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“Relacionando...”

Quinta-feira, 01.05.08

            Muitas vezes, por razões afectivas e outras, me recordo de pessoas, verdadeiras personagens, que povoaram o mundo da minha infância e adolescência e, hoje, povoam o mundo das minhas mais gratas recordações.

            De algumas delas até já tenho contado algumas histórias, tristes, ou alegres, conforme me ocorrem.

            Hoje é quase uma anedota o que vou lembrar mas, como todos os factos reais, quer os mais ligeiros, quer os mais complicados, acabam por ter algum significado no nosso quotidiano.

            A senhora Cesaltina, que trabalhava em casa de meus pais, fazia pegas de lãs em feitio de pintaínhos, galinhitas e mais coisas que tais. Fazia cestinhos e chaveninhas de chá, em renda e outras belas e inúteis habilidades que exibia, com vaidade, nas mostras de artesanato lá da terra mas, tinha - e com toda a razão - um incontido orgulho do seu passado.

            Com uma certa raiva contida, superada, no entanto por um gozo de triunfo que lhe punha no olhar um brilhinho de alegria húmido de comoção - nas horas de calma - quando as tarefas não rendem , não gostando de dormir sesta , arregimentava-nos e dava largas às suas lembranças ,sabendo como apreciávamos ser seu público .

                 ...abandonado...

            Ela criara “ à força do seu braço”, sozinha na sua viuvez, os dois filhos que tinha. Não fora empresa fácil.

            Desdobrara-se em trabalho e sacrifícios.

            “Mondava, acefava, não faltava ao apanho, saroava fazendo jêtos; ò sábedo por mor de ganhar a poia acarretava lenha p’ró forno,...e, assim, os crií” - contava.

            “Ora, duma vez , ganhi umas molhaduras ,e pensi :- àmanhem vou dar a provar òs mocinhos mantêga de vacas . Porra! - que tamém têem-no dirêto!  Atão, chami o mê Lexandre e disse-le : vai ali à loja do Jasuìno e compra dez tostões de mantêga de vaca.

            Nã dês assoada! - Espera até saírem aquelas maganas todas que lá tejam quê aporcebam do que tu vás a comprari. Olha que, se dizis, levase-as! Já sabis - ou te calas , ou levas porrada .”nã quero que s`

                      Planos

            Assim industriado lá foi de pé descalço, amigo Alexandre, cúmplice feliz daquela aventura secreta:- comer pela primeira vez na vida : manteiga de vaca! - Estranha ousadia de pobres que em fugindo ao pão com toucinho, cru, ou cozido, se supunham roubando privilégios aos mais abastados.

O melhor da história começa aqui.

            De tão assustado, tão recomendado, o nosso herói, foi-se quedando pela loja irrequieto, mas mudo. Entrava gente e saía e, à pergunta: - queres alguma coisa Lexandre? - o menino respondia :- quero sim senhora! - Então o que é?

Com um ar de quem está bem senhor de si e das suas responsabilidades o garoto só dizia:” - tá bem dêxa ! isso era o que voceia queria sabéri !...e nem ao dono da tenda confessava a pretensão conservando a moeda de escudo tão bem fechada na mão como o segredo que, cioso ,ia calando.

            A certa altura inquieta com a demora foi a mãe procurá-lo e o enigma desvaneceu-se. Anos passados, ainda contava a rir, estas e outras facécias do crescer dos filhos, das dificuldades e das alegrias cujas recordações lhe enchiam o coração.

             Altos e baixos....

            Pensando hoje nisso e no relato do alvoroço que foi a entrada em casa do primeiro calçado para não irem descalços à escola: - botas de atanado cardadas, amaciadas a poder de sebo. Grandes, enormes, pesadas, incomodas como o sacrifício de quem as comprou.

 Mas,” com fiture , quai´s qu´eu as calçava! qu’o calçado custa os olhos da cara!”

            “Suí-as eu!” – confessava.

            Lembrei-me destes acontecimentos passados por comparação com outros recentes que vou relacionando....

            Quem quiser 250 gramas, daquele pó azul, para pintar os rodapés das paredes – só encontra embalagens de quilo a 1.300$00.

            Quem quiser aguarrás, óleo de linhaça, etc. etc. também, em belas embalagens de lata – de litro – por mais de quinhentos escudos - comprará as porções que lhe são impostas e não aquelas de que necessita ou lhe convém adquirir...

            E, assim sucessivamente, seja mercearia, batatas, cenouras ou o que quer que seja. Se julga que dispõe do seu dinheiro para o usar a seu contento...desengane-se!

Estamos, quer queiramos, quer não, numa época de violência. E esta moda que sub-reptíciamente se instalou de obrigar o indefeso cidadão a adquirir porções de géneros de que não necessita, nem economicamente lhe convém, não é, por certo, das mais ortodoxas...

           [ Vinda da mercearia ]

            É destas encapotadas faltas de consideração e respeito pela dignidade da pessoa humana, que, como num plano inclinado, o abuso, a permissividade, derrapam, derrapam, até às impensáveis proporções de que todos nos queixamos em todas as vertentes...

            Se bem repararmos há muitos serviços que pagamos cada vez mais caros e que cada vez nos servem pior... veja-se as contagens da luz, os vazamentos de lixo, etc. etc. etc.... preste-se atenção em como tudo se vai organizando à revelia da comodidade do Zé pagante...e reconheça-se que violência não é apenas pancada. Às vezes essa é, até, a menos cruel das violências...

