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SE UMA COISA MERECE SER FEITA...

Quarta-feira, 26.03.08

Vinha serenamente.

Regressava lá das bandas onde o Guadiana fingindo-se parado espelha melhor o céu, e fica mais azul.

Perto das “Casas Novas”, detive-me porque um homem que assara sardinhas na berma da estrada e acocorado as aconchegava numa travessa de esmalte tinha a seu lado um companheiro que zurzindo o resto das brasas com um ramo de ervas molhadas espalhava cinza e fumo de tal modo que parecia rescaldar um incêndio.

Identificada a situação segui o meu rumo, lentamente, porque aquela nesga de caminho, à direita, até apanhar a estrada de “Forte de Botas” conserva

ainda aquele cunho de paisagem castiça do fundo dos tempos, que é a raiz do Alentejo e, muito me encanta. Deveria, penso, ser considerada paisagem protegida pela presença da autentica vegetação indígena da nossa zona que ainda evidencia - mato de sobro, azinho, oliveira, zambujeiro...

Seguem-se uma ou outra Quinta beirando a estrada. Logo depois, as habitações pululam pela beira do caminho até há bem pouco desnudo. Penso de imediato se haverá população para o surto desenfreado de construção que nos rodeia. As pequenas quintas naquela zona nada descaracterizam. Antes embelezam. Já o mesmo não sucede com os prédios altos, engaiolados, que cortam o horizonte desta cidade, atalaia, traçada com requintes de sábia engenharia de onde um “forte” avistava outro “forte” e onde a nobre traça mandava que nada empanasse a vigilância cortando o alcance do olhar sempre atento aos horizontes.

Nesses outros tempos, havia vagar para sentir melhor que uma cidade não é apenas o conjunto volumétrico das suas construções.

Uma cidade tem, também, a sua feição histórica, religiosa, romântica, laboriosa, gastronómica, tradicional, típica que lhe confere alma própria e cunho particular e que sendo indizível se capta com a sensibilidade do coração e se interioriza.

Uma cidade tem cor – tem cheiro – tem alma.

Elvas é ocre. Ganhou esse tom, quase dourado, do reflexo do céu nas suas velhas muralhas.

Elvas tem cheiro de terra seca e de restolho no Verão. Guarda em cada parede, com o travo da cal, o perfume das eiras desde tempos imemoriais, e de olivais em flor, e da terra húmida e fértil onde o suor dos ganhões, e o sangue dos soldados que deram em definitivo a independência a Portugal se mistura com a promessa das sementes novas que em misterioso silêncio germinam no mesmo chão.

Elvas resplandece em cada pedra das suas fortalezas num halo luminoso e mítico de perfume de história como flores de saudade.

 

Elvas em Setembro Resende a incenso, foguetes, rastos da festa das almas que louvam ao Senhor da Piedade; e aos petiscos gulosos que satisfazem o paladar, e deixam a flutuar no aconchego dos lares um persistente cheirinho de tradição que se renova cumprindo-se...

Assim pensando, passei com a saudação do costume: - Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade! - Pela igreja que para as festas já se começa a engalanar, e dei com as obras de alargamento da estrada que corre entre a Tapada da

Saúde e, a saudosa Quinta do Bispo, de cujo desbarato o futuro ainda há-de falar. (a nova lei de classificação dos solos para Elvas já vem tarde. Guterres acordou só agora! E, é pena...)

Das olaias, amoreiras, conteiras, etc. etc... que durante quase um século, seguramente, fizeram alas para quem passava - nem o rasto. Vim então pensando se, também ali, em seu lugar, iriam surgir palmeiras...como agora parece ser moda em Elvas.

Deus queira que não! Senhor, tende piedade!...

Na nossa zona dão-se bem as sebes de giesta que, quando em flor, fazem a festa do amarelo, as sebes de romãzeira, de loendros, de piricanta, espinheiro,...Dão-se bem olaias, jacarandás, conteiras, e tantas mais, para quê, e porquê a palmeira guarda sol, de imagem tão exótica, como separador de estradas?

Porque não amoreiras, que, como nenhumas mais, fazem parte do historial de Elvas?

É que:  “datam  dos fins do século 15º, (estou a citar Vitorino de Almada) as notícias que aparecem no Arquivo municipal de Elvas sobre a cultura obrigatória da Amoreira, para o desenvolvimento da industria da sêda,...

Mandou el Rei D. Manuel por carta sua, escrita ao concelho em 1498,que cada pessôa que possuísse quintas e heranças puzesse em cada uma d´ellas, nos primeiros quatro anos seguintes, 50 árvores novas entre pereiras, maceiras, e cerejeiras, e só fixava o número d´amoreiras, que seriam 10”

Mais tarde, segundo a mesma fonte, o Príncipe D. Pedro em 1678, por carta, à vereação, volta a insistir no cultivo da amoreira.

