Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
A íntima relação
É indiscutível a íntima relação entre a terra e as plantas, por exemplo.
Também é indiscutível a relação entre a água, a luz e a vida.
Já não pensamos tanto, ou, pelo menos, com tanta frequência, na intima relação que existe entre o nosso corpo e a nossa própria Vida a não ser quando nos falta a saúde.
Se bem pensarmos, quando dizemos – eu – não estamos a pensar especificamente, no nosso corpo.
Quando afirmamos: - sou uma pessoa bem disposta, ou, gosto ou não gosto de isto ou daquilo, nós próprios estamos a afirmar a nossa dualidade de ser.
Ninguém pensa ou diz, sou um corpo bem disposto.
Jamais se diz: - sou um corpo!
Afirma-se: - tenho um corpo!
Quando dizemos: - dói-me a cabeça, ou o pé ou a perna, estamos a denunciar a consciência de que há qualquer anomalia com o nosso físico, com o nosso corpo, logo, estamos a afirmar implicitamente que não somos apenas isso – um corpo.
Não é o corpo que o diz, nós é que dele falamos.
Até porque muitas vezes afirmamos, dói-me a alma, estou triste perdi a esperança, perdi a coragem, perdi a fé, e, ao afirmá-lo sabemos que não é da condição física que falamos.
Talvez se pensássemos um pouco mais na fragilidade do “suporte” do nosso eu verdadeiro, quero dizer, do nosso corpo, talvez nos preocupássemos mais em respeitar ditames de consciência esmerar atitudes, e menos em apurar as aparências, que tantas vezes, nem enganam os outros, quanto mais quem deliberadamente elabora o logro.
Estava a ler o prólogo de “a Última Confissão”, de Morris West quando a propósito de uma frase que vou citar me ocorreram estes comentários.
Na verdade a leitura ainda continua a ser uma das melhores companhias que se podem escolher...
Eis a frase: - Morris também percorreu o Universo mas, no final, caiu, como acontece a todos os que morrem pacificamente por causa de alguma traição íntima e ínfima do próprio corpo.
Vou aproveitar um pouquinho deste espaço que o jornal me concede para desejar o melhor êxito para a operação de João Aranha, cuja “ausência” todos iremos sentir.
É que, muito embora eu não aprecie touradas, aprendi com João Aranha, a aceitar, que na arte, como manifestação de Vida que é, também se pode encarar a morte.
Ainda uma referência para a ausência de J.R. – jovem, mais ou menos, do meu tempo – de quem não temos notícias...
Saúde a todos
Maria José Rijo
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Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.703 – 28 / Março/2003
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4 comentários
De Dolores Maria a 24.01.2008 às 01:12
mas este texto é tão LINDO.
Fez-me tanto bem le-lo.
Falou-me fundo.
Até estou emocionada.
Juro que gostei tanto.
Muitos Beijinhos por mais esta delicia.
DO LO RES
De Oliveira e Sá a 24.01.2008 às 01:27
nesta noite fria e escura - aqui para os meus lados.
A casa está toda em silencio e eu com a minha insónia
vim navegar...
´Lá estava - nos meus favoritos - Maria José Rijo.
Sabe, gosto imenso de andar a ler aqui, ali, neste
no outro mês ... ler e ler estes seus brilhantes artigos.
Vejo que muitos fazem o mesmo, que é muito comentado - o que significa que as pessoas gostam
deste seu "EU" - que todos podemos ler.
Este texto é uma delicia, de uma lucidez impressionante e ao mesmo tempo simples e belo
como só Maria José Rijo consegue fazer.
Não me quero repetir - dizer o mesmo de todos -
mas a sua lucidez, a sua forma genial, perfeita
de usar o português é um achado neste mundo
onde cada um escreve o que lhe vem à cabeça e
da forma mais... nem sei dizer...
Minha amiga
continue a mostrar o quanto é bom ser capz de
escrever este portugués que a Senhora nos
mostra e ensina. A sua arte é uma maravilha.
Dizer escreve bem - é pouco - eu acho que a
Senhora brinca com as palavras, ama as palavras
e elas gostam de si - porque elas dão-nos
visões especiais do seu mundo LINDO.
Beijinhos e Parabéns.
Oliveira e Sá
De Nicolau Demetrio a 24.01.2008 às 01:29
Parabéns pela prosa e pelas imagens.
Gostei imenso.
N.Demétrio
De Gustavo Frederich a 24.01.2008 às 01:37
Mais um texto que me fez apaixonar pela sua forma
de ser e estar no mundo.
Esta sua maneira de falar consegue deixar-me pasmado - como se eu estivesse sentado a seu
lado - ouvindo-a falar.
Como é capaz de me encantar desta forma?
Mas consegue.
Considero-me um apaixonado pela sua forma de
escrever, de pensar, de encantar com toda a sua
lucidez.
Mais uma vez PARABÉNS por este texto magnífico.
ADOREI
Grato pelos pedacinhos de Felicidade.
Beijinhos
Gustavo Frederich

