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Reminiscências – O tempo e as cantigas

Sábado, 02.02.08

Estava a ouvir algumas cantigas que um homem vestido de preto, entoa ao som duma concertina tocando e saltitando em palco, sempre de chapéu na cabeça, como se estivesse numa romaria. Estava a ouvir, a olhar e a pensar, como até através das cantigas, se podem de certo modo caracterizar as diferentes épocas e os seus costumes e linguagem.

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Os cantores populares de agora, de uma maneira geral, cantam de forma mais ou menos brejeira histórias cujo tema é o sexo, fazendo trocadilhos com o significado real das palavras e o sentido picante que em gíria se lhes pode atribuir.

Assim cantigas que em cantes ao despique, ou nas “ velhas” nos Açores têm todo o sentido pelo seu enquadramento intrínseco em festas populares e arraiais, aparecem, na minha opinião, por vezes muito fora do contexto inseridas em programas onde ganham uma certa perversidade por não terem neles igual cabimento.

Resulta um pouco como se alguém que aprecie touradas, em lugar de ir a um redondel apreciar o espectáculo, ou vê-lo em filmes em casa, ou no cinema, resolvesse trazer o touro para a sala.

Mas, queria eu, assim, dizer que em todos os tempos até as cantigas dão informação da linguagem e usos de cada época.

Lá na aldeia, onde passei a minha infância, ninguém ousaria nessa altura, cantar o cheiro ou o tempero do bacalhau de qualquer Maria ou graça quejanda, mas, cantavam-se coisas tais como:

“ É o luxo dos rapazes,    ( é a moda)

chapéu preto e cachinéi   (cache-nez)

todos têm meixão alta    (missão, profissão importante)

meu amor tão baxo éi     ( tão modesto, tão humilde)

meu amor tão baxo éi

quirido do coração

olha a menina que já ‘stá noiva

p`ra se casar no fim do Verão”

 

Fico agora a pensar se será ainda possível, depois do advento da televisão que, para além das suas muitas e inegáveis virtudes, também muito tem contribuído, sustentado e promovido a banalização, miscigenação e normalização – por baixo – de usos e costumes, se seria – ou, será - ainda possível em qualquer recanto do nosso país nascerem canções ingénuas que falem de esperança de trabalho e de amor sem trocadilhos de gosto duvidoso ou referências a sexo.

Verdade que gostaria de acreditar.

Entretanto, ecoam na minha lembrança reminiscências das vozes sadias que cantavam:

“Fui-te ver

Estavas lavando, no rio, sem ter sabão

Lavas-te em água de rosas, fica-te o cheiro na mão

Fica-te o cheiro na mão, fica-te o cheiro no fato

Se eu morrer e tu ficares, adora-me no meu retrato

Adora-me no meu retrato, vai-me ver à sepultura

Se eu morrer e tu ficares, adora a minha figura.”

 

 

Lavava-se no rio, não nas máquinas – é evidente! – Mas cantava-se o cheiro das rosas, não do bacalhau, também é evidente!

 

É na verdade diferenciado o perfume dos tempos.

                          Maria José Rijo

@@@@@

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.820 – 30 / Junho / 2005

.Conversas Soltas

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 13:36


6 comentários

De Gustavo Frederich a 03.02.2008 às 01:33

Lindo.
Saudoso.
Perfeito.
Adoro como escreve.

Beijinhos
Gustavo Frederich

De Maria José a 03.02.2008 às 16:02

aprendi com seu comentário coisas bem interessates sobre Veneza.
Juntei á sua evocação sobre o "rei sol" a lembrança marcante no seu reinado da esposa morganática -
madame de Maintenon - com as suas célebres afirmações :"Je ne mets point de borne à mes désirs"
E, " Le murs qui ferment ma retraite seront ceux de mon tombeau"
Sou uma apaixonada pelos romances da história.
Um beijo e saudações a sua Tia que tem a sorte de ter um sobrinho tão interessante
Maria José

De Gustavo Frederich a 04.02.2008 às 01:11

Minha querida Tia
Estou cansado de tanta folia - no baile - primoroso.
Foi muito engraçado e gostei porque tive o encontro
com a minha primeira esposa a Delphine, que vive
aqui em Veneza.
Agora ao vir ler este seu belo comentário/resposta
reparo como menciona a madame de Maintenon.
Não estranho - a Senhora é uma mulher culta e logo
falando no Rei Sol - imediatamente a Madame está
presente. É inevitável.
A minha ex Delphine quando a conheci era professora
no colégio Colégio francês e ela revelou-me sobre
esta excepcional mulher:

o conceito de educação de Madame de Maintenon
não se aplicava à sociedade da época em que
viveu.
Estava adiantada
em relação ao seu tempo.
As suas concepções educativas terão
sido uma consequência
da sua vida e das suas experiências.
Uma infância de dificuldades, a viagem
para as Antilhas, o casamento com
Scarron
(que a pôs em contacto com a
intelectualidade
da época), a miséria;
Françoise teve visão da sociedade
algo incomum, sobretudo para
uma mulher.

O seu projecto estava condenado
ao fracasso.
O mundo, a sociedade, a corte, as
próprias alunas, não estavam preparados
para uma tão grande liberdade.
Ela dizia que uma revolução deste tipo nunca
se fazia sem grandes perturbações.
De qualquer maneira, a experiência levada a
cabo por Madame de Maintenon,
assim como
os erros praticados, constituem um
momento particularmente rico da
História da Educação.
Talvez que a sua maior contribuição
fosse o facto
de ver cada criança como um ser
humano,
uma pessoa que precisava respeitar
e de ser respeitada.
..

Acho esta mulher uma mulher deste tempo.
Fiquei feliz por falar dela.
Apesar de tudo... era um exemplo para todos.

Beijinhos Tia
A cada dia estou mais surpreendida com a sua
alma sensivel e vejo que temos conhecimentos
comuns de pessoas e assuntos especiais.

Beijinhos e vou ler a amendoeira.
Gustavo Frederich


De Dolores Maria a 03.02.2008 às 01:36

Cansada de tanto dançar...
Vi apenas deixar um beijinho de boa noite
amanhã vou voltar e melhor apreciar.
Grata, Gratos, Avelino e Eu pelas suas
palavras.
è que a Senhora é tão amiga e simpática.
Adoramos ler tudo o que escreve.
Muitos beizinhos
Dolores e Avelino

De joaqgod@gmail.com a 03.02.2008 às 18:31

Gostei
Adoro estes temas. Gostava de trocar Cantares Alentejanos.

De eva a 03.02.2008 às 21:28

Obrigada pelas suas palavras.
Têm, para mim, o inestimável valor que sente o aprendiz perante o mestre que admira.
Um beijinho e desejos de uma boa semana

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