O tempo passa, a história prossegue, a obrigação do cultivo é destinada por derrama a cada fazenda segundo a sua extensão e importância.

E, assim “Ao todo sommam as amoreiras que n´este termo se devem plantar, segundo enumeração acima, (refere os nomes de todas as quintas e hortas) na quantia de 1598 amoreiras.

 

Concluindo: a árvore histórica de Elvas é a amoreira.

Ela baptiza não só o Aqueduto, como muitas quintas, hortas, e lugares.

Não se trata, aqui de criticar por criticar, trata-se de apresentar alternativas, justificadas pela história e pelas obrigações que ela nos impõe.

Trata-se de história. História de Elvas.

Sejamos, então, coerentes e reconheçamos que a presença de palmeiras na rotunda do aqueduto, além de despropositada e feia é quase ofensiva...

Deixemos a profusão de palmeiras para onde elas são naturais e são tão cartão de visita como a azinheira é entre nós... deixemos os passeios sem calçada à portuguesa para as ruas da vizinha Espanha...

Sejamos portugueses de brio.

Respeitemos no possível o que é genuinamente nosso, que fala da nossa história e tradição, o que tem a ver com a nossa cultura ancestral.

É o mínimo que podemos fazer por respeito ao passado e ao futuro.

Até porque: - se uma coisa merece ser feita, merece ainda mais ser bem feita.

                             Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.622 – 7 /Setembro/ 2001

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:30


7 comentários

De Flor do Cardo a 26.03.2008 às 02:09

Só a minha amiga
para me arrancar lágrimas dos olhos.
Este texto é tão belo, tão especial, tão profundo
que chorei emocionado.
Tem tanta ternura por Elvas no seu coração
que as suas palavras emocionaram o meu... este
velho coração que ainda bate por Elvas.

Minha amiga Maria José - cá deste lado do oceano
beijo-lhe a mão
enternecido pela beleza destas suas palavras.

Parabéns amiga

Luciano

De Adalgisa Alexandra a 26.03.2008 às 02:15

Tia
Passei para lhe agradecer o seu comentário
(para mim) - ainda fui comer uma fatia do meu
bolo - tão lindo o presente
e estive a ler
este texto formidável.
Não conheço Elvas, nem o Alentejo, mas por aqui
constatei que a sua cidade é muito antiga onde
mora a beleza - traçada de traças antigas e
onde a Flora - na sua maxima beleza - faz sorrir
a sua alma e escrever tamanha maravilha.

Gostei imenso deste seu texto.
É perfeiro, pronfundo e repleto de beleza, como
se nos mostrasse caminhos - esses caminhos dos
seus caminhos preferidos.

Grata pelo passeio - que vi através dos seus
olhos.
Obrigada Tiazinha
Gosto muito de si

Gisa

De Gustavo Frederich a 26.03.2008 às 02:23

É este encantamento
que me tem cativo... esta beleza constante
que emana a sua alma - esta escrita perfeita
e enternecida pelas palavras... este contar cheio
de visões... este continuo aplauso à vida...

Tudo isto e muito mais encontro na sua forma
especial de mostrar o seu enternecimento, a sua
doçura ao escrever.

Estou fascinado.
Grato Tia
Gosto muitissimo dos seus textos.
Já sou um apaixonado da sua escrita, da forma
como brinca com as palavras e no-las dá assim...
na palma da mão como uma flor...

Beijinhos

Gustavo Frederich

De Luis carlos Presti a 26.03.2008 às 02:25

Já cá da minha Florença
Mil beijinhos Tia.
Já estou em casinha e feliz.

Adorei o seu texto.
É lindissimo

Com muita amizade

Luis Carlos Presti

De Dolores Maria a 26.03.2008 às 02:29

Querida Tia
Finalmente a Páscoa terminou e com ela...
muitos devoções e orações.
A minha luisinha já está na casinha dela, a
adorada Dulcinha também pelo que voltei
a ser eu e o meu Avelino.

Estou muito cansada mas este seu texto é uma
autentica obra prima de literatura.
Os meus parabéns pelo passeio que me levou
a fazer - através dos seus olhos.

Obrigada Tia zinha

DO LO RES

De Dina a 03.04.2008 às 00:34

Tenho um anexo ao fundo do quintal que foi construído como um monte alentejano em miniatura...chama-se Monte da Amoreira. Tem direito a placa com nome e tudo. É uma forma de manter uma ligação a Elvas.

De dualidades np a 06.04.2008 às 21:19

Adorei!
Para quem é natural de Elvas e tem Elvas no coração, o seu post de hoje faz mexer com as emoções.
Beijinhos

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