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O preço da diferença

Quinta-feira, 22.05.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.965 – 17 de Abril de 2008

Conversas Soltas

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Alentejo.jpg 

Partiu há dias, umas duas semanas, apenas.

Partiu, levando com ela, nas sentidas lágrimas que a choraram a admiração e estima de uns, a simpatia de outros, a indiferença e incompreensão de mais alguns que, embora reconhecendo-a diferente, a apontavam por isso. Sem nunca se preocuparam em entende-la.

                   

Aliás, ninguém agrada a todos.

Partiu deixando uma dor sincera em quem de perto privou com ela e entendendo-a, admirou a sua coragem, grandeza de alma e coração.

Em quem sabia com que determinação encarava as contrariedades da vida, com que alegria se levantava nas madrugadas para arregaçando as mangas, trabalhar sem cansaço dando, largas à sua criatividade, às suas capacidades de lutadora, que nunca virou o rosto a dificuldades.

                           

Era uma elvense de alma e coração.

Falava, como ninguém, das minúcias dos antigos festejos do São Mateus.

Quando tudo isso evocava com entusiasmo e saudade na voz desenhando com as mãos os gestos de enlevo pelos carros de canudo, pelos fatos dos romeiros, pelos costumes que o tempo criou e depois foi desfazendo, transfigurava-se, e as imagens surgiam aos nossos olhos como se fora um pintor a grava-las numa tela.

Quando assim acontecia, ela tinha o dom de nos fazer sentir a riqueza que é uma perfumada e farta fornada de pão com a côdea quente e estaladiça a provocar a gula...

Ela tinha o dom de nos fazer sentir o despertar da terra na frescura das alvoradas quando o dia nasce.

Ela tinha o dom de tornar majestosa qualquer refeição, por mais singela que fosse porque era impecável no asseio, na ordem e no culto da beleza de que revestia tudo em que as suas mãos tocassem.

                                              

Ela falava dos coentros como se louvasse o mais delicado e caro perfume francês.

Ela era inigualável. Ela era, ela foi diferente.

Ela amava a Vida e respeitava-a até nas suas mais modestas manifestações.

                  

Uma certa vez, confessou-me o sonho de escrever um conto. Pediu-me ajuda. Senti-a inquieta no receio de não termos oportunidade de o conseguir.

Assim aconteceu.

Lamento com toda a minha alma que assim tivesse sido.

“A filha do Lavrador”, se chamaria.

Era a odisseia de uma rapariga Que lutava contra todas as contrariedades, mas nunca desanimava, nem perdia o amor e a fé nas pessoas, coisas e animais. Que se derretia em ternura por crianças e infelizes e que evocava os arraiais, as sementeiras e colheitas e tudo o mais que fazia a história do seu Alentejo e, em particular da sua Elvas e, que nem no meio das maiores tormentas perdia o gosto pela Vida e a capacidade de sonhar...

Sei que à cabeceira da sua cama, quando partiu – tinha um caderno e uma caneta prontas para escrever esse conto de gente da terra, perfumado pelo odor das eiras em tempos de Verão e de terra molhada com as “águas novas” de Setembro.

Se eu tivesse capacidade para o fazer, escreveria por ela essa saga e, poria à heroína o nome de Lili. Como homenagem a alguém que até ao fim da vida foi leal e pura de coração como são os que acreditam na bondade e sabem ser devotadamente amigos do seu amigo.

 

            Maria José Rijo

 

Dois Mundos - 96.5 kb

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publicado por Maria José Rijo às 00:36


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