 

                                    Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.467 – 28 –Agosto - 1998

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:37


8 comentários

De Avelino a 01.05.2008 às 01:39

Dona Maria José
É com tristeza que venho comentar - não pelo
texto - que como sempre está muito bonito e de
bom português, como é de sua habitual forma,
mas não vá a senhora estranhar a falta da
Dolores no blog, digo dos seus comentários, é que...
A minha Paxão - está internada novamente no
hospital - voltou a tomar comprimidos errados.
Nem sei porque o faz - mas voltou a acontecer.
Estou triste, o médico diz que está com uma imensa
depressão desde que a nossa filha perdeu o rebento.
Lamento dizer mas até aqui ao seu blog - que era
a página preferencial do computador - agora quase
nem o abria - não é que não tivesse interesse, porque
estava sempre a falar da sua Tia de Elvas .
O médico diz que tem de a por a dormir uns dias
e falar um tratamento especial que diz resultar.
Esperamos que sim, que resulte mesmo.
Não fique preocupada - também vim contar-lhe
orque sei que gosta da Dolores e ela de si.
Não se preocupe.

Um abraço
Avelino, Luisisnha

De maria José a 01.05.2008 às 19:58

Avelino : -Tenho andado um pouco afastada deste espaço, porque tive que resolver problemas vários e, por vezes ,mais do que gostaria,invade-me algum cansaço que me faz desistir de coisas que gostaria de fazer.Hoje porém as noticias sobre a Dolores deixaram-me bastante preocupada, e, não seria capaz de deixar por agradecer o seu cuidado em informar-me. Bem gostaria de fazer qualquer coisa para a ajudar, mas não sei o quê.
Diga-lhe por favor que os comentários dela nos fazem muita falta, que ela me é muito querida e que fico rezando para que se ponha boa muito rapidamente.
Diga-lhe também, por favor, que a Paulinha quando põe qualquer texto fica sempre a pensar se a Dolores irá gostar, e logo que ela comenta me telefona a informar.
Dizia minha Mãe que todas as léguas tem um bocado de mau caminho! - que Deus vos ajude , para que depressa reencontrem a segurança do vosso rumo feliz.
Um beijinho grande para os três .Fico contando com as vossas notícias, com muito carinho - tia Zé

De Adalgisa Alexandra a 01.05.2008 às 01:42

Certamente - mais um bom texto para somar a
tantos que a Tia já aqui nos mostrou.
Fico sempre feliz quando abro esta sua janela
e encontro a beleza deste seu jardim.
Parabéns Adorei.

O meu gatinho está lindissimo.
Beijinhos e bom feriado

Gisa

De Maria José a 01.05.2008 às 20:20

Gisa- já pensou que eu não faço a mínima ideia de como são os meus sobrinhos de coração !?
De repente, dei-me conta de que isto parece um jogo em que os jogadores sem dispor dos mesmos trunfos ganham o mesmo convívio.
Obrigada sempre pela sua presença. Como é o gato?
Beijinhos tia Zé

De Xavier Martins a 01.05.2008 às 01:46

Como não tive texto no outro lado...
Vim beber aqui... e saciar a minha sede...

Bons blogs tem a Senhora
e estou muito animado com o outro.
Parabéns por ambos.

Feliz feriado o do 1º de maio.

Com imensa admiração

Xavier Martins

De Maria José a 01.05.2008 às 20:36

Xavier Martins
Como já terei contado a trabalheira de fazer os blogues é da minha sobrinha Paula.
Creia que eu não sei onde ela vai desencantar paciência e tempo para isto tudo!
Já pensou nas empreitadas que ela faz a passar os textos " quilométricos das minhas guerras"?
Mas ela não desiste, e, ainda que o Xavier seja o nosso único leitor ela promete ir até ao fim para que fique o testemunho dos atropelos...
Um abraço muito grato pela sua presença e apreço
Maria José

De Flor do Cardo a 01.05.2008 às 01:52

Sempre , mas sempre um bom texto a encabeçar
este blog cheio de vida e muita alegria.
Bonitas imagens tem aqui neste texto de hoje -
que aliás - devo confessar que fico sempre
sorridente para as bonitas fotos que a minha
amiga consegue por on-line.

Parabéns pelo texto e pelas fotos - resumindo
gosto sempre de tudo.

O Vergilio já está claramente melhor, graças a Deus.

Um abraço e bom feriado.

Luciano

De Maria José a 01.05.2008 às 21:16

Meus queridos Amigos
Aqui estou mais uma vez a fazer o retorno nesta viagem Elvas Brasil- Brasil Elvas.
Estou francamente feliz com as notícias sobre a saude de meu sobrinho Virgílio a quem desejo todo o bem do mundo.(quantos anos tem o Virgílio?- posso saber?)
Fico um tanto curiosa por saber algumas coisas sobre vós porque verifico, pelo que escrevem que frequentes vezes nos cruzamos nesta cidade de Elvas, que convivemos em algumas oportunidades que eu não sou capaz de recordar.
Confesso a minha mágoa por me sentir perdida dessas referências. Fica-me um sentimento de perda que me entristece por não vos recordar perfeitamente .
Não sei se o Luciano conhece Juromenha! Hoje, fomos até lá aproveitar o dia de sol para apanhar o ramo da espiga e resolver alguns afazeres de obrigação.
Apetecia-me poder dizer-vos:- aparecem para um almoço à sombra da parreira e uma boa cavaqueira. Diria ao Virgílio que trouxesse a namorada mas... como essa história de que o que separa , também une é só retórica...com este mar imenso de permeio...que nos reste a net e já não é mau de todo...
Abraço os três com muito carinho e muita gratidão pela companhia e apoio que me dão
Um beijo - maria José

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