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“Pão e amor”

Sexta-feira, 14.03.08

“Pão e amor” é o título de uma obra da autoria de Knut Hamsun, escritor norueguês a quem foi atribuído o prémio Nobel de Literatura em 1920.

Trata-se de um livro apaixonante, cujo enredo se desenvolve em torno da história de uma família de colonos que se instalam nas terras desoladas e frias do norte da Noruega; onde vivem os seus dramas e as suas alegrias com o espírito heróico dos desbravadores.

Fala-se nele, do amor à terra “origem de tudo, fonte primacial da vida”, – como no próprio romance se lê, e dos homens amando segundo a lei de Deus, e vivendo entre os animais que os ajudam no trabalho e no sustento.

Lembrei-me desta obra que, na adolescência, muito marcou a minha sensibilidade quando, recentemente, a nossa cidade foi invadida pela notícia brutal da morte de uma recém nascida em condições pouco claras.

E, lembrei-me porquê? – Lembrei-me porque a heroina dessa história, do referido livro, nascera com o lábio rachado o que, desfeando-a, lhe reservou uma vida de exclusão em relação a todos os prazeres e alegrias da juventude e, a fazia esconder-se com vergonha daquela fealdade que a expunha à curiosidade e repugnância de toda a gente que, por esse facto, a descriminava cruelmente.

Só aquele colono, pobre e feio a aceitou porque ninguém mais o queria, a ele também, e tinha necessidade da companhia de uma mulher, para a sua aventura em procura da posse de um pedaço de terra, nos difíceis tempos da colonização.

Assim que, ao sentir-se, meses depois, grávida, a mulher, disfarça o seu estado, e ao perceber perto, a hora de lhe nascer a criança, afasta o homem e, mata a filha porque vem ao mundo com o mesmo defeito que fizera dela um ser revoltado e infeliz toda a vida.

Arrepia! - Espanta! Revolta! – Mas faz pensar...

Como era de esperar a certa altura o crime é descoberto, a mulher é presa e, é julgada e condenada.

Na penitenciária, tem comportamento exemplar, recebe instrução, acaba sendo operada para correcção do lábio que fica escorreito. Durante o resto da sua existência ela carrega a mágoa e o remorso do infanticídio a que por ignorância, a força do amor pela filha a conduziu, na ânsia de lhe poupar o sofrimento de uma vida de tragédia igual aquela a que o terrível defeito a condenara.

Curiosas, são as considerações da advogada de defesa que, então, argumentava assim:

- “ Nós as mulheres constituímos a metade infeliz e oprimida da Humanidade. Quem faz as leis são os homens; as mulheres nem podem dar o seu parecer.”

“- E há ainda outro lado da questão a encarar. Porque é que o homem não é incomodado? A mãe que cometeu um infanticídio sofre a prisão e os rigores da lei; mas ao pai da criança, ao sedutor, nada se lhe faz”.

 Curioso é que este e outros argumentos usados há mais de oitenta anos ainda tenham actualidade. Pois que, se é verdade que as leis hoje não são feitas apenas pelos homens, não é menos certo que em muitos extractos sociais os homens tiranizam as mulheres, violentam as suas consciências, levam-nas à loucura causada pelo peso dos infortúnios que lhe infligem, batem-lhes, fecham-nas em casa, deixam-nas sobrecarregadas de trabalho e miséria, até nas pesadas horas de solidão e sofrimento físico que um parto causa.

Depois, depois...a sociedade que isto permite. A sociedade que esquece a educação, a assistência social, que discute tostões em reformas de miséria e faz estádios de exibicionismos milionários, etc, etc, espeta o dedo e acusa.

Dispor de leis justas e progressistas, não é solução para todos os males da humanidade.

Mais importante, ou tão importante é dar ao povo a preparação para as conhecer e cumprir.

É dar-lhe a consciência cívica dos seus deveres e direitos.

É garantir-lhe condições de dignidade de Vida.

É acordar, ou, criar a consciência de uma sociedade egoísta, alienada por falsos valores, que cultiva as aparências, mesmo à custa da fraude, que, quase sempre, julga e acusa sem meter a mão na consciência procurando e aprofundando as causas, as origens de certos crimes e delitos de que os réus são, muitas vezes, as principais vitimas...

E, ainda há quem defenda o aborto! – Espero, um dia, vir a entender qual é a diferença entre matar um filho às escondidas no segredo de um ventre ou, após o nascimento!...

A falha, é minha, por certo.

