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CONTO PORQUE É CARNAVAL

Sexta-feira, 01.02.08

     A revolução do 25 de Abril apanhou-me em Beja.

… Beja, Moura, Cuba, Santa Vitória são as terras do Alentejo onde a vivência temperou o meu gosto de me saber Alentejana.

Sou Alentejana, gosto do Alentejo, e gosto da minha boa gente – a gente das aldeias – com quem convivo com o afecto e a facilidade de quem, por lá, se sente em casa.

Foi-me por isso possível andar por entre gregos e troianos naqueles tempos conturbados e, assistir a situações, por vezes, com seu quê de chaplinesco.

Trabalhava em nossa casa uma empregada, que se filiou no M.ES. e que, por vezes, pela manhã, nos aparecia ensonada e sem ânimos para fazer fosse o que fosse, porque chefiava “um bando” de ocupadores de casas, que exercia a sua actividade pelas noites e madrugada.

Perguntei-lhe um dia se já escolhera entre dezenas de habitações, que já tinha ocupado (alguma até com os proprietários lá dentro), uma, para si própria.

                 

-- “Que não! – Para ela queria a do antigo patrão, (que até nem era má pessoa) mas que vivia sozinho, e portanto, possuía uma habitação grande demais para ele!!!”

“E, que uma sua comadre e companheira de liderança, naquelas actividades nocturnas – essa – queria a casa da Dona Fulana, que deveria então ficar a lavar-lhe a porta da rua, como ela até então lhe fazia”.

Expliquei-lhe que a finalidade de uma revolução não deveria ser mudar a injustiça de lugar – mas sim dentro do possível semear justiça, sem ódios ou vinganças – embora soubesse que falava para cesto roto!

-- Por norma, costumava contar a pessoa amiga toda ligada a actividades politicas, estas conversas.

Ora, um dia, essa pessoa, resolveu ir falar àquela gente para “explicar coisas” e desfazer confusões”. Foi!

Deixaram-ma falar. Depois, quando ela entusiasmada com a atenção que lhe prestaram pretendeu exaltar os benefícios da cultura, do acesso aos livros, etc. etc. uma voz de entre a multidão disse com sarcasmo e troça:

“Cala-te facha! A genti o que quéri é dinhêro e casas”! – Nã procisamos de papéis! Nã temos lojas p’ra fazeri embrulhos! E só gostamos papéli p’ra limpari o rabo (com sua aleçença!) – ca genti nem sabe léri!”

Foi o fim!!! Uma galhofa – (como me contaram!).

Ao ouvir já duas vezes na propaganda partidária, através da rádio a afirmação de que todas as Câmaras A.P.U já inauguraram sanitários – não resisti a uma gargalhada por ligar estas duas histórias deste Carnaval… da vida.

 

               Maria José Rijo

@@@@@@

Á La Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1773 – 15/Fevereiro/1985

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 01:44


6 comentários

De Gustavo Frederich a 01.02.2008 às 02:36

O seu blog também conta História - história das suas
vivências e História de por onde andou.
Grato pela forma como escreve e como conta.
Tem uma alma muito linda.

Seu sobrinho
Gustavo F.

De Dolores Maria a 01.02.2008 às 16:33

É muito interessante.
Mas que horror a Tia esteve mesmo na "boca do lobo"
naqueles dias perigosos do 25 de Abril.
Suponho o que terá guardado para si, nestes dias
horriveis de medo.
Até me arrepia só de pensar.

Beijinhos Tia - mesmo assim - gostei imenso do
texto.
Desta sua amiga

DO LO RES

De Bernardo Oliveira a 01.02.2008 às 16:35

Muito importante este retrato de então, do Zé
Pagode Alentejano.
Acredito que foi realmente assim.
Gosto de saber histórias - pelo nosso Portugal -
de acontecimentos de todo o tipo - como é este.
A Senhora estava mesmo no centro do tornado.
Impactante!

Com apreço e admiração
Bernardo Oliveira

De Maria José a 01.02.2008 às 21:00

Hoje,venho falar um pouco, em especial para Malaquias Miguel, que por coincidência é natural da bela vila de Barrancos onde, segundo se contava, aconteceu a história do santeiro e, também com Alice Mateus que até me deu a alegria de reparar nas belas fotografias da Paulinha e, ainda agradecer a Luis Teixeira e Bernardo Oliveira cujo apreço me conforta e ajuda a manter viva a esperança de que sempre vale a pena fazer o que nos pede o coração, nem que seja contar histórias.
Também queria, com muito carinho deixar um grande abraço a três Amigos que estando aqui tão perto, na Terrugem, não vejo há tanto tempo como se estivessemos em hemisférios diferentes...falo do Quim e de seus pais.
Ai, mas isto muda! Deixem vir o dias maiores...
Um beijo - Maria José

De Maria José a 01.02.2008 às 22:05

Adalgisa Alexandra ou Gisa - curioso para mim é que alguns nomes já me começam a ser familiares e, como tal tão importantes como se correspondessem a rostos de amigos que se adivinham sem se conhecer.obrigada pelas suas visitas e também pelas presenças sempre atentas de Lucas Marquês,outro amigo, e de Luciano Lopes que sendo docente aqui arranjou mais uma aluna que lhe fica grata. Para
Alberto Mateus, que elogia as colecções de postais, um exclarecimento:- só os textos são meus.As fotos são de João Carpinteiro e a sugestão para que se fizessem foi de Leonel Brito.É justo usar de rigor e
dar o seu a seu dono.Para todos vós, para a Cinda Moledo,Alvaro Ranita e Lopes Coronado e, ainda e sempre para a Dina, amiga de outros tempos, que sempre empunha a bandeira da coragem da sua consciência um abraço pela companhia que me dão neste trecho do caminho e um beijo também
Maria josé

De jts a 03.03.2008 às 11:50

D. MARIA JOSÉ, foi por mero acaso que fui parar ao seu "Blog", que encontrei quando procurava saber novidades do meu conterrâneo "COSTA PEREIRA", no seu "blog" - AQUIMETEM .
Fiquei estupefacto com a grande qualidade dos seus textos e a maravilha dos seus poemas. Nas minhas horas vagas - e isto porque aos 70 anos ainda trabalho muito - também escrevo, alguma prosa e poemas, mas longe de mim, considerar-me poeta ou escritor...
Publiquei dois livros, um de poemas e outro com a "História dos Bombeiros Voluntários de Mondim de Basto", que já contam 83 anos.
O Alentejo, sofreu muito nos últimos 60 anos, mas Trás-os-Montes, também. Por aqui a miséria existiu sempre paredes-meias com os grandes solares dos grandes senhores...
Hoje, tudo é diferente, embora as dificuldades subsistam.
D. Maria José, foi um grande prazer, conhecê-la e principalmente a sua juventude actual, pois os anos só contam no bilhete de identidade.
Os melhores cumprimentos, JTS ( Teixeira da Silva ).

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