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Quase um conto...

Quinta-feira, 27.03.08

Porquê eu? – Inquiriu a minha interlocutora.

Porque sempre tive em muito boa conta, a tua lucidez, a tua inteligência, a honestidade dos teus julgamentos e, porque também contabilizo o capital que te advém para o entendimento humano da tua profissão de “Relações Publicas”.

Serve a resposta? - Retorqui.

O seu apreço, se bem que me honre, constrange-me um pouco...mas, está bem, aceito a sua proposta.

Então lê, pondera e diz-me que espécie de pessoa pensas tu que é, – ou, que pode ser - quem escreve isto e passei-lhe para a mão um rectângulo de papel branco com a hermética frase escrita a tinta preta.

amigos

Uma vez que considera como pessoa amiga e convive de perto consigo, não quero menosprezar o seu julgamento, mas, onde lê admiração pela inteligência e apreço pela pessoa cuja formação elogia e cujo caracter respeita, eu só posso, por isto que leio, intuir vaidade, pedantismo e afectação...

Não será extremamente duro esse parecer?

Julgo que não, foi a resposta, e, explico as minhas razões.

Como pode uma pessoa amiga em confidência, pôr em termos tão pretensiosos qualquer dúvida íntima! Eu não entendo.

Só, se, se tratar de alguém com tanto convencimento da sua própria importância, alguém tão convencido da sua superioridade que ao invés de abrir o coração propõe com palavras rebuscadas uma pergunta para a qual, se vê que, já tem a resposta.

E, mais, essa resposta, é-lhe tão favorável em termos de auto-elogio que ela própria, apesar dessa convicção tem uns resquícios de pudor da nudez evidente do seu convencimento.

Pareceu-me a conclusão demasiado dura, demasiado rigorosa, mas, a verdade é que, se no meu íntimo não admitisse a dúvida, ou a suspeita de que algo me escapava no entendimento, na compreensão, daquela maneira de ser algo constrangedora, apesar da correcção de atitudes e da preocupação evidente de se fazer admirar, não me teria ocorrido fazer tal pergunta a Matilde.

Vão anos passados depois que esta conversa aconteceu. Creio bem que ao longo deles nunca mais em tal pensei.

A vida joga um pouco com as nossas posições e, desloca-nos, como os peões num xadrez. Os que hoje estão perto, o acaso que as junta, também as separa, e lhes dá o xeque-mate.

Agora, inesperadamente, nesta onda de expurgo, encontrei, muito dobradinho no bolso dum casaco velho o bocado de papel onde a frase que suscitou esta conversa estava escrita.

Num ápice tudo ficou presente, e, como é natural a estes anos de distância, o meu olhar sobre o assunto já não é o mesmo.

brumas

Penso agora que a opinião que na altura me surpreendeu, seria neste momento, inteiramente subscrita por mim.

Sem dúvida, a amizade e a presença, pesa muito nos conceitos que emitimos sobre as pessoas que nos rodeiam, e, por vezes, a distância, torna-nos mais objectivos e, descortinamos em nós, com absoluta evidência, o que nos recusávamos a aceitar.

São sempre mais independentes, a ajuizar, os olhares de quem está descomprometido, com o complicado mundo dos afectos.

Não sei a frase de cor, e, agora que a queria citar, verifico que inadvertidamente deitei o papel no lixo, mas, estou certa: Matilde, não se deixara iludir, tivera razão.

Reconheço o meu equívoco.

 

                                      Maria José Rijo

 

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.706 – 18/Abril/2003

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 21:04


11 comentários

De Flor do Cardo a 27.03.2008 às 22:48

Cara Maria José
sem duvida que tem razão,
tive na minha vida poucos amigos,
poucos mas bons... amigos
desses que são Amigos desde o primeiro instante
até ao último e que não nos olham - lá daquela
maneira que todos sabemos...
Hoje em dia - cá deste lado do oceano - na minha
pasmaceira - onde todo o tempo é para pensar e
organizar a cabeça - lembro as minhas amizades
e imagine que fico desconsolado porque
praticamente estou só ... todos já partiram -
poucos (dois ou três) ainda continuam neste lado
onde a história ainda se faz.

Compreendo-a e minha amiga - cheguei à conclusão
que nem todas as amizades são fiáveis, que nem
todas as pessoas são o que tentam parecer, é de
lamentar - mas também existe gente boa que
goste de nós e seja amiga de verdade.

Deixo-lhe aqui alguns pensamentos, de que eu
gosto de Madre Teresa :

Por vezes sentimos que aquilo que fazemos
não é senão uma gota de água no mar.
Mas o mar seria menor se lhe faltasse
uma gota.

