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Os habitantes do silêncio

Domingo, 25.02.07

Jornal linhas de Elvas

7-Julho- 2005 – Nº 2.821

Conversas Soltas

 

Os habitantes do silêncio

 

Pode parecer estranho, num primeiro olhar, referir os habitantes do silêncio.

Pode!, até porque a ideia de silêncio, muitas vezes, faz pressupor, vazio.

Mas, quer o silêncio, quer a solidão, são, penso eu, os espaços de tempo mais

habitados das nossas vidas.

Em circunstâncias normais podemos escolher as nossas companhias e

estar a seu lado enquanto o decidirmos. E cada qual ocupa o seu espaço

 físico e não outro.

Temos um volume determinado, uma entoação de voz própria para cada

circunstância, um comportamento normal. Deslocamo-nos de um local para

outro mas, somos sempre mais ou menos, reconhecíveis, previsíveis, sem surpresas.

                Porém quando a ausência física das pessoas acontece e em seu lugar se gera a

solidão ou apenas o silêncio, quando todo o espaço que nos rodeia está vago,

aí, então, o insuperável mundo das lembranças  preenche em absoluto a atmosfera

envolvente e, todos os gestos , e todas as memórias se nos apresentam, e

, sem que se sobreponham, ali ficam todas ao mesmo tempo, e tão nítidas, tão frescas

e presentes como se  os factos, estivessem sempre a acontecer ininterruptamente frente a nós.

De tal modo, que,  então os estranhos, somos nós. Nós somos os únicos

 intrusos, os únicos sobrantes dum conjunto quase asfixiante de presenças

 impalpáveis, mas densas, por entre  as quais temos que ser capazes de

continuar o nosso caminho.

É a mão que lá não está mas segura a nossa. É a voz que mais ninguém ouve

mas que nos detém. É o sorriso que só nós pressentimos e nos encoraja.

É o jeito de surpresa descontente que nos faz reconsiderar.

É como ler o segundo volume de um livro cujo primeiro se perdeu, mas sabemos

de cor na forma, no conteúdo, e no sentido.

É a continuidade  na memória.

É, como diz sabiamente o povo, que a morte só acontece, quando

as lembranças se extinguem.

E, porque cada um tem a sua história, e a soma delas faz a história dos povos,

as casas também  têm voz e, até os objectos falam.

E, as cidades têm alma e guardam até nas pedras desgastadas das calçadas

 memória dos que por lá passaram ao longo dos tempos.

Passos cansados, passitos de criança, correrias de folguedos, cortejos de

 festividades, de guerras e revoltas, procissões, tudo burilou com os anos

o mundo que nos rodeia e nos acolhe!

- Até as chuvas, os sois e os ventos...

E, no silêncio das madrugadas, são as vozes  dessas memórias que pairam

sobre as cidades e nos impelem a caminhar, crescer, sem  desvirtuar um passado

que é  o suporte histórico  da nossa vida colectiva.

Porque são as pessoas que criam os lugares que geram as cidades e sobre elas

escrevem a história as diferentes gerações.

E, tudo terá sempre, como suporte as vozes caladas, mas presentes, dos

 habitantes do silêncio para onde todos caminhamos, e de onde só a

 memória nos poderá despertar.

                     

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publicado por Maria José Rijo às 13:50





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