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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

POEMA - Balada da infância

Ai, mundo da infância,

         Como cabes neste mundo?

Ai, promessas,

         Desejos que é bom não cumprir !

Aí, anseios vagos de raro sabor...

Como a vida a cumprir-vos,

Vos rouba o valor!...

 

… Eu lembro-me ainda!

E como esquecer o mundo das gavetas,

          Proibido de mexer?

As malas da Avòzinha e das Tias,

Que só elas abriam… e em certos dias!...

                           

Ai, encantos meus!

Retalhos de seus encantos…

Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de prantos!...

Bocadinhos de tecidos,

Recordações de bordados

De vestidos e arrebiques

De bodas e batizados!...

 

Ai, tremuras dessas mãos,

Tão velhinhas e tão queridas!...

Ao abrirem as caixinhas,

Onde dormiam as chaves,

Dos caixões das falecidas!...

 

Ai, poemas de saudade,

Em palavras tão singelas!...

 

-- “ Vês isto aqui, minha filha?

“Este caracol tão loirinho?

“Era de teu tio avô, meu irmão,

“O que está neste retrato...

“Morreu muito pequenino…

“Coitadinho!...

“Coitadinho!...

 

(Dizia a avó bondosa

A repor o medalhão,

Entre as dobras de d’algum fato.).

Grande mundo das caixinhas,

Sempre fechadas!...

 

Algumas que se abriam a meu pedido,

Tinham missangas, continhas,

Flores secas e plumas,

Restos de sonhos vividos

Que tinham sempre uma história,

Que eu escutava toda ouvidos!

 

-- “Isto aqui...  

 

(Quanta saudade

          Havia em seu recordar!...)

 

 

“… É um pouco de cambraia

“Que sobrou das camisinhas

“Do enxoval de teu Pai,

“E foram feitas da saia

“Do vestido que eu levei

“Na primeira Comunhão!

“Recordo tanto esse dia!...

“Quando voltámos para casa,

“Vinha eu entre os meus Pais,

“E a ambos dava a mão!

 

-- E esta fita tão linda?

 

--“ Não lhe toques deixa estar!

 

            (E uma nova emoção assomava ao seu olhar!..)

 

             

--“ Foi a última que usou

“Antes de ir para noviça

“A minha amiga de infância,

“Minha prima, a Clarinha,

“Que chegou a superiora

“No convento onde morreu

“E do qual era Padroeira

“A Virgem Nossa Senhora!

        

-- E isto aqui, o que tem?

 

 

           (Logo a Avó, com carinho,

            Desmanchava para eu ver

            Um embrulho feito em linho,

            Não fosse a traça comê-lo!)

 

  

--“ É a trança do seu cabelo!...

  “Vês, querida, como era belo?!...

 

………………………………………………

 

E enquanto febril, extasiadas,

E me quedava a sonhar…

A avó fechava a mala,

Com religioso carinho;

E às vezes, no outro dia,

Inda no ar se sentia

Um cheiro muito suave

De alfazema e rosmaninho!...

 

Foi essa mala tesoiro,

Foram caixas e retalhos,

Foram pontinhas de rendas,

Foram retratos e prendas

Dos noivos de minhas Tias

(De minhas Tias solteiras)

Foram leques, pedrarias,

Restos de sonhos sonhados,

Que a morte fez em bocados,

Que geraram, bem o sei,

Os primeiros sonhos que tive,

Os mais lindos que sonhei!...

 

…………………………………………………

 

Minha avozinha morreu…

Não mais mexe em suas malas.

Agora… mexo-lhes eu!...

 

 

Maria José Rijo

19- Março – 1954

 

I Livro de Poemas

Poema nº 11

Pág. 61

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