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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Remiscência - IV

Acabava de escrever o título desta conversa e já me perguntava a mim própria se reminiscências podem ser parentes de saudades.

            E, se assim for, qual será o grau de parentesco.

            Certa vez, nuns jogos florais em que o tema para quadras era: - a saudade, recebi um prémio colaborando assim:

 

Ter saudades, é sentir

sempre em nosso pensamento

o que nos deu f’licidade

a causar-nos sofrimento

 

Tomando esta afirmação por verdadeira e, acho que, como verdade, se pode aceitar, as reminiscências, podem ou não, ser saudades. Muitas vezes serão apenas recordações e, até divertidas, algumas. Porém, na medida em que lembrar prova que se não esqueceu e se recorda, evocar, é sempre um acto de nostalgia. Muito em segredo no meu coração não me atrevo a negar o tal parentesco. Já que não se considerem como filhas, mães, tias ou avós, visto não provirem da mesma cepa, concedamos-lhe o grau de íntimas, em linha directa nos sentimento com que as imbuímos, que não, nas raízes, pois que, aí, nada têm de comum, já que etimológicamente, nem são vizinhas, nem conhecidas, quanto mais com laços de sangue!... (não têm o mesmo étimo, no caso...)

Gosto de português. Acho o nosso idioma cheio de subtilezas, labirintos, quase mistérios. Até armadilhas! Isso dá-lhe um certo sortilégio.

Partir: - por exemplo, pode também significar quebrar, mas não se dirá nunca  : vou quebrar em viagem - embora partir  e quebrar sejam sinónimos.

Não sei de outra língua, além da nossa, em que se possa dizer sim, usando o não e, não usando o sim.

Se alguém perguntar a outrém: - quer passar? - e a resposta for : - pois não!

Essa negativa significa: - sim. Porém, se a resposta for: - isso sim! - Já significa: não.

Mas, eu andava a cirandar em torno de saudades e reminiscências. Voltemos a elas.

Saudade vem do latim solitate que quer dizer: - solidão, isolamento.

No século XIII dizia-se soydade. De soydades fala D. Dinis “ que soydades de mha senhor ey...”

Reminiscência, também vem do latim, de “reminiscêntia,” relembrança, segundo a minha fonte de informação: - quando alguma coisa sai da lembrança e depois torna a ela por ver algo semelhante.

Já nostalgia vem do francês – nostalgie – e o elemento – nosto - traduz a ideia de : volta, regresso.

Mas porquê esta conversa toda? - Apenas, porque, o que venho contar, é uma “graça” dos meus tempos de escola, que se apoia precisamente no uso desajustado das palavra e, a paródia, é feita com a especulação do disparate.

Daí, que, para contrapor, me viesse a lembrança de mostrar como, por vezes, também nos pode ocupar e distrair a procura do rigor no que se diz.

Cá vai a lenga - lenga :

 

Era, não era

lavrava na serra

com bois de bugalho e arados de palha

Recebeu a notícia

que o pai estava morto

e a mãe por nascer

Pôs os bois às costas

e os arados a comer

Desceu por uma ladeira acima

encontrou uma laranjeira.

Subiu por ela abaixo

a comer marmelos

Veio de lá o dono da loja e disse:

Ó seu malandro!

Você anda a roubar uvas

no faval alheio?

Deu-lhe um soco num olho

feriu-lhe um joelho

e fez-lhe sangue num artelho .

 

...E, com estes velhos contos se encontravam motivos para rir. O que confessemos, é bem fácil quando se é jovem e toda a aventura de viver se encaixa no sonho que cada qual for capaz de sonhar...

 

           Maria José Rijo

 

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.488 – 22 / janeiro/ 1999

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