Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


O Aniversário do Avô Livro - 1994

Segunda-feira, 14.10.19
Conversas Soltas
Nº 2.244 – 15 de Abril de 1994
Jornal Linhas de Elvas e Jornal O Dia
O Aniversário do Avô Livro

Resultado de imagem para livro mais antigos

Com a minha amizade agradecida a todos quantos faziam o favor de ler o meu “À Lá Minute” e também para as delicadas colaboradoras que ainda hoje se empenham na defesa do Património inestimável que a nossa Biblioteca contém.

A notícia correu na cidade.

Resultado de imagem para jose almeida rijo

Em 30 de Dezembro de 1988 – na nota da semana do Jornal “Linhas de Elvas”

 JOSÉ RIJO escrevera:

“Festejar o lançamento de um livro é normal, é do dia a dia. Festejar 500 anos de vida de um livro é ideia que ultrapassa a simples satisfação e orgulho de um autor pela obra concluída para ser uma demonstração do respeito natural e dignificação pelo “Livro” na generalidade.”.

 

Por entre as altas estantes repletas de livros que vestem as paredes de salas e corredores do velho convento dos Jesuítas adaptado a Biblioteca desde o dia 10 de Junho de 1880 – no reinado do Senhor Dom Luís que Deus tenha em sua Santa Guarda – passava eu naqueles anos 86/89 vezes incontáveis.

Faze-lo era uma preocupação do meu quotidiano que nunca se tornou rotineira.

Fosse das brancas abóbadas, do vermelho da tijoleira encerada, da passadeira de corda que abafava os passos, fosse dos reflexos de luz nas estantes castanhas. Fosse da presença dos cerca de 80.000 livros. Fosse dos nomes gravados de autores, beneméritos, fundadores… fosse do que fosse o ambiente por lá tem qualquer coisa de poético e sagrado que prende.

Resultado de imagem para livro mais antigos

Nos dias bonitos, pelas janelas talhadas nas paredes espessas por onde se espreita o jardim, entravam nesgas de sol que no movimento cadenciado do tempo iam como ponteiros luminosos indicando lombadas, avivando oiro de letras acordando da sombra títulos mais gastos como que sugerindo: - olha aqui.

Resultado de imagem para livro mais antigos

Os livros novos, com seu cheiro de colas e tintas frescas despertam o apetite, a gula como caramelos. São apetecíveis, alegres, vistosos. São quase “barulhentos” na vivacidade das cores das capas.

Os livros antigos são mais silenciosos e comoventes. São discretos, quietos e sábios como eremitas.

Passar por entre eles, assim – tu cá, tu lá – já era um privilégio.

Então sentia-me como um centurião cheio de fé a quem -  segundo S. Mateus no Evangelho Jesus disse: “Vai e assim como acreditaste assim será”.

Nunca duvidei que o milagre vivia ali ao meu alcance.

Os livros ressuscitam a qualquer momento.

Era só parar.

Resultado de imagem para livro mais antigos

Parar, estender um pouco o braço, espetar o dedo indicador, pressionar o topo de uma qualquer lombada e pronto.

O livro cede. Obedece. Inclina-se.

Fica rendido – disponível.

Então a mão completa o gesto, dá-lhe apoio e recolhe-o. Abri-lo, folheá-lo, lê-lo… é a tentação.

Pronto. Aí está oferecido – de bandeja – uma vida, uma alma, um passado, uma aventura, uma experiência, uma história, um amigo, uma companhia. Tudo um livro pode ser e conter – mas, sempre, sempre o milagre à nossa mão.

 

Lê-se, relê-se. Pega-se, larga-se.

Ama-se, detesta-se, dá-se, vende-se, compra-se, rasga-se – queima-se – conserva-se! E tudo o livro consente.

Será que sente? – (Às vezes penso que sim)

O livro. Aquele livro noticiado fazia 500 anos.

Foi impresso em “Veneza no ano da Salvação de 1488, 8º Dia das Calendas de Novembro” – o que equivale actualmente ao dia 25 de Outubro.

Resultado de imagem para livro mais antigos

Escrito em latim, tem o título de “Liber Medicinalis” e foi seu autor Quinti Sereni.

Veio-me ter à mão, por acaso.

Era agradável ao tecto, quase morno, como um corpo vivo.

Fiquei a passá-lo de folha em folha. Dos livros até o cheiro é bom – (era o meu estribilho) quando falava à garotada que procurava contagiar do meu desvelo por eles.

É um livro belo, profusamente ilustrado, cheio de referências à astrologia – um livro cheio de mistério, muito bem conservado ainda.

Resultado de imagem para livro mais antigos

As páginas amarelecidas tinham manchinhas, como sardas, cor de chá num rosto nobre de pele curtida empregaminhada pelo tempo.

Como se vestisse um casaquinho justo de cabedal castanho, ali estava, nas minhas mãos enternecidas, encadernado em couro macio como seda.

Não é de todos os dias que se tem o condão de conviver e poder tocar em preciosidade como esta.

A biblioteca que o acolhe tinha sido recuperada com esmero. Cativar pequenos para o entre e sai que os familiarizasse com o espaço era o propósito principal de tudo que então, por lá se fazia.

A descoberta daquele “Avô livro” que fazia 500 anos foi um achado.

Logo se acomodou (a recato de tentações) mas em evidência e foi honrado com sua vela de aniversário, seu laço de fita de cetim branco e sua taça de rebuçados para retribuir “docemente” a atenção de quem quer que o cumprimentasse. Foi a festa.

Resultado de imagem para livros belos

Ficou entronizado ao meio da sala de leitura e até se conduziram pela mão os mais miúdos.

