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Inquéritos e não só...

Sexta-feira, 23.05.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.635 – 7/Dezembro/2001

Conversas Soltas

 

 

Nas horas de sombra do anoitecer de cada dia, apetece por vezes, muitas vezes, o conforto de uma companhia que comungue do arrepio de beleza e medo que sempre causa o momento em que se pode escrever a palavra: fim! – Seja lá do que quer que for que na Vida termine.

         Então, para muitas outras pessoas, como, também, para mim, algumas passagens de livros, – uma oração que mentalmente se evoca, um fragmento de poema que à lembrança nos vem, – são-nos tão reconfortantes como a mão de alguém amigo que apertasse a nossa quebrando a solidão.

         

Não é qualquer coisa de acaso que se lê então.

Escolhe-se o livro conforme a circunstância. Nem todos os amigos são desejados em todos os momentos.

Eu, lia, neste entardecer- de Hugo de Azevedo- “Em defesa do homem”.  E, tinha fechado o livro, distraído.

Reabri-o ao acaso.

Fez-me sorrir o título: - “Inquéritos”

 

Cito:

“Os inquéritos servem sobretudo para sabermos o que dizem de si os cidadãos e o que acham que se deve dizer acerca dos problemas actuais. Servem menos para conhecermos o que realmente pensam. E não servem quase nada para compreendermos como são. Deus nos livre de extrair delas conclusões certas sobre o «país real». Precisamos para isso de muitos outros instrumentos de observação.”

             

Já antes me fizera deter a reflectir um outro trecho do mesmo artigo que diz: Com efeito, perante um interrogatório qualquer, por mais neutral que pareça, a maioria dos interrogados tende a desenhar o seu perfil ideal, e não tanto a fazer um sincero exame de consciência. E um perfil ideal, que geralmente tem mais a ver com o que hoje «se deve» pensar e dizer, do que com o que efectivamente se pensa. Ainda por cima, o que se pensa, frequentemente, não coincide com o que se vive...Enfim, todo o inquérito está sujeito a vários desvios da realidade, e as respectivas análises hão-de tomar sempre isso em conta.

Para já não falarmos da primeira inevitável «refracção» consistente na selecção, ordem e forma das perguntas, que pressupõem desde logo a escolha de determinada perspectiva na formulação dos temas investigados.

       

...Chegam-nos aos montes, nesta altura de eleições, listas, inquéritos, propagandas de toda a espécie.

Já nada interessam. Sabe-se de antemão o que papagueiam.

Mas, faz dó ver os rostos abertos em sorrisos que, só por si, já desdizem o que, tantas e tantas vezes, ouvimos em desabafo e confidencia de raiva e revolta, contar, sem que algo lhes fosse perguntado, espontaneamente na nossa própria casa...

Faz dó, reconhecer a falta de rigor de listas impressas a cores e impingidas porta a porta onde até o nome de uma menina de onze anos (que eu conheça!..) aparece como apoiante de um político encartado...

É assim tão imprescindível a trafulhice, a demagogia?...

Faz dó reconhecer como as borboletas entontecem com o brilho das chamas... onde quase sempre se queimam...

Apetece perguntar para cada qