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Palavras leva-as o vento

Domingo, 04.03.07

As árvores estremecem, dançam, as folhagens das copas tão desgrenhadas,

que nem refugio dão aos pássaros inquietos
As gelosias das minhas janelas abanam. O vento que passa usa-as para assobiar, silvando destemperado.
Não é música o que ele faz. São ameaças.
Segundo os dicionários, Vento é o ar em movimento!
Mas, será apenas isso?
Atrevo-me a dizer que não!
E, faço-o contra ventos e marés!- Aqui está! – estes “retóricos” ventos, e estas marés, não precisam d

e ar em movimento, nem de ondas, nem de mares no sentido real das palavras. São tempos,

 apenas tempos.
Mas, também o mar tem os seus ventos. Brisas do mar são aragens suaves e doces. Trazem sal a

 perfumá-las...
Trazem sal e sonhos. Trazem lembranças de aventuras e de caravelas..., trazem brancura de espumas e asas de gaivotas.
Respiram-se até à embriaguez, como devaneios de amor...
Todavia, também os mares se encapelam semeando pavores , com seus ventos medonhos de temporais e morte...seus estertores de agonia...
Os ventos têm nomes.
Nomes de mulher os furacões, os tornados...
Nomes ternurentos, ás vezes.
Oh! Que ventinho, que arzinho, bom e, o leque, como uma pálpebra que piscasse apressada, esparge um sopro brando ao som estremecido das varetas, como em cenas românticas de tapetes de Gobelins ou desenhos de Watteau ...
Os ventos tropicais, os ventos alísios...o nome é quase afrodisíaco nas sugestões como a ideia de trópicos...
E, “o mistral,” seco e frio do norte de França... e, o “siroco”, quente e seco do deserto do Sara que visita o sul da Itália e as regiões costeiras do Mediterrâneo...E, o nosso suão... empestado, mortífero Quase podia dizer-se: - vento papão
Veio o papão e o levou – diz-se à criança, assustando-a.
Veio o suão e a levou, diz o lavrador da sementeira devastada.
E, o vento domesticado, obediente, a produzir energia, colaborando com o homem. Até o nome é bonito! – energia eólica. éolo era o deus que mandava soprar os ventos. Que os ventos também têm seus míticos mistérios!...
Há os ventos favoráveis, os ventos contrários, os ventos do largo, o vento de rachar, o vento de feição, o ir de vento em popa, há o beber os ventos por alguém, o andar ao sabor dos ventos, há os ventos ruins, os ventos de desgraça, os cheios de vento, o andar com todos os ventos, o adivinhar os ventos, há o sopro de vento, o cabelo ao vento, e o atirar aos quatro ventos? E os filhos do vento?- E, o pé de vento!, o espojinho ? - Que é o rodopio das bruxas! - O redemoinho?...
E, vento em fúria, louco, destruindo, arrasando, na dança arrepiante do tufão que desenraíza arvores e casas e as eleva como quem louva a malvadez, e gera apocalípticas misérias!
Estar solto no vento – é estar livre. Que o vento é indómito, mas livre...É livre, porque é louco. Só a loucura é tão livre como o pensamento...
Também os ventos da história, não precisam do ar em movimento. E, deles, toda a gente fala... sendo embora tempos, apenas tempos de mudança...
E, quem diz que palavras leva-as o vento? – Acreditará nisso’?
Também o vento leva o pólen das flores promovendo a reprodução, ajudando na criação...
E, as palavras, para onde as leva o vento?- Que rasto deixarão?...
Que a palavra só vale se escutada; ainda que o vento depois a leve, já não há remédio, é como ele, que, depois de solto ninguém mais o recolhe...
O vento trouxe a chuva, que escorre pelas vidraças da minha janela, tamborilando, prendendo-me a atenção. Afastando do meu pensamento as memórias que o vento em mim acordara!
A chuva é repousante. Amainou o meu coração como o vento amaina sobre o mar, quando o sol se põe, e deixa de enfunar as velas e obriga os pescadores a remar, esforçados, de regresso até à praia...
Não mais velas pandas...com barcos deslizantes!
Não mais lembranças soltas ao vento. Há sempre um momento em que tudo se aquieta na alma da gente.
E sossega, como até os bons e os maus ventos...

                         Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº      -

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publicado por Maria José Rijo às 15:36


1 comentário

De cintia a 05.03.2007 às 13:50

Olá, muito bonito o poema, gostei.
Boa semana.
bjx

cintia

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