- Anda, vem vê-lo! – Dizia eu – mesmo que não o entendas não faz mal. Ele é de outros tempos, usa outra linguagem – mas vem. Vem, que ele gosta e tu também vais gostar. Verás que te oferece rebuçados dos que ele usa para a tosse…

E a garotada, emocionada ria. Queriam ver, faziam perguntas. Deslumbravam-se descobrindo que aquele livro já existia no tempo das descobertas. E com seus olhos limpos de crianças, arredondados de pasmo repetiam: do tempo dos descobrimentos?

Resultado de imagem para livros belos

Os rebuçados iam desaparecendo. Iam-se renovando e velhos e novos, iam sorrindo e reflectindo conforme as idades, a formação, os gostos, as preocupações sobre aquela festa singular.

No centro do acontecimento – o Livro – Um livro!

Era o seu mês de aniversário.

Era a sua honra de ser o anfitrião de honra naquela Biblioteca fabulosa, recheada de maravilhas e ainda com tantos segredos por desvendar.

Ensinam-se as crianças a lavar-se, vestir-se, pentear-se, estar à mesa desde a mais tenra idade.

Dá-se-lhes responsabilidades pelo brinquedo caro, o fato, a prenda de ouro.

Resultado de imagem para livros belos

Saiba cada qual desde que começa a identificar o seu prato, a sua cama, a sua casa, a sua rua – que é igualmente seu e está à sua guarda o património que testemunha o passado do seu País – e tudo mudará.

Resultado de imagem para livros belos

Se eu tivesse duvidas – que não tenho – bastaria recordar a unção, a religiosa alegria que transbordava do rosto de qualquer menino ou menina a quem eu desse a mão e conduzisse junto da estante do cancioneiro da Públia Hortênsia para lhe pôr “aos pés” um botão de rosa, ou, um pé de rosmaninho junto aos Anais de Elvas ou qualquer outra simples homenagem a qualquer livro raro.

Se eu tivesse dúvidas…

Resultado de imagem para livros belos

Pensaria na dignidade, na compostura com que me acompanhavam e ficaria com a certeza, que guardo comigo, que o faziam como quem pede a bênção a um velho antepassado – com comoção e respeito e a consciência de que aquele culto os transcendia.

Maria José Travelho Rijo

Resultado de imagem para Maria jose rijo

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 12:22

As gavetas da memória

Sexta-feira, 11.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006
Conversas Soltas

gavetas.jpg

As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

Resultado de imagem para maria jose rijo

A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

 Resultado de imagem para fotos maria jose rijo              

Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

Resultado de imagem para fotos maria jose rijo

Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

HÁ TAMBÉM AS GAVETAS PRAZEROSAS, SÃO AS DO BRAGAL, COM SEUS BORDADOS E RENDAS DE ENFEITES, SEU CHEIRINHO DE GUARDADOS, COM RESSAIBOS DE ALFAZEMA, TÉNUES, COMO LEMBRANÇAS VAGAS, DAS MÃOS HÁBEIS DE QUEM AS URDIU PACIENTEMENTE E, AGORA NOS APARECE NUMA MISTURA DE ENCANTO E SAUDADE...

pai mae e tias.jpg

 

 

 






Quantas horas de amor de mães, avós, tias,  amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

Resultado de imagem para maria jose rijo

Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas, clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

  Resultado de imagem para fotos maria jose rijo  

E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

Resultado de imagem para fotos maria jose rijo

Maria José Travelho Rijo

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 00:50

“ AOS PÉS DO DONO “ - 1986

Quinta-feira, 10.10.19
Á La Minute
Jornal linhas de Elvas
Nº 1.844 – 4 de Julho de 1986

Resultado de imagem para maria jose rijo - trabalhos madeira
 (( escultura de madeira de Maria José Rijo ))

Foi perto do rio Degebe, nem sei há quantos anos!

Na sombra duma árvore, à beira da estrada, um pastor descansava, apoiado ao cajado, olhos afundados na distância, absorto. Sentado a seus pés um Serra de Aires, quase pardo, orelha afilada, atento a tudo, boca entreaberta como de alguém indeciso, entre um sorriso de acolhimento ou a pergunta curiosa que se adivinha no olhar e se cala a custo.

Resultado de imagem para maria jose rijo - trabalhos madeira

Imagem de paz e solidão. “Solidão, ai dão, ai dão – solidão do Alentejo”.

Assomam à memória reminiscências, repetições, aprendidas em dias quentes.

Imagens presentes, fora e dentro da gente que sente e percorre a sua terra.

Paramos a olhar, saboreando o dia, a hora, o instante fugaz, a voz do sangue.

Relembram-se dias, tardes, tempo, visões antigas iguais ao presente, antevendo futuro num clima imutável que institui hábitos com a força de dogmas.

O carro, nós, o pastor, o cão, num instante quedo no tempo, quieto duma espera de contemplação…

Então, surge outro carro, veloz, louco, incontrolado, ruidoso como um besouro a voar ao sol na tarde quente. Guina, ultrapassa e pára mais à frente na valeta baixa.

Gente nova, perturbada, atónita, desculpa-se insegura…

Na sombra redonda da azinheira, bordão caído ao lado, joelhos no pasto seco, o pastor em silêncio afaga o cão, de corpo lasso, mole, deitado agora, com um fiozinho vermelho a escorrer-lhe da boca.

-- “Do mal, o menos, ainda foi sorte, foi o cão! – comenta o causador do dano que tenta violar o silêncio obstinado do pastor.

-- “Quanto quer pelo cão? – Diga homem! – Responda!”