                                   Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.653 – 12/Abril/2002

Conversas Soltas

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 21:07


7 comentários

De Gustavo Frederich a 15.03.2008 às 00:46

Também Li este livro.
Gostei da forma como falou dele. Como descreve
a parte que a sensibilizou.

É um grande autor. Fico feliz por partilhar, aqui,
um autor que faz parte dos autores de que gosto.

Parabéns por este artigo
Tia querida.
Grato pelas suas palavras.

Muitos beijinhos

Gustavo

De Maria josé a 15.03.2008 às 20:22

quer saber o titulo de um livro, fantástico, para mim, mas que ainda hoje me arripia?
"A Ponte Sobre O Drina"- de ivo Andric
E, de um que ainda hoje me delicia? -A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson.Aliás, gosto muito de Selma Lagerlof.
E, de um dos que tenho à cabeceira?- Cartas a um Poeta - de Rilke
Isto, ao lado da - Imitação e Cristo( como Régio, com quem convivi, algumas vezes) também tinha, aliás, tenho um terço que ele me ofereceu.
Resumindo : Uma bela misturada.
Na minha idade, a ordem, acaba por ser: uma espécie de desordem organizada.Creia.
Beijinhos -tia Zé

De Gustavo Frederich a 16.03.2008 às 01:33

Realmente a Tia é uma querida.
Essas escolhas são de uma doçura e de uma
beleza que nem tenho palavras para descrever
o que sinto.
A ponte sobre o Rio Drina ainda não li embora
tenha conhecimento dele e tenha sabido ter tido uma critica muito boa, na época. Tenho-o na minha
prateleira. Nils é fabuloso e conheço perfeitamente,
quem não? Só mesmo quem não tenha sensibilidade.
Também admiro José Régio e admiro-a a si pela
sua forma de estar na vida e como dela recolhe
a essencia da beleza.
Rilke - o grande RILKE - também é da minha
paixão. Noto traços dele em si - na sua forma
úbica de expressar a dor e o amor.

Gosto da sua expressão - da sua maravilhosa
forma de se dar - assim - expondo-se por
raiz - como quem olha o sol .
Gosto imenso de a ter conhecido a qui... mas eu
um rapaz que gosta da penumbra, da solidão
de espaços abertos, gosto de tentar ser eu...
eu o Gustavo - minha Tia que faleceu , tão
ontem ainda - chamava-me de Guderich - e
pela cor loura do meu cabelo - de Viking - que
eu adorava. Agora já não mais me chamará
assim - O meu Guderich...

O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

Rilke
--

Beijinhos Tia Querida
Guderich



De Dolores Maria a 15.03.2008 às 12:22

Querida Tia
Que maravilha de texto e poema.
ADORAMOS.
A Luisinha diz que os seus desenhos têm imensa
força e que acompanham o poema.
A sogrinha também gostou porque diz que lhe lembra
muito a Florbela Espanca que ela lia na juventude.
O Avelino está apaixonado pelo TODO da sua escrita
e eu também adoro o que escreve.
É uma Tia muito querida.

Muitos beijinhos
e vou-me andando porque estou a assar um
leitãozinho para o almoço e está quase.
Isto por causa dos desejos da Luisinha.

BEIJINHOS TIA

DO LO RES

De Maria José a 15.03.2008 às 20:35

Minha querida Dolores.
Venho desejar bom apetite para o seu belo petisco, e dizer-lhe que se a Luisinha desejar açorda ou migas aqui do Alentejo, é só dizer.
Conforta-me o coraçao a sua maravilhosa vida familiar, faz-me reviver a casa de meus pais com a presença de minha avó e minhas tias solteiras.
Graças a Deus que o vosso bébé também terá uma corte de amor a rodeá-lo.
A Paulinha está numa feira de turismo até às dez da noite. penso que não terá coragem para por textos.
Beijinhos - Tia Zé

De Adalgisa Alexandra a 15.03.2008 às 12:38

ADOREI
este seu texto. Já tinha Lido
Um vagabundo toca em surdina, e adorei.

Gosto tanto da forma como aborda os assuntos.
Adoro este seu blog.
Beijinhos Tia querida

Gisa

Já estou no meu cantinho.

De Maria josé Rijo a 15.03.2008 às 20:41

Gisa: - faz o favor de não me estragar com mimo?
Parabéns pela sua nova casa.
Espero que nos diga quando tiver as primeiras flores.
Tenho uma série de registos paa fazer e estou sem vontada de tabalhar.
Sabe-me melhor ter companhia.
Beijinhos - tia Zé

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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