quês”

            Por vezes, eu própria, guardo recortes ou artigos de jornais e revistas a que por razões diversas acho algum interesse. Uns, porque falam de gente que conheço outros, porque me fornecem ensinamentos que reputo de utilidade para o meu dia a dia, outros pela qualidade literária, outros, por mais isto, aquilo, ou aqueloutro...

            Mas...na papelada que conservo; o que mais me encanta, comove e por vezes me intriga são os recortes amarelecidos pelo rolar dos anos que, parentes e amigos me foram oferecendo e que religiosamente arquivei.

            Às vezes, sem bem saber porquê, começo a folhea-los e chega a ser perturbadora a emoção que causam pela circunstância de me calhar compulsa-los como que comandada por um instinto oculto que me advertisse que deles me viria a resposta ou a ajuda para o esclarecimento de que estava a necessitar.

O que é inegável é que ao compulsar essa velha papelada sempre me ocorre o desejo de adivinhar quem a teria guardado e porquê.

Teria sido o visado pela notícia? - Teria sido a mãe? - O pai, - a filha. - o filho ?- que envolvimento afectivo ,amoroso, talvez, leva alguém a recortar bocados de jornal e conservá-los anos e anos e passa-los de mão em mão como se fosse necessário preservar como herança preciosa a noticia do facto que o jornal levou a público, ainda que dela  reste apenas sinal num papelzinho esmaecido no fundo duma gaveta! Estranhos e emaranhados são os caminhos do afecto.

Quanto de amor, quanto de orgulho, quanto de alegria, umas vezes; outras, quanto de dor, de mágoa se são de mortes as notícias recortadas...

Mas, os papeis lá estão; relatando os factos na indiferença e frieza das letras que o tempo vai desgastando

Foi com estes pensamentos que resolvi substituir o veludo coçado que revestia a caixa antiga que me fora dada de presente com o recheio-testemunho que nem sei a quem passar.   Algumas vezes pensei: - e se eu queimasse tudo isto? - Porém no último momento alguma coisa, como que um íntimo pudor me foi detendo; e fui tornando a guardar tudo e, acrescentando até, com mais uma coisinha ou outra...                  

           

Decida, rasguei o tal tecido gasto. Embelezar o invólucro talvez pudesse salvar o tesouro, pensei.

            Foi então que do meio dos farrapos rasgados me surgiu um bocadinho de papel de carta muito bem dobrado, sujo de poeira e quase castanho na cor.

            Hesitante, mas curiosa, desdobrei-o e li as duas palavras que alguém em letra firme e bonita nele gravara:- Amo-te Querida !

            Guardar papelada tem seus quês...

            Guardar papelada pode pôr nas nossas mãos pontas de fios enredados que é impossível destrinçar, como naquele momento em que frente aos meus olhos uma mensagem de amor não sei de quem, nem para quem, me oferecia notícias dum passado que não conheço mas, estranhamente criava um rasto de poesia e mistério.                                                                             

            Vêm-me à memória amores célebres e infelizes. Mulheres que estiolavam fechadas em conventos, suspirosas e tristes. Quantas delas teriam num último instante ao despedir-se do mundo escondido assim ingenuamente, qualquer mensagem por

ínfima que fosse, dos seus amados, sem coragem para destruir todo o rasto dos seus sonhos tantas vezes impossíveis…

            Guardei, com mãos trementes, o fragmento de papel onde o amor canta naquela simples afirmação Porem, qualquer coisa me segreda que não foi a felicidade que fez a sua destinatária ocultar tão cautelosamente as palavras que deveriam

deixar  festa oseu oração.·                                                                                                                    

           Da carta completa que me daria a chave, apenas restou:

- amo-te querida!                       

           Era, ou foi, o essencial para quem ela se destinou. Como é o essencial para aguçar a fantasia de quem, por acaso, inesperadamente, sem o poder entender toca os mistérios da alma de alguém que jamais conhecerá...

Guardarpapeladatemseusquês!                                                                                                                                                                                                                                                                                    

                                                                           Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.504 – 14/5/99

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 21:13
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