O pastor não fala.

O rapaz insiste: - “ quanto quer, eu pago!”

-- “Não basta o que basta” – Diz enfim o pastor.

“Pago! Pago! Pago! – “Pagas o raio que te parta!”

-- “E à noite os mocinhos!?” – Sim – à noite os mocinhos?!”  - interroga enquanto agarra o bordão e se ergue repetindo na voz do seu pasmo inconformado:

-- “Ali, ós mê’s péis! - Ali, ós mê’s péis!

Afasta-se e as ovelhas seguem-no – os carros partem e o silêncio retoma o seu espaço.

Solidão ai dão, ai dão.

Solidão do Alentejo!

Imagem relacionada

Maria José Travelho Rijo

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 14:56

Trabalhos de Maria José Rijo - Conchas

Quarta-feira, 09.10.19
Feeds:
 
Arte em conchas

Arte em conchas

“A beleza é o brilho do ideal no reino do visível.”

[Platão]

presepio-1
presépio-3

Maria Jósé RijoMaria José Rijo_05

Maria José Rijo_04
Maria José Rijo_02
Maria José Rijo_01
Maria José Rijo_03

Malubiartes

 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 15:14

Quadro de Maria José Rijo...

Quarta-feira, 09.10.19
 
História do Brasil e do Mundo

A origem do mundo



Os pedreiros - Maria José Rijo - 
http://a-la-minute.blogspot.com/


A origem do mundo
A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão.
Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
? Mas papai ? disse Josep, chorando ? se Deus não existe, quem fez o mundo?
? Bobo ? disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando ?. Bobo.
Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 14:51

Publicação do Município de Ferreira do Alentejo

Quarta-feira, 09.10.19

N_Postal-CMFerreiraAlentejo.jpg

1" width="269" height="329" />

...com as papoilas que são tão genuínas em abril no nosso alentejo,

brindemos à Liberdade...

(Romana Romão - Presidente da Assembleia Municipal)

https://ferreiradoalentejo.pt/es/agenda/

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 14:38

ÚLTIMA CARTA DO BRASIL - IV - 1996

Sexta-feira, 04.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Conversas Soltas
Nº 2.356 – 21 /Junho/ 1996

Conto chegar a Elvas antes que esta carta atinja o mesmo destino.

Porém, uma vez resolvi continuar, mesmo de longe, as nossas “ Conversas Soltas”, cada uma de nós e eu – faremos separadas os nossos percursos comuns.

Pois, aqui estou, sem qualquer outra preocupação além de estar convosco, desfiando as minhas recentes lembranças. Aliás, isto de recordações é mesmo assim: - sem cronologia possível.

Tenho em mãos um monte de fotografias. Revendo-as, mesmo agora se me deparou o “Baiano” de quem já falei.

Ai vo-lo mando com seu balaio e um monte de flores, que varreu, juntas a seus pés.

Outro dia, avistei-o numa azáfama a cortar cana. Fui ver. Era cana-de-açúcar.

-“Seu Aguiar mandou”.

-É p´ra cortá e limpá este negócio”.

Cortou, limpou de folhas, raspou e fez “uns troços aí, n´e?” – que “Seu Aguiar mandou".

Resultado de imagem para baianos - trabalhador do brasil

Mais tarde, “Seu Aguiar”, foi surpreendido em estranhas funções (com bata própria para a função) a preparar a bebida “mais gostosa qui você, já viu, n´é?” – suco ou caldo de cana, que geladinho é realmente uma verdadeira delícia.

Também queria não me esquecer de contar que (na sua grande maioria) aqui na cidade vizinha – Resende – as lojas não têm portas e montras. Toda a frontaria abre como um largo portal e, da rua, vê-se tudo quanto têm lá dentro. Aliás, até dá a impressão de que estamos em contacto com pioneiros, colonizadores. Gente que ainda está desbravando e descobrindo rumos.

Já devo ter referido que nascem por aqui os rios Stº. António, Pirapitinga e o Alambari o que proporciona uma imensidade de veios de água a esta região.

Todas as propriedades, mais ou menos fruem essa benção das águas correntes que escorrem da montanha.

Resultado de imagem para brasil - resende

Para chegar a Resende que dista uns escassos 20Km do local onde estou instalada transpõem-se 5 pinguelas (pontes de madeira) – tantos são os braços de rio que refrescam encostas e vales saltando muitas vezes em belas cachoeiras.

Resende, por sua vez, é atravessada pelo rio. “Paraíba do Sul”. Água, é realmente o que por aqui não falta.

Resultado de imagem para brasil - resende - cachoeiras

Beleza, pujança de verde e pitoresco – moram por cá também.

O “Bate-chapas” é aqui o “lanterneiro”. A razão é óbvia. O automóvel sucedeu aos trens.

Quem sabia mexer em latão era quem fazia as lanternas. Os transportes evoluíram.

O engenho e a necessidade proporcionaram a adaptação... o nome manteve-se.

Os pneus compram-se no... Borracheiro.

É, por aí fora um sem número de curiosidades.

O mal destas viagens, como esta minha é que se vê muita coisa em pouco tempo. Um mês para ver qualquer coisa do Brasil, é – Nada!

Vou procurando resistir à tentação de falar das cidades grandes. Há milhares de postais que delas contam tudo por imagens.

Resultado de imagem para brasil - resende - cachoeiras

Julgo que o único interesse que estas cartas poderão ter é o relato de apontamentos de acaso que faz a experiência pessoal de cada um.

Aqui há dias, no “Nipo” (mercado das frutas japonesas) com olhos húmidos de comoção uma simpática senhora perguntou-me: é portuguesa ?

