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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

“Pisem o chão devagarinho”

          Há muitos anos uns amigos meus, hoje já com bisnetos, esperavam o primeiro filho. Quis o destino que uma queda da mãe, precipitasse o nascimento dessa criança, que não sobreviveu.

                            

            Passou-se então ante os meus olhos qualquer coisa que não esquecerei jamais.

            Como sempre, em tais circunstâncias, surgiram os amigos e familiares mais próximos. Todos, mais ou menos, compungidos se esforçavam por explicar o inexplicável tentando fazer aceitar o que todos nós tão mal aceitamos – a morte.

            Foi então que chegou a avó do nado morto. Era uma idosa e linda senhora que idolatrava os netos, e, tinha muitos. Cumprimentou os circunstantes com um baixar de cabeça, e dirigindo-se para a cama onde o menino repousava disse com o maior carinho:

- Meu menino, tem que adormecer ao colo da sua avó como adormecem os outros netos. E debruçando-se sobre o pequeno vulto envolveu-o no xalinho branco que o cobria e começou a embalá-lo apertando-o junto ao peito e cantando, ou rezando baixinho; nem sei...

            Decorreram uns minutos – ou horas, - quem saberia contar tal tempo a não ser pelas batidas do coração ...

            Depois, deitando o pequenito de novo no berço que lhe havia sido destinado, e o esperava para viver e crescer, saiu  do aposento, pé ante pé ,encostando com suavidade a janela e a porta  como se receasse que algo o acordasse .

            Assistindo em silêncio (como todos os demais) a esta estranha manifestação de mágoa e amor, o pai do menino sussurrou a frase que havia de lhe servir de epitáfio: “pisem o chão devagarinho que o nosso filho adormeceu.”

            Os anos passam, as coisas, boas e más, tristes e alegres, arrumam-se na memória indisciplinadamente, esquecem-se, e, um dia ,por um pequeno indício, um quase nada , aí estão de volta impondo-se como uma dor ou um remorso , uma alegria que se recorda. Vivas, latentes, insuperáveis.

             ..............

            A criança nasceu com problemas de saúde graves.

Tem convulsões atrás de convulsões. Cai, fere-se sangra. Perde os sentidos. Fica como se fora de cera. Configura a morte.

            O amor dos pais por ela não se cansa, nem cansa, mas o sofrimento, esgota mesmo quando o amor é a sua raiz.

            Então a tragédia irremediável duma criança, torna-se quase intolerável para a nossa compreensão.

            Ser santo, não é profissão.

            É caminho, longo e difícil.

            Nas jornadas penosas, é natural que se caía mais vezes.

 Divergir, procurar atalhos, tentar de qualquer forma iludir a fatalidade que oprime – que viver, – como disse Rilke em” Cartas a um Poeta” – é bom, porque é difícil – tem a lógica da nossa fragilidade de sermos gente, tem toda a carga da ansiedade de ser feliz que todos afagamos com esperança.

”Ajoelhada no chão, ao lado da criança, que despertava, lentamente, de mais um acidente, a mãe, com suavidade limpava o sangue que da boca lhe escorria manchando o rosto pálido e sereno na imobilidade do transe.

            As lágrimas corriam-lhe. Mas cantava com voz doce a canção preferida da criança para que o seu despertar fosse confiante.

            Foi aí, nesse momento, que a outra história reapareceu.

            A outra velha história de um outro sono, esse, sem despertar, que outro coração de mãe-avó embalou a cantar assim, pateticamente.

            Foi aí que me surgiu a necessidade de, nesta época, como quem conta um conto de Natal, contar estas duas histórias verdadeiras

            Nem sei explicar porquê.

            Talvez porque a intensidade do sofrimento às vezes nos deixa perplexos.

            Talvez pela consciência de que há dores de que não se acorda ou que não adormecem jamais.

            Talvez porque seja bom que “pisemos o chão devagarinho” sempre que nos escape o entendimento de qualquer situação.

            Em boa verdade, o que sabemos nós do sofrimento que se esconde e vive em cada coração e dos caminhos a que impele o desespero no humaníssimo desejo que todos temos de ser felizes...

            Isso, só Deus sabe!

Volto a citar Rilke, nas cartas a um poeta – “ quem sabe se, para poder começar em si (em nós) Deus não teria necessidade da sua angústia perante a vida? “

Estamos à beira do Natal.

Celebramos de novo o nascimento de Jesus.

            “ O menos que podemos fazer é não LHE resistir mais do que a Terra resiste à Primavera quando esta chega...”

            Tenhamos confiança.

Estas são também palavras de Rilke que foi considerado o poeta, por excelência, do Amor e da Morte

           

            Boas Festas para todos

Um Santo Natal de Paz e Alegria.

 

                                                                           

                      Maria José Rijo

@@@@

Jornal linhas de Elvas

           Nº 2.484 – 25/ Dez. / 98

        Conversas Soltas

 

 

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