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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Não resisto!

Não resisto à tentação de me imaginar treinadora de futebol!

Não, logicamente, treinadora mixoruca, dessas que não conseguiriam jamais ganhar trinta e cinco mil contos por mês!...

Falo em contos porque o euro é a moeda actual que escasseia nos bolsos do comum dos mortais e, que, por conseguinte, não tem o poder de alimentar a imaginação como a palavra “conto.”

Por acaso, pensei, agorinha mesmo que nós os portugueses temos uma capacidade imaginativa fora do comum.

Senão vejamos: - onde teríamos nós ido desencantar a designação de conto para a defunta nota de mil escudos?

Se a moeda padrão era o escudo, e as notas, ao longo dos tempos que a nossa tradicional moeda circulou, eram referenciadas em escudos; vinte, cinquenta, cem, quinhentos, mil, porque cargas de água, as milenas, (como aos trabalhadores do campo, também lhes ouvi chamar), ganharam a referência de contos?

Juro que não sei, nem jamais ouvi quem quer que fosse explicar o porquê dessa designação.

Pessoalmente, acredito que por serem as mais poderosas antes do aparecimento das de cinco mil e dez mil - e porque o seu “ reinado” de mais poderosas, foi longo -  teriam entrado no reino da fantasia, como uma miragem ou um sonho: - um conto...

Também, coitadas, quando partiram para o reino das lembranças, como recordação do povo que somos, já iam tão desvalorizadas, tão sem importância, tão sem poder de compra que me conforta pensar que elas próprias ficaram gratas por sair da circulação antes de serem apodadas de “conto do vigário” por já não prestarem para quase nada...

Penso isto porque sempre traziam gravadas em si, figuras de relevo da nossa história de aventura pelos mares, de reis e de rainhas, da nossa veia literária e poética, da política, da ciência, etc...etc...

E, ninguém pensa em gente desta, célebre por seus feitos, a fazer a triste figura de não ser capaz de pagar o que deseja e precisa comprar...

Isso era desacreditar injuriosamente o seu prestígio...

Mas adiante, que hoje, o que me surpreende e me leva ao mais desvairado espanto, também tem um símbolo redondo como o mundo, mas – é uma bola!

Quem diria que daí, desse mundo, me viria a ponta da meada que nos abre às vezes inesperadamente as portas da fantasia.

Mas, foi.

Saber que uma soma vultosa como um prémio de totoloto pode ser a verba acordada para pagar – mensalmente -  um treinador de futebol, provoca em mim, um espanto de tal ordem que temo faça explodir a minha capacidade de encaixe de suportar emoções violentas.

Pensando bem, depois de reler o que escrevi, não é razoável que eu tema assim pelo receio de ver o meu queixo caído!

Não, não é justo!

Se o meu queixo ainda não desencaixou, tendo eu conhecimento de tudo o que por aí vai em todos os sentidos... e se também não me matou o espanto de saber quanto é um salário mínimo, ou, do número de pessoas que não têm salário algum, porque me havia de acontecer agora algum mal com os trinta e cinco mil contos por mês que vai receber um treinador de futebol!

Somos indiscutivelmente, gente forte!

Gente que aguenta muito!

Gente que aguenta tudo...

Ou, então, rezemos como me ensinou um saudoso Amigo: - Livrai-nos Senhor daquilo que nós somos capazes de aguentar!...

.

Maria José Rijo

.

@@@@@

Revista Norte Alentejo-

 Crónica

Nº 23 -- Nov./ Dez. - 2002

 

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