Resultado de imagem para brasil - resende - mercado das frutas japonesa

Perante o meu assentimento quis saber de que parte do nosso país eu era, se estava para ficar, se não, e mais isto e mais aquilo e lá veio de seguida a sua própria história (de êxito financeiro, por sinal) e muito especialmente da sua pungente saudade.

Tem casa em Coimbra. Deu-me a direcção, telefones e sei lá que mais e insistiram ela e o marido para nos oferecerem de almoçar.

“Sabe? - confidenciava: nós somos mais sentimentais, mais dedicados... – aqui ninguém olha para trás”.

Nós vamos a Portugal todos os anos. Mas... o dinheiro enlouquece as pessoas... já há muitos anos que poderíamos ter regressado! 30 Anos é muito tempo...

De quantas saudades assim estará amassado o progresso do Brasil! – Nem posso calcular.

Estes são donos de uma rede de estações de gasolina e restaurantes – mas ela só sonha com o regresso.

Uma viagem que fiz muito “gostósa” foi a Nossa senhora da Aparecida. (lembram-se da canção da Elis Regina’)

Resultado de imagem para brasil - resende -  nossa senhora da aparecida

Aparecida é a Fátima de cá. Rezei por Elvas.

Visitei as termas de S. Lourenço e de Caxambu no Estado de Minas.

Agora ficaria aqui horas a falar de orquídeas, parques, fontes, auditórios entre canas de bambú, lagos, teleféricos e mais nem sei quê...

Mas... nem vos quero maçar mais e tenho que fazer as malas para voltar a casa.

Sei que vou recordar com agrado estes dias diferentes. Sei que a amizade que se recebe e retribui ajuda a viver.

Se ainda que ninguém substitui ninguém e nada substitui o nosso canto.

De qualquer modo é bom aprender a viver com o mundo de perdas e ganhos que cada qual transporta dentro de si.

Só com essa paz interior se consegue olhar cada flor, cada pássaro, cada dia que nasce sentindo que “isso” também acontece para nós e esse deslumbramento está ao alcance de todas as pessoas a quem nos irmana o amor à vida.

Maria Jose Travelho Rijo

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 14:09

CARTA DO BRASIL – III - 1996

Quinta-feira, 03.10.19
.Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.355 – 14- Junho 1996

Resultado de imagem para brasil visitantes

Muitas outras pessoas têm vindo e virão ao Brasil.

Por negócios, por lazer, por motivos diversos.

Quase todas, ou muitas delas visitam em pormenor as grandes cidades, as belas praias, o pantanal e, tudo quanto se visite sempre ficará como recordação indelével.

A mim coube-me a sorte de ficar instalada numa região protegida ecologicamente.

Aqui, quem tiver que arrancar uma árvore nativa tem que plantar cinco da mesma espécie!

Resultado de imagem para brasil - arvores

Neste fim de mundo, por estradas de pioneiros, passa periodicamente o carro de recolha de lixo e, ainda não vi, nas matas, nos riachos, em parte alguma, uma lata de cerveja vazia, um papel, um saco de plástico!... E tenho palmilhado extensões enormes.

A região ao contrário do que me pareceu à primeira vista, é povoadíssima. Acontece que a vegetação encobre as casas e a área por que se disseminam é muito extensa. Com surpresa para mim constituem-se assim em povoados.

Curiosa e muito interessante é a maneira como se anunciam e “previnem”, quem passa, da sua existência.

Fazem-no por cartazes e tabuletas, às vezes simples, quase sempre belas e artísticas.

Resultado de imagem para brasil - arvores

Fica-se por vezes com a sensação de que o Município – a Perfeitura – como cá se designa – paternalmente dá a mão a quem por aqui se aventure ou habite.

Numa curva duma estrada, no meio da vegetação pode aparecer uma advertência absolutamente impensável em qualquer outra parte, por ex: “use a primeira marcha”.

Resultado de imagem para brasil - tabuletas - recados nas estradas placas

Muito interessante também é a acentuada influência de outros países na formação das cidades. Algumas que já vi são nitidamente micro-países implantados neste Brasil de dimensões sem medida. Penedo – por exemplo: fundado em 1929 por Finlandeses – começou numa antiga fazenda de café, já improdutiva, porque exausta a terra pela monocultura. Oitenta a cem pessoas lideradas por Toivo Uuskallio, naturalista finlandês, repovoaram o espaço com árvores de fruto e espécies nativas, dedicaram-se ao artesanato, compotas, cultivo de plantas medicinais e enriqueceram a cultura brasileira introduzindo aqui os seus costumes. Foi graças a essa gente que Penedo se tornou berço da flora no Brasil e as pessoas entenderam e aceitaram o lema que os guiava:

“Viver de acordo com a natureza”.

Outra zona particularmente bela e diferente é Campos de Jordão nos vales e encostas do Itapeva (cá está outra vez ITA = a grande em Tupiguarani). O Pico do Itapeva tem 2030 metros de altitude.

Resultado de imagem para brasil -  Pico do Itapeva

Campos de Jordão reúne três cidades Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. Aqui a influência escocessa e alemã – são evidentes bem como a suiça – até nos nomes dos hotéis, pousadas, restaurantes, cujo número excede os setente, fora cantinas, pizzarias, etc, etc.

É na verdade uma impressionante e linda estância de turismo.

Resultado de imagem para brasil -  Pico do Itapeva

É lá que gira “a tal” Maria Fumaça – a maquininhq a vapor de 1893 – que recuperada lá vai puxndo o “trenzinho” e eternamente foi apelidada de “Vóvó Hortência”.

