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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Ciência de Almanaque I

In illo tempore, era tão vulgar comprar ano após ano os famosos almanaques, como hoje se compram semana após semana as revistas das telenovelas ou de modas.

Ninguém os dispensava. Eram encadernados, com capas duras, tinham apresentação gráfica muito cuidada eram profusamente ilustrados.

Eram indiscutivelmente cativantes à vista e estavam sempre à mão porque desde as crianças que se deliciavam com os bonecos e a solução dos labirintos, até aos mais idosos que procuravam outros interesses, tinham assunto para entreter toda a gente.

Eles forneciam receitas de culinária, sugestões sobre moda, informações sobre o tempo, anedotas, adivinhas, uma série infindável de passatempos, conselhos sobre jardinagem, de higiene e saúde, de como tirar nódoas, truques de ilusionismo, enfim, uma infinidade de coisas que nem lembrariam ao demónio, mas que não escapavam aos especialistas em entretenimento que os elaboravam.

Divulgavam a anedota elegante, que se podia repetir diante de velhos e novos e que não deixava por isso de fazer nascer um saudável sorriso.

O senhor Bule com altivez: - A sua voz não seria tão má, senhora Dona Chaleira, se não cantasse pelo nariz...

Havia então um, o Almanaque Bertrand, que era o que eu conhecia melhor, e que fazia as minhas delícias.

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É que para além da variedade de assuntos, e das imensas histórias, contos e curiosidades para ler, tinha em rodapé de cada página um ditado popular, pensamentos que sempre me encantam e surpreendem pela sabedoria empírica que encerram.

Eram na verdade uma fonte quase inesgotável de interesse para os longos serões em que se bordava, jogava às cartas, se fazia música se conversava ou estudava.

Como hoje também ainda se faz em moldes da nossa época, claro!

Quem ameaça, sua ira gasta.

Maio come o trigo, Agosto bebe o vinho.

Quando chupa a abelha, mel torna; e quando a aranha peçonha.

O gosto danado, julga o doce por agro.

Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.

Amigo de bom tempo, muda com o vento.

A adversidade é pedra de toque da amizade.

...E mais um sem número deles que seria agora fastidioso enumerar.

 

 

Mas...vem isto a talho de foice porque encontrei ao arrumar papelada um espécimen desses com data de 1908.

Claro que este é anterior a mim mas encerra o mesmo encanto daqueles outros que eu recordo e, tem ainda o sortilégio de eu não saber quem a guardou e porquê o que desafiou a minha curiosidade.

Pus-me então a folhea-lo na esperança de encontrar alguma pista,uma assinatura, um comentário...mas nada, nada mesmo que me leve a concluir se foi minha mãe, ou minha avó quem o preservou de modo a chegar até mim quase um século depois consegui descobrir. Foram baldados os meus esforços.

Mas, folheando-o encontrei uma série de curiosidades que li com interesse e me pareceram engraçadas para divulgar.

Por exemplo: quem saberá exactamente como apareceram as cartas de jogar! – Pois o velho almanaque conta assim:

 Há muita gente persuadida que as cartas de jogar foram inventadas para distrair um certo rei de França, mas o que parece provado é que este jogo foi importado do Egipto para a Europa. A significação simbólica e astronómica das cartas parece confirmar esta origem.

O baralho de cartas primitivo tinha duas cores, branco e preto, como ainda hoje têm os baralhos franceses e ingleses.

Estas duas cores correspondem aos equinócios. O número de cartas dum baralho é de 52, como as semanas do ano. São quatro naipes, como as estações.

O desenho de cada naipe corresponde a cada uma delas. O que chamamos ouros são em verdade rosas arquitectónicas: correspondem à Primavera; as espadas, simile de Verão, à época da ceifa; as copas representam o Outono, tempo em que se faz a vindima, e os paus simbolizam o Inverno.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Será verdade? Será fantasia?

Confesso que não sei, porém tem sua graça pensar que era assim que se acreditava há quase cem anos.

 

                   Maria José Rijo

 

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Nº 24 – Janeiro/Fevereiro - 2003

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