Todas as nossas palavras serão inúteis
se não brotarem do fundo do coração.
As palavras que não dão luz aumentam
a escuridão.

É fácil amar os que estão longe.
Mas nem sempre é fácil amar os que
vivem ao nosso lado.

"Se um dia eu for Santa, serei com certeza
a santa da escuridão'. Estarei continuamente
ausente do Paraíso", escreveu a monja
Madre Teresa de Calcutá


Um abraço bem apertado
Flor do Cardo

De Maria José a 29.03.2008 às 12:18

meu Amigo, que daqui, que dali, as pssoas vão percebendo porque se escolhem e se entendem.
Para além de um certo culto por Elvas, afinidades de opiniâo e, outras pontas que se poderiam enumerar e juntar, descubro agora que , também, como eu,se guia por Madre Teresa.
Tenho-a tanto no meu coração que a fotografia dela está numa estante como estão familiares e amigos que preenchem o meu leque de afectos.
Obrigada pelos seus comentários sempre generosos e amigos.E, por favor não descuide o uso dos "perfumes" agora obrigatórios no Brasil - os repelentes de insectos .
Um abraço grande Maia José

De Dolores Maria a 27.03.2008 às 22:51

Minha querida tia
Adorei o seu texto e acredite que tem razão
absoluta no que aqui afirma.
Hoje em dia já não podemos confiar em ninguém.
As pessoas estão muito diferentes do que eram.

Muitos bejinhos Tia
Gosto imenso do que escreve.

DO LO RES

De maria José a 29.03.2008 às 12:43

Querida Dolores - ontem não me foi possível vir aqui um bocadinho à conversa.Acontece que uma querida amiga que também me chama de tia, e que muito aprecio tem o marido hospitalizado.Embora o ambiente hospitalar me deprima e, me prejudique o sono, sempre que necessário acompanho-a e, são duas vezes por dia o que como calcula altera o meu rame-rame.Esta amiga de quem falo, tem tido o marido acamado há vinte e dois anos, e, nunca cedeu à vontade de médicos para o internar.Como ele apenas mexe os olhos e nem fala- embora mantenha viva inteligencia e lucidez - ela nunca permitiu que estranhos o cuidassem receando mais sofrimento para ele. Nestes longos anos sempre o tratou por: meu menino.
Há heroismos escondidos que nos põem a alma de joelhos quando os descobrimos.
Desculpe contar-lhe história tão dolorosa, mas ...veio a talhe de foice para confrontar com a minha pieguice
de ficar deprimida com o ambiente dos hospitais.
Que estejam bem e felizes - obrigada sempre pela alegria dos seus comentários
um beijo tia zé

De maria josé a 29.03.2008 às 20:10

Minha Querida Dolores
voltei, porque hoje, não a encontrei e, senti a sua ausência.
Espero ter sido por um motivo feliz que hoje, nos faltou. Depois de mais de um ano na vossa companhia
não nos vai levar a mal a preocupação...
Beijinhos - tia Zé

De artesaoocioso a 27.03.2008 às 23:53

Levamos tempo a conhecer os amigos e até pessoas mais intimas e, às vezes, enganamo-nos.
Até pode ser pior quando alguém que julgamos amigo nos passa uma grande rasteira.
Também pode acontecer que os outros pensem isso de nós; as exepectativas podem ser altas e a desiluzação acaba por vir.
De Santo e Pecador, temos todos um pouco.
Cumprimentos.
João Gonçalves

De Maria José a 29.03.2008 às 12:52

Obrigada a João Gonçalves pela atenção que me dispensou comentando um texto meu.
Quem escreve, nem sempre avalia até que ponto, para alem do que desejou, mostrou a sua alma .
Saber como o eco do que se diz repercute em quem lê é sempre uma mais valia
Afectuosos cumprimentos
Maria José

De Gustavo Frederich a 28.03.2008 às 01:16

Hora severa (Das Buch der Bilder)

Quem neste instante chora em algum
lugar do mundo,
sem motivo chora no mundo,
me chora.
Quem neste instante ri em algum
lugar na noite,
sem motivo ri na noite,
se ri de mim.
Quem neste instante caminha
em algum
lugar no mundo,
sem motivo caminha no mundo,
caminha até mim.
Quem neste instante morre em
algum
lugar no mundo,
sem motivo morre no mundo,
me observa.

...
A amizade faz parte da nossa natureza e
atracção pelo agradável; nascemos com ela,
tal como nascemos com outras coisas.
Assim como o homem detesta a solidão
e se sente atraído pela sociedade, e um i
nstinto natural nos aos outros, assim também
há em nós algo que nos é inerente e nos
estimula a procurar a amizade.

Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano,
Epístolas a Lucílio

----
Um amigo é, ou é como se fosse,
um segundo eu.

