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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Reminiscências III

           

        No começo de um novo ano – e, desta feita, um ano tão especial que é o último antes do tão esperado, cantado e louvado ano 2000 – nada mais a preceito do que levantar de sob a poeira dos tempos recordações. E, se não forem tristes, bem melhor será...

Reminiscências têm a leveza do que é vagamente recordado. São a ponta, o esparso do que vagueia na memória e é lembrado sem a exactidão, o peso, o recorte preciso, a importância do que se pode designar por uma verdadeira lembrança, penso eu.

            Gosto de reminiscências.

            São uma espécie de indícios, sugestões para caminhos do pensamento por onde se avança, ou não... De onde se foge, ou não...

            Como contraponto a este 2000 em que tudo será novo, reluzente, imponderável, em que até os computadores tremerão...e a nossa moeda, o consagrado escudo se prepara para falecer, embora nunca tivesse gozado de tão boa saúde...

            Nesta mesma era, em que os homens, creio e receio, vão continuar a fazer guerras cada vez mais cruéis e injustas vou relembrar uma quase anedota com raízes muito fundas no tempo. Talvez lá pelos princípios do século XIII, quando as ordens religiosas eram compostas de frades mendicantes, porque os seus princípios assentavam no voto de pobreza.

           Quem sabe!...                                                                   

Dos personagens mais usados nas velhas historietas eram os padres, e os frades, para além das princesas, reis e rainhas , quando se tratasse de narrativas amorosas

            Os padres e os frades andavam mais ligados a contos de pobreza ,a falta de proventos que os faziam criar ardis e manhas para vencer necessidades de sobrevivência  .Assim que, em certa época, nada tendo, havia dias , para comer ,amarelo de fome ,disse um padre ao sacristão para ir pelos arredores pedir aos proprietários ricos das redondezas qualquer coisa que os salvasse de tal aperto, enquanto ele dizia missa e  pregava o seu sermão.

            Decorria a cerimónia quando o padre avistou o sacristão a entrar discretamente na igreja. Não resistiu o coitado a indagar a sorte que o esperava e, metendo os seus cuidados no meio das latinadas cantou com ansiedade: - tu que foste e que vieste dize-me lá o que trouxeste?

            Apanhando a entoação, respondeu o sacristão: - trouxe um mémé preso por um pé.

            Não podendo conter a alegria levantou o padre os braços para os céus e disse: graças a Deus! - E os fiéis repetiram: - graças a Deus!

            Porém, faminto e curioso continuou na mesma cantilena: - o que lhe fizeste?

            Já está morto e esfolado boiando num ensopado, esclareceu cúmplice o sacristão.

            Radiante diz o padre: - Deus seja louvado!

            Deus seja louvado! Repete a assistência.

            Está o sermão acabado que se Deus não me acudia de jejum eu já morria

            Amem! Disse o povo que de latim e cantoria nada entendia.

 

           Estas historietas, aparentemente inócuas, revelam na sua ingenuidade, segredos de outras eras.

            São contos chegados até nós por tradição oral. Para muitos não terão interesse, para outros, darão para sorrir e para pensar.

            Pessoalmente, encantam-me e, passo-os com a intenção com que me foram

narrados, como herança da memória do povo que somos.

 

                                   Maria José Rijo

 

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.486 – 8 / Janeiro / 1999

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