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“O Mostrengo”

Quinta-feira, 24.04.08

A gente é vária e consequentemente as opiniões também.

Qualquer novela desde que se lhe torne conhecido algum capítulo ou apenas bocado de entrecho fica, desde logo, sujeita a intervenções alheias pressionando o autor.

Vem um e interroga: - então agora o que lhes dizes? – Não dizes nada? – Não comentas?

Vem outro e adverte: - cuidado, cautela, olha que até com Bruxos e Feitiçarias andam metidos!

Pensa, reflecte bem, se valerá a pena! - Olha os riscos!...

Mal se ouve tal comentário, até Portugal inteiro reagiria, num reflexo, como por instinto, com o verso de Fernando Pessoa (que já fez seu, sem disso se dar conta) -“ Tudo vale a pena se a alma não é pequena”

Desiste! – Insiste Insiste! Desiste! – São os conselhos contraditórios que, como é da norma, todos escutamos.

O telefone toca e, inesperadamente, uma voz feminina ameaça:...

- E desliga.

-          É diferente o silêncio que se restabelece – é mais opaco...

-          (O romance está a tornar-se Vida - pensa o autor)

Quer dizer, as coisas ganham tais foros de realismo que se confundem os actores com os papéis que representam e as causas que defendem...

Qualquer protagonista de qualquer história tem de saber situar-se no meio do enredo dela, mesmo que em ficção a esteja a viver.

E, tem que ter um rumo, uma linha de pensamento e de acção se quiser que as suas personagens tenham credibilidade.

Pessoalmente, estou até convencida de que toda a ficção tem de ter os pés bem assentes na realidade para ser convincente.

Sempre os contos de fadas, e até recentemente a história mágica do Harry Potter, têm seguido a mesma linha. Peripécias e mais peripécias, bruxarias e mais bruxarias ao serviço de interesses e intentos vários – inconfessáveis, talvez! - e, depois, contra malefícios e perfídias  o triunfo do Bem, da Justiça, do Bom Senso e  da Razão .

Só com essas coordenadas bem delineadas o entrecho comove o grande público, é autêntico, e convence. 

É que a ficção manobra-se - a realidade  - não.

Ela impõe-se.

Domina. Comanda.

Cria e mata conforme decidir quem do alto diz: “ no meu reinado...”

Felizmente, por cá, desde 1910, como Republica, tentamos agora viver em Democracia.

Falemos então de nós:

Uma coisa é pôr e sobrepor o mesmo nome a tudo, melhor ou pior, que mascare a inferioridade e o desperdício com fachadas de grandeza – outra - é invocar um Santo para encobrir a afronta gratuita, o pecado da perseguição pessoal, do gozo perverso da humilhação que se inflige a outrem, da sanha de vingança e outros sentimentos menores por muito encapotados ou, até, mascarados de loiras fadas que se apresentem...

Até o próprio Santo, que, como todos os Santos, vê os corações e neles lê, frente a homenagem tão temporã, como mal intencionada, poderia ter dito como o povo repetiu: - engana-me que eu gosto!...

              Mostrengo que está no fundo do mar

Ainda que em qualquer episódio da novela eu possa sair da ficção para a realidade, ou, talvez por isso, como a minha escrita é o leme com que traço a minha rota, fico com Fernando Pessoa e aprendo, reaprendo e repito – firme - com o Poeta, as falas frente ao Mostrengo:

 

“ Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o Mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!”

 

 

 

                                  Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.891 – 9 de Novembro de 2007

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 01:08


3 comentários

De Luis carlos Presti a 24.04.2008 às 01:19

Tiazinha, tiazinha...
Voltei - não é que me tivesse esquecido de si e do
seu blog, claro que não - só que o meu computador
ardeu devido um problema electrico e estive sem computador imenso tempo.
Só hoje me entregaram este novinho em folha e
tenho estado a ajeita-lo a meu jeito.

Estive a ler e aler e ainda a ler e devo confessar-lhe
que adorei. Tem imensas actualizações que não
conhecia e tenho também de dizer que percebi
como o seu blog está mais bonito.
Sabe que quando o olho - e lei - tenho assim a
sensação de estar sentado na sua sala a ouvi-la
falar - só pode ser porque cada texto é uma
observação feita para a vida e pela vida - ve-se
o seu amor a esta vida a ao que se vive.