A propósito de apelidar tudo a torto e a direito, um apontamento engraçado. Procurava eu, numa das lojas aqui de Resende, um creme para me defender do sol da montanha, quando uma crioulinha muito graciosa entra e diz:

Resultado de imagem para brasil - papel higiênico

---- Oi! – Mi dá aí P.H?

---- Qui cô você qué? – Perguntou o dono da loja

---- Marélinho.

E, frente ao meu divertido espanto lá saiu a garota com uma embalagem de papel higiénico na cor requerida.

Também na semana passada quando estive no Rio instalada em casa de familiares na Barra da Tijuca, vivi momentos de beleza que nem vou tentar descrever.

Resultado de imagem para brasil -  barra da tijuca

Via das nossas janelas nascer o sol por detrás do Pão de Açúcar e, à direita, tinha o calçadão e o oceano imenso logo ali a meus pés, a falar-me dos laços indeléveis que unem os nossos povos.

Resultado de imagem para brasil -  pao de açucar

Á noite, a praia imensa e iluminada como se fora dia.

O proprietário do apartamento (advogado muito conhecido aqui) quando se apercebeu que um Ministro tinha mandado retirar, em Brasília, aquela célebre bandeira de dimensões imensas – pôs uma acção contra a decisão governamental e – ganhou!

Aqui está uma verdadeira “coraçonada “ á portuguesa. Aliás, ele é casado com uma patrícia nossa.

Aproveito para confessar que jamais pensei que o Rio pudesse ser o que é e, como é.

Não tenho sequer, definições.

Emudece-me a beleza natural – mas também – a visão indisfarçável da “Rocinha” a maior “favela” da América Latina – com 300.000 habitantes.

Resultado de imagem para brasil -  favela rocinha

Comove-me o rasto indelével dos portugueses.

Perante a minha confissão de ter achado o Rio feio visto de avião – foi-me explicado que entrando por aquele voo que eu fiz, toda a gente é levada a dizer o mesmo. O que não acontece a quem vier por S. Paulo.

Vou andar por aqui, se Deus quiser, até Junho. Talvez volte a escrever, talvez não.

O serviço de distribuição postal aqui é caótico. O Brasil é um país de contrastes clamorosos.

Tinha que ser assim, dadas as suas dimensões e a disparidade de desenvolvimento de umas zonas para as outras.

Só este Estado tem mais população do que Portugal inteiro. Falam-me em 12,13 milhões...

Há extensões maiores do que o Alentejo inteiro, só cobertas por de capim.

Resultado de imagem para brasil -  japones

Conta-se que um político japonês (de quem rezam o nome) visitando o País por convite governamental, com aquela subtil ironia, própria dos orientais, perguntou ao parceiro ministro que o acolitava: “No Brasil é proibido cultivar a terra? “.

A minha visita ao Rio foi – por sorte minha – feita de contrastes.

Hóspede de gente abastada, fidalga no trato, foi-me mostrado o melhor de cada coisa deslocando-me em bons carros com companheiros conhecedores do meio. Depois, quis, por minha decisão mergulhar no “povão” – usando transportes públicos e mudando de “ônibus” sempre a entrar pela porta da frente usando o benefício expresso em letras bem visíveis na carroçaria:

Resultado de imagem para brasil -  onibus

“Gratis a maiores de 65 anos ,Estudantes uniformizados, Crianças e deficientes”.

Aí, aprende-se vivendo circunstância, que as pessoas são generosos (dão o lugar aos mais velhos...) afáveis colaborantes e, até cheios de humor.

Resultado de imagem para brasil -  vendedores de rua

Os vendedores de rua, que surgem como formigas, de tudo quanto é lado, entram frequentemente também pela porta da frente – por condescendência dos condutores (colher de chá, como aqui dizem que só dão os que não têm espirito de porco!) – e percorrem o corredor central das viaturas anunciando os seus produtos e saindo pela porta de trás.

Fazem-no quase em surdina numa melopeia engraçada, por exemplo:

“Olha p´rá distráir a fôme até chegá o chocólatchi, dá

Alimento, aquéci.

Um vale um réau

Dois vale réau e meio

Si você próvá qui tem salário minimo é di graça.

Também nâ chêga p´rá nada mêmo! “

Ninguém comprou, saiu dizendo:

“Ó minha Nossa! – Vida gosada! – Não é qu´é mêmo só diabético!”.

Assim por aí fora – Um baráto – como eles próprios diriam.

A Avenida onde os idosos se passeiam e sentam ao sol é o – “aposentadromo”, O quiosque das goludices é a “chicléteria”.

Mas a definição da zona onde assentei arraiais é, no guia turístico referida assim por Helena Reis:Resultado de imagem para brasil -  visita guiada

"Falar de uma região santuário ecológico é:

murmurar com as águas, cantar com os pássaros,

ser doce como o mel das  abelhas e sair beijando flores.

É sobretudo, agradecer a dádiva da natureza e preservá-la”.

E... é verdade! É verdadgi Mêmo!

 

Maria José Travelho Rijo

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 12:53

CARTA DO BRASIL – II - 1996

Quarta-feira, 02.10.19
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.354 – 7-Junho -1996

A serra a que se encosta a “roça” onde estamos chama-se Itatiaia – o que quer dizer: - ita – pedra – e, neste caso pedra com muitos bicos.

Resultado de imagem para itatiaia

Três desses cumes – gorila, gorilinha e mata-cavalos – são o fundo do nosso cenário de cada dia.

