Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Faz obséquio!
Com a reportagem da televisão mostrando o Museu dos Coches a propósito da refeição, oferecida pelo Senhor Presidente Cavaco Silva aos visitantes de Portugal, como epílogo da Cimeira, vieram-me à memória reminiscências de infância, tão misteriosas de entender – na altura, para mim – como hoje alguns dos eventos desta cimeira.
Quando eu era pequena, pequena, como todos os adultos também já foram – pois que, até - como diz Le Petit Prince : “toutes les grande personnes ont d’abord été des enfants”...
Circunstância que muitas vezes parecem ter esquecido, de tão ocupados que estão a ser “Importantes”, o que convenhamos deve ser uma representação muito desgastante e enfadonha.
Mas a escolha é deles e, eu nada tenho que ver com isso.
Contava eu, que, de vez em quando, meus pais levavam-nos a Lisboa.
Estas decisões eram sempre precedidas de conciliábulos à mesa que levavam em conta, também os pareceres da Avó e das Tias. Era assim uma espécie de cimeira familiar.
Eles já tinham a sua decisão tomada, (tenho esse convencimento) mas não lhes custava nada serem corteses com as respeitáveis representantes do passado de quem haviam herdado princípios e preceitos morais e ouvi-los, como se os seus pareceres fossem decisivos. Sabendo, embora todos, que não eram.
“ Temos que levar as garotas a Lisboa”. Têm que ver outras coisas. Só a praia no Verão e as férias no Algarve com os primos, não é suficiente.
Têm que visitar museus, andar de eléctrico, ir ao Jardim Zoológico, viver situações diferentes. Estão sempre aqui e acabam ficando acanhadas. Só conhecem árvores e bicharada, têm que saber estar à vontade noutros meios.
Minha irmã, entrara para a escola e essa nova etapa da sua vida, favorecia-me também, visto que embora sendo dois anos mais nova, acabava por fruir daquelas decisões.
Então lá íamos, de comboio, em segunda classe, até ao Barreiro e, depois de barco – de vapor – até ao Terreiro do Paço.
Daí, até a um “hotelzinho de famílias” numa rua da Baixa estreita e de prédios muito altos, frequentado também por amigos e familiares – não me lembro. Sei que no meu espírito ecoa uma palavra: - caleche! Mas seria?- vão 76 anos...Já nem tenho a quem perguntar...
Embora eu me sentisse toda só olhos e fosse quase pendurada de minha Mãe, entre extasiada e assustada, muitos pormenores desses acontecimentos, o tempo já escondeu da minha memória.
Ficou-me destas visitas a lembrança das idas ao Zoo, ao Aquário Vasco da Gama, ao Museu dos Coches, Mosteiros e outros lugares onde nem sempre, depois de adulta voltei...
Porém, como se fora agora, vejo a figura do porteiro do hotel, com uma farda que tinha galões e dragonas como só tinham, no meu conhecimento, os príncipes dos contos de fadas, o que me deslumbrou
Então, quando ao abrir a porta, nos convidando a entrar, se curvou cumprimentando solene e disse: - faz obséquio!
A minha imaginação voou!
Era a primeira vez que escutava tal palavra.
O que quereria dizer, não sabia, mas...abre-te Césamo! Não tinha mais mistério, nem mais beleza, aos meus ouvidos.
Meu Pai, com a benevolência do costume, lá me explicou que era apenas uma forma de dizer – faz favor.

Ora, não é que revendo na televisão o Museu dos Coches recheado de pessoas para mim de intenções e hábitos tão herméticas como impressionantes me ocorreu pensar que o mesmo pode estar a acontecer à maioria dos portugueses tão desprovidos “do saber” destes meandros como acontece comigo?

Pensei então que era altura de pedir ao Senhor Primeiro-ministro que, descodifique a cimeira para os leigos como eu.
É só, e apenas, trocar todo o palavreado “bonito” por linguagem comum.
Sem fardas, nem galões. Nua, mas verdadeira.
Coisa que se entenda de caras, como um vulgar - Se faz favor!
Queremos saber se há referendo e para referendar o quê.
Não me digam que “Dez Quilos” de conversa escrita, vale apenas a saliva gasta numa pergunta de sim ou não!
Queremos entender. Precisamos entender.
Faz obséquio!
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.948 – 20 de Dezembro – 2007
Conversas Soltas