Devo dizer que estou encantado com este seu
blog - que cresce e está tão mais bonito a cada
dia.

Parabéns Tia
e obrigado por ter este blog on-line - senão como
poderia eu - desde Florença - ter a alegria de
ler os seus textos de prosa e poesia e de tudo
mais.

Com muito carinho e admiração
Luis Carlos Presti

De Aristeu a 24.04.2008 às 01:37

Dona Maria José
agora - na calada da noite - agora que todos
dormem - vim ver o seu blog para poder
deixar-lhe aqui uma palavrinha.
Antes de tudo devo confessar que gosto, gosto
de coração dos seus textos de prosa e bastante
dos de poesia - que é um prazer imenso poder
partilhar a minha vida - consigo - apesar do imenso
oceano que nos afasta - mas as suas palavras,
neste blog - é uma lufada de ar fresco e saudável
nestas nossas vidas de trabalho.
Sei que sabe da desgraceira do dengue que assola
este pais - sei que o meu Pai se tem apoiado nas
suas palavras amigas e neste blog - já que tem
ficado aqui fechado em casa - tem um medo de
apanhar o dengue - e eu prefiro tê-lo protegido.
Também sei que está a par do Virgílio - do mosquito
que o picou - esteve deveras mal - temiamos que se
fosse no auge daquele febrão inclemente que não
cedia a nada - mas de repente começou a baixar -
já retomou a consciência - mas está fraco e nem
parece o mesmo - é terrivel esta epidemia.
Ainda permanece no hospital mas já está fora dos
cuidados intensivos - desejamos que volte para casa.

O meu pai até envelheceu imenso - teve febres altas
- creio que emocionais - e ainda chamei o medico cá
a casa - também esta melhor mas a idade já não
ajuda muito.
Ele dorme agora - mas preveniu-me que viria ao blog
- não veio porque adormeceu pelos calmantes
que tomou.
Não veio o Luciano - veio o Aristeu deixar uma
palavrinha a esta Senhora bonita - que tem um
dom especial para falar com as crianças - nunca
me esqueci de si e da forma como falou comigo.
Passados tantos anos agradeço -lhe de coração
a bonita imagem que ficou gravada dentro de mim.
Muito obrigado.

Seu admirador

Aristeu

De maria josé a 24.04.2008 às 08:23

Aristeu
Minha Mãe faria anos hoje. Por essa razão levantei-me mais cedo para ir à missa. Antes, porém, vim ver se havia notícias de Virgílio.
Graças a Deus encontrei a sua mensagem. Assim já saio de casa muito mais tranquila.
Compreendo perfeitamente a angustia que viveram e a preocupação com que têm que conviver diariamente, eu própria aqui longe, não consigo deixar de vos acompanhar com o meu pensamento.
A sua atenção comigo,comoveu-me.
Creia que a senti como uma resposta ao meu coração onde, vós três, estais enraízados neste afecto, só agora compartido,mas tão antigo, que é parte da história das nossas vidas ,de seus Pais e nossa - de meu marido e minha.
A Vida é surpreendente. Sempre.
Quem me havia de dizer que havia de ir ao meu oratório com os vossos nomes nas minhas súplicas!
Mas, vou.
E, sei que o sabem e sentem e que se preocupam em aquietar a minha preocupação.
Sei. Sabemos isso. Sentimos isso, e, é isso que nos torna amigos de verdade. Que somos.
Tudo isto que lhe estou dizendo, Aristeu, É em lugar do abraço grande e bem apertado que só esta distância tamanha a que estamos, não consente - mas sei que a tudo daria respostas.
Aqui lhes fica a companhia da minha amizade sempre atenta a notícias vossas e sempre grata por elas
Com toda a ternura , porque os ramos fortes, mesmo "valentes" também abanam com os vendavais - aquele abraço - de quem nos quer bem -
duma velha amiga que usa a liberdade que lhe dá ser também uma amiga velha
Um beijo - maria josé

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