Mata-cavalos porque, animal que quebrasse as pernas passando o estreito entre as serras, o que era frequente, morria por lá. A altura da serra é de 1.800 metros.

Por detrás destes montes esconde-se o sol aí pelas 17 horas mais ou menos. O crepúsculo é breve. O mesmo é dizer que às 18 e 30 é noite fechada e os serões são intermináveis. Para nós, portugueses, que raciocinamos em termos de outro fuso horário, confunde um pouco.

O dia começa-se muito cedo. Às seis da manhã, hoje já o Baiano de” balaio” ao ombro (Balaio é um cesto. Já ouvi este termo no Algarve, na região de Estombar) e forquilha na mão se preparava para limpar a relva das folhas caídas.

Resultado de imagem para o baiano com o balaio - antigas fotos

Esta “roça” é atravessada por um rio o “Piripitanga”. Como ele vem da montanha aqui junto, onde nasce, o seu caudal não é aqui ainda muito volumoso. Daí que tenha sido domesticado em função da beleza do local. Com imaginação e aproveitando os enormes rochedos de granito fazem-no serpentear por todo o lado e passar por sucessivas albufeiras que escorrem de umas para outras.

Resultado de imagem para brasil - serrinha do alambari

Sendo a propriedade de um português a “roça” virou “Quinta das albufeiras” em vez da designação local. O espaço é grande. Embora tenha a horta bem disfarçada entre a cultura de abacaxis e outras próprias da região “taioba” por exemplo (cujas folhas se comem em esparregado e sopa e o rizoma frito como batatas) – a propriedade, dizia, está mais vocacionada para lazer. Além da casa dos donos tem dois pequenos “ranchinhos” para receber com independência familiares e amigos.

Resultado de imagem para brasil - serrinha do alambari

Instalaram-nos quase escondidos entre a vegetação exuberantíssima e de tal modo que o sol ao nascer lhes bate nas janelas e a passarada começa logo no corre-corre aos comedouros que lhes estão destinados e estão sempre bem providos de fruta e sementes.

Assim, a gente, quando acorda quase julga que durante o sono se mudou para o paraíso.

O “ranchinho” que escolhi para mim está erecto sobre uma ponte de cimento que atravessa o rio. Rente á janela, a sul, tem uma albufeira onde às seis da manhã já andam os “Jacus” – parecem pequenos perus e uma outra ave com patas vermelhas e pernas altas, parecida com uma grande perdiz que se chama “Saracura”. O rio, alimenta a piscina frente á minha porta e corre, corre sem parar como é destino dos rios.

Resultado de imagem para brasil - serrinha do alambari

Toda a noite o som da água embala a minha saudade pelas pessoas que queria ter junto de mim.

Logo ao amanhecer quando escuto o som que lhes é próprio, fico quieta por detrás dos vidros da janela a ver esta passarada entrar e sair do mato e banhar-se na lagoínha de águas tão límpidas e transparentes como se Deus a tivesse acabado de criar.

Á noite, de luz apagada venho para a porta olhar o céu. Parece mais baixo e mais estrelado do que aí. Não fora o “cruzeiro do sul ” lá no alto e quase pensaria que tudo isto era um cenário imaginado.

Ao lado da “minha” porta é a sauna e a seguir o alpendre dos churrascos.

Há cinco anos instalou-se na região uma colónia de finlandeses que trouxeram para cá este costume.(Noutras zonas que já visitei e de que gostaria ainda de falar há marcadas influências alemãs e suíças a ponto de pensarmos que mudamos de país tão acentuado é o cunho que lhes imprimiram.)

Aqui fazem sauna á noite e de imediato vão ao banho na piscina.

Até agora não ousei a experiência!...

Regalo-me na piscina, sim! – Mas de dia com um sol luminoso e quente a confortar-me.

Ontem, houve churrasco – era dia de aniversário do dono da casa – razão que cá me trouxe Festejar 80 anos com estas condições físicas e intelectuais é mais do que razão para festejar.

O Churrasco, aqui, é uma tradição engraçada. Veio o “churrasqueiro” e a mulher para as tarefas domésticas.

Resultado de imagem para churrascos no brasil

Assaram boi, frango, linguiça e lombo de porco. Beberam cerveja, vinhos, caipirinhas e caipiroskas.

Tal como nas novelas o churrasqueiro e a mulher discretamente, confraternizam com as visitas e os donos da casa.

Mesmo para as carnes, os acompanhamentos metem sempre: “feijãozinho”, “arroiz” e salada de batatinha.

Resultado de imagem para churrascos no brasil

As pessoas são afáveis e comunicativas. Conversam de tudo e de nada, de política e de assuntos de interesse local.

Fazem-no sem o nosso ar de tragédia.

Comentam a “porcaria da estrada”. Riem porque as “pêssoas” sacolejam como pipocas na panela dentro dos carros e contam seus “récores” de tempo para cobrir os “malvados” 20 quilómetros de buracos que unem Resende à Serrinha.

Aqui tudo se baptiza. A máquina a vapor do comboio que faz turismo em Campos do Jordão é a “Maria Fumaça” que puxa o “trenzinho”.

As cuecas que quisemos comprar para os garotos são “samba-canção” e, é tudo, tudo assim.

É indiscutivelmente gente bem disposta e com sentido de humor.

Aqui em casa há 3 carros. O “Belo António” que já referi, o “Quebra Galho” para carregar compras e mandados no dia-a-dia e o “Fusquinha” para as saídas rotineiras do casal.

Por todo o lado, até nas rochas – incrivelmente – floresce em rosa, salmão, e vermelho, uma planta linda que aí se compra na florista e se chama “alegria da casa”.