Cícero, 106-43 a. C., filósofo e político
romano, Da amizade

---
Um amigo é alguém que se abre se estás
ferido, e que se te dá se lhe pedes, sem
ter em conta a contabilidade dos ganhos.

Francesco Alberoni, ensaísta italiano,
A amizade; edição portuguesa: Bertrand

----
Os sinais que vêm dos corações dos que se
amam, e que se manifestam no rosto, na
fala, nos olhos, e em mil outros gestos
amigáveis, inflamavam as nossas almas
como uma centelha, fazendo de muitas
uma só. É isso que se ama nos amigos.

S. Agostinho, 354-430, filósofo e teólogo
cristão, Confissões
---
Os prazeres que a minha alma mais
fortemente apreciavam eram conversar
com os amigos, rir, agradar mutuamente,
com simpatia, ler juntos, gracejar com
os outros, e divertirmo-nos juntos; às vezes
discutir, ensinar ou aprender muitas coisas;
suspirar impacientemente pelos ausentes e
receber alegremente os recém-chegados.

S. Agostinho, 354-430, filósofo e teólogo
cristão, Confissões
---
A amizade requer uma pitada de contenção,
e é profanar o seu nome requerê-la a
todo o momento.

Moliére, 1622-1673, comediógrafo
francês, O misantropo
----
A verdadeira amizade é uma planta de
crescimento lento, que tem que suportar
e provar a adversidade, antes de poder
usar o seu nome.

George Washington, 1732-1799, 1º
presidente americano, Carta de Jan.
15, 1783
----
A amizade vale mais do que parentesco,

Provérbio corso

----

Gostei muito do seu texto e compreendo-a
bem fundo e sinto que a desilusão é uma
marca que fica presa na carne - como um
espinho.
Tenho em mim um espinho desses que ficou
preso em mim, lá bem fundo... por vezes,
na maioria das vezes está adormecido, mas
eu sinto-o lá a molestar no escuro...
A amizade é uma faca de 2 gumes...

Com grande amizade por si Tia
Gustavo Frederich














De Maria josé a 29.03.2008 às 15:13

meu sobrinho querido, os seus comentários às vezes trazem-me reminescências muito curiosas. Hoje, as palavras em alemão levaram-me ao Liceu de Beja em 1942, quando Herr Doktor me tratava por Fräilein dichter e, eu me atrevi ( por indicação dele) a traduzir Heidenröslein de Goethe - Já não me responsabilizo pela ortografia, em alemão, como é evidente, mas quando li" das buch - der bilder" voltei atrás no tempo...e lembrei "gefunden","mailied"...
"um rapaz viu uma rosinha que na charneca floria
era tão linda, tão bela que ele correu para ela e olhou-a com alegria...o rapaz diz à rosinha, sabes que te vou colher? - pico-te se tal fizeres ,para de mim não te esqueceres, olha que eu não quero sofrer"
Isto foi há 66anos! que emoção lembrá-lo agora!
Realmente , no bom e no mau há "picos " que são marcos nas nossas existências.
E,realmente eu sou uma pessoa com muita sorte.Agora que saio menos e fico mais tempo só quis Deus que me surgissem estes sobrinhos tão queridos e tão diferentes que me enchem o coração de alegria preenchendo os diversos interesses que a vida nos solicita.
Até me dão oportunidade de reintegrar no meu vocabulário palavras que gostamos de dizer sentindo e, cujos destinatários a vida foi retirando do nosso espaço fisico. Assim voltei a dizer muito mais vezes -Querido -e faço-o com muita gratidão e ternura porque me enriquece a estima da minha nova família
Beijinhos - Tia Zé

De Gisa a 28.03.2008 às 10:00

Tia querida
O seu texto é uma verdade indiscutivel.
Gosto imenso da sua lucidez da sua forma
de olhar - por dentro - bem no âmago das
questões (sejam elas qual forem).
Gosto muito de si Tia, este seu blog é para mim
uma catedral onde me sinto bem e feliz de a
"conhecer".
Tem uma alma muito Linda
Parabens mais uma vez.
Gisa

De Maria José a 29.03.2008 às 15:23

Algumas vezes quando penso em si pergunto-me como será que gere a sua solidão.
Há muitos anos, era eu ainda uma rapariga, uma amiga ofereceu-me um livro precioso que ainda hoje me acompanha - Cartas a um poeta.
Há relativamente pouco tempo foi reeditado , e, eu devo ter comprado mais de uma dúzia para oferecer aos amigos a quem falava dele com frequência. Se lhe calhar compre. É de Rainer Maria Rilke.Creia que é um sólido bordão para amparo de qualquer caminho.
Um beijo muito amigo- tia Zé

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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