Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Saber escutar
Ninguém me tira da cabeça que as coisas falam!
- A cada um de sua maneira! – Concedo. Mas, falam!
Entra-se numa casa, olha-se um objecto com interesse, ou apenas curiosidade e alguém esclarece: - É, ou era, de Meu Pai, ou de minha Avó! Logo cada um de nós só por isso, “sabe” e “ouve” qualquer coisa sobre alguém que poderá até não ter conhecido. Só por um silêncio, um sorriso, ou apenas, uma entoação particular de voz, ou um olhar, se percebe o diálogo íntimo que há entre cada objecto e a pessoa que o usa ou o conhece.
Saber ouvir, saber escutar, parece-me importante para se poder estabelecer laços de alma, parentesco de amor, com a vida à nossa volta.
Andava a pensar nisto a propósito de Elvas e da “tentativa de agressão” que a ameaça.
Elvas é uma cidade viva. Um corpo inteiro, que para ser “operado” – “amputado” ou “enxertado” tem que dar ou recusar o seu próprio consentimento.
Elvas, decide, sobre Elvas: porque Elvas fala, pensa, ama, sofre, trabalha, respira e vive pela boca, pela cabeça, pelo corpo, pelo sangue da sua população.
Elvas é mãe da sua gente – que a terra onde se nasce é mãe também – (diz o poeta).
Elvas canta e chora, orgulha-se e envergonha-se, com o que nela ou com ela, se passa. Elvas tem coração.
Elvas tem amigos que a conhecem e enaltecem.
Já D. Diniz em 1334 assim dizia:
“ eu por fazer mercê ao concelho de Elvas,
por que elles ham gram coraçon para me servir…”
De Elvas disse António Sardinha em “ de vita et moribus”:
“ Com seus baluartes, as suas torres, os seus eirados e
o seu Aqueduto, Elvas é para o caminheiro que passa,
um apelo súbito às energias mais fundas da nossa
sensibilidade “
Eurico Gama conta nas suas “crónicas de Odiana” que lera no jornal
“O Século” – escrito por pena responsável:
“Elvas é um poema épico que não pode ler-se sem coração”.
E, conta mais. Conta que, de Azinhal Abelho, se gravou em pedra
esta legenda:
“Quem passou por ti, Elvas cidade que te marcou
com siglas e com chagas?”
E, depois de mais algumas citações, remata com toda a força da sua paixão por esta cidade que amou e serviu como filho dedicado, que sempre soube ser:
“Vinde, pois, a Elvas, todos os portugueses, e sentires
mais ainda orgulho de o ser”.
Depois disto haverá quem duvide que o velho manuscrito onde se lê:
“Chave defensa escudo
Sou do reino lusitano
Freio sou do Castelhano
Elvas sou e digo tudo “
Tenha sido ditado pela própria cidade e mandado escrever pela mão de alguém, com alma bastante, para entender e traduzir para a linguagem de toda a gente – a voz dum passado de honra e glória – que nos cabe defender – e que cada pedra repete a quem a olhe e saiba escutar? ….
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.752 – 14 de Setembro de 1984
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