Resultado de imagem para planta alegria da casa  do brasil

Pois aqui, tal como cóleos e crotones ela borda estradas e caminhos em abundância. Como não a conseguem controlar foi também rebaptizada de “Maria sem vergonha” – porque reaparece por mais perseguida que seja.

Há por cá uma imensidão de pássaros lindos. Sempre que avisto algum diferente pergunto o nome e anoto.

Resultado de imagem para passaros do brasil

Outra vez que calhe, falarei deles.

Por hoje, deixo-vos.

Tenho que preparar as bagagens pois, tal como na novela da Tieta – amanhã se Deus quiser conto ir para “Sum Paulo”.

Resultado de imagem para tieta

Oxalá Dona Ninete queira fazer de cicerone!...

Maria José Rijo

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 00:00

CARTA DO BRASIL – I – 1996

Terça-feira, 01.10.19
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.353 – 31 de Maio 1996
Resultado de imagem para lisboa
Chegamos aqui num voou da TAP, que inesperadamente nos levou até ao Porto 
como primeira escla.

Resultado de imagem para porto

Com essa variante arranjamos 10 horas de viagem quando poderiam ter sido apenas nove.

Meia hora de Lisboa ao Porto e mais outra meia fechados no avião para retomarmos o nosso rumo aumentaram a chateza da viagem que, graças a Deus não teve percalços.

A comida era péssima – que a TAP – está cá com uma descontracção!...

Resultado de imagem para tap

Para matar o tempo – televisão – que nem olhei. Optei pela música, que escolhi ao meu agrado e me regalou. Dormir em viagem?! Nada. Não é comigo.

Resultado de imagem para guanabara - brasil

Vista de cima a cidade do Rio de Janeiro perturba pela imensidade das suas dimensões. Parecem oito ou dez cidades das nossas todas juntas, mas, não se compara – para mim – com a beleza de Lisboa vista do alto.

Eram sete horas e vinte locais, quando o avião aterrou. Onze e vinte aí na nossa terra.

No aeroporto a Família em festa, aguardava-nos de máquina de filmar para registar o evento.

Depois dos abraços e das formalidades os primeiros telefonemas para “casa” a dar conta da viagem.

A primeira impressão que se colhe em terra é de largueza, de espaço e do verde vivo da vegetação exuberante.

Resultado de imagem para campos brasil

O ambiente humano é como o das cidades portuguesas e espanholas de fronteira. Isto é: -- muita gente nas ruas, afabilidade no trato, desconcentração e à-vontade de quem estivesse a gozar férias.

Os nossos anfitriões estavam de carro. Olhei as bagagens com alguma preocupação. Não havia razão para tal. Era um V.Wagem “Quantum” que as engoliu sem custo e mais que fosse.

Por aqui tudo se baptiza com bom humor. Assim o nosso transporte é o “belo António” para “injuriar” o dono que trata os carros com excesso de zelo. (Fofoca de amigos!)

Chegamos ao Rio cansados, pés inchados...  Mas... tudo bem.

Resultado de imagem para frutas - mercado -- brasil

O nosso primeiro contacto com o “povão” foi no mercado de frutas. Sentíamo-nos como que a viver um capítulo de novela. Por todos os lados verdadeiras montanhas de mangas, carambolas, abacaxis, fruta do conde, mamões, papaias, uvas, melões, bananas...Sei lá que mais!

Resultado de imagem para frutas - mercado -- brasil

E, todas mais baratas por kilo do que as cenouras que, aqui, são caras. 

Logo que abastecidos, acomodamo-nos no carro e começamos a viagem rumo à região sul do Estado do Rio de Janeiro (antigo Estado da Guanabara). Lá fomos estrada fora entre as imensas filas de trânsito de camiões como é comum em todas as rodovias.

Sempre presente a sensação de imensidão de espaço. Quando se começa a subir para a montanha é que tudo muda.

Resultado de imagem para montanha rio de janeiro -- brasil

Começam a surgir por todos os cantos “botecos”.

Parámos num deles “Belvedere” para tomar água de coco e comer pastéis fritos de banana e queijo.

Reabasteceu-se o carro no posto de gasolina anexo e reparei que também têm bomba de álcool.

Há por aqui muita viatura que usa esse combustível que dizem ser menos poluente.

Tínhamos o propósito de almoçar em Resende – que é a cidade mais perto do nosso destino.

 A cidade é pequena. Lembrou-me “Ayamonte”.

No centro – o calçadão – onde as esplanadas se sucedem. Deixam apenas uma faixa de rodagem para os carros. As outras duas estão transformadas em avenida. Tem imensas lojas de atacado. Percebe-se perfeitamente que por aqui se fornecem os fazendeiros da região. Tem também outro tipo de comércio. Aliás as lojas pegam umas nas outras, mas, sem grandeza. Tudo muito provinciano.

Resultado de imagem para calçadão de resende-- brasil

Outro indício da pequenez do meio é que toda a gente se conhece.

Escolhemos para almoçar “Casa Blanca”. Lá estavam no tecto as grandes ventoinhas do célebre filme.

Fabulosa a comida tipo caseiro.

Resultado de imagem para feijão arroz e farofa - brasil

Saladas variadissimas e iguarias típicas. Desde o feijão com arroz e farofa – obrigatórios – aos ovos de codorniz, passando por toda a espécie de grelhados – há de tudo, todos os dias. Só não serve jantares e o café ou chá no fim das refeições – á escolha – está incluído no preço da refeição que custa entre 4 a 6 reais – vinhos, à parte.

Tivemos sorte com o tempo. Sempre soalheiro. O Outono aqui é a melhor estação. No Verão chove imenso.

Excluindo as estradas principais – os caminhos são péssimos.

A subida de Resende para a montanha faz-se por um verdadeiro trilho de cabras. Só covas e pedras. Parece um leito de um rio seco. Mas é o que há e quer os carros particulares quer o autocarro da carreira passam todos pelos mesmos percalços.

Compensa-nos a paisagem. Vegetação intensa e variada. Já anotei os nomes de imensas árvores.

Em flor, agora, estão três.

A Quaresmeira de floração roxa. Angico de floração amarela e a Spatódea florindo em vermelho vibrante.

Resultado de imagem para ipê amarelo e roxo

Ainda se avista um ou outro Ipê roxo em flor. Dizem que é a árvore mais bonita do Brasil (quando referem o amarelo!)

Resultado de imagem para ipê amarelo e roxo

A julgar pelo roxo acredito que sim. Tal como as olaias aí na nossa terra dá flor antes que lhe nasçam as folhas. Só que floresce em cachos redondos como hortênsias que ficam pendurados nos ramos como balões. É realmente muito bonita!

 A roça – ou sítio – onde estamos, parece um jardim colocado na base da montanha a que se encosta.

Estamos a 900 metros de altitude. Do outro lado da “picada” frente à “nossa” entrada, é o portão duma Pousada de montanha. Aliás, há-as às dúzias serra acima. Toda a encosta da montanha está coberta de floresta virgem.

Os macacos, em bandos, ao amanhecer e à tardinha vêm numa algazarra doida saquear os bananais nos locais mais isolados. Ninguém lhes dá comida porque por vezes se tornam violentos. Porém ao resto da bicharada toda a gente oferece protecção colocando comedores em sítios certos.

O meu encanto é um esquilo que todas as manhãs desce pelo pé de mamoeiro junto à janela e vem comer à mão nozes e amendoins.

Resultado de imagem para esquilos-- brasil

Hoje, no fim da refeição roubou uma banana aos passarinhos e foi come-la à nossa frente numa rocha coberta de antúrios vermelhos em flor.

No alpendre da casa, suspensos, estão frascos com água bem açucarada para os colibris.

Resultado de imagem para colibris -- brasil

Porém, como até no paraíso tem que haver complicações há um – a que chamamos – “a bruxa” – que pousa constantemente na “Samambaiçu” ou na “Quaresmeira” frente a nós e vem atacar todos os colibris pequenos que ousem beber das garrafas que ela considera suas. Ontem à hora do almoço dois “tucanos” calmamente catavam comendo as tâmaras dum palmito.

Imagem relacionada

Chego a pensar que é irreal a beleza que nos cerca.

Qualquer dia digo os nomes dos pássaros e das árvores que alegram aqui a nossa vida. Os nomes dos rios que já atravessamos e das cachoeiras onde já tomamos banho e mais um rol de coisas que nos dão a visão deste mundo diferente.

Até a figura do caseiro – “O Baiano” – é digna dum postal ilustrado. Parece criado a propósito para turista ver.

Qualquer dia escrevo outra vez para o jornal. É a maneira mais fácil para mim de dar notícias aos amigos todos de uma só vez.

 

 Maria José Rijo

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 00:00





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Outubro 2019

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031


comentários recentes

  • Anónimo

    Mas que bom...As gavetas da memória ... que saudad...

  • Anónimo

    Oh minha querida Tiazinhacomo eu adoro este artigo...

  • Anónimo

    Querida Amiga de minha MãeAgradeço as suas palavra...

  • Maria José Rijo

    Creia que foi com profunda tristeza que recebi a n...

  • Anónimo

    Muito boa noiteDesculpe vir assim a esta hora e pe...


Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


links

Um pouco de mim...

EFEMERIDES

Blogs- quem nos cita

Deambulo por

Culinaria

K I K A

Paginas de Diário

2019

2018

2017

2016

2014

2015

2013

2012

2011

2010

Cá estou ...

Mais alguns...

Alguns...

Alentejo

Eurico Gama

Artigos sobre...

Escola Musica / Coral

Elvas Cidade...

Escritores e...

A Familia

Sebastião da GAma

Minhas sobrinhas Bisnetas

Meus sobrinhos Netos

Meus sobrinhos

Diversos...

Páscoa

São Mateus

Cartas especiais

noticias em Jornais

Dia da Criança

Cartas do Brasil- 1996

AÇORES

Juromenha

Col. de Gastronomia

O Natal

Exp. MuseuTomaz Pires-1984

Exposição PERCURSO-2008

HistóriasCmezinhasEreceitas

Revista Sénior

JOSÉ RIJO

Hospital e Maternidade

Livro de Reminiscências

Livros- de HistóriasInfantis

  • A história da Cotovia
  • A história de uma Flor
  • A historia do Castelo
  • AlendaMisterioso vale florido
  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
  • ... então sonhei!
  • O Cavalinho encantado
  • A princesa Jasmim
  • Aurinha está doente
  • Arnaldo o terrivel
  • A Cabrinha
  • Era uma vez ...
  • O pequeno castanheiro

Dias festivos

Programa de Poesia (radio)

Crónicas na Revista

Livro de Poemas - I

Livro de Poemas - II

Livro de Poemas - III

Livro de Poemas - IV

Aniversários Linhas

Livro Rezas e Benzeduras

Livro das Flores

LivroJoaoCarpinteiro

A Visita - Despertador

Programas se SãoMateus

Entrevistas

Entrevista - TV-Videos,etc

Visitantes no Blog

Aniversarios Blog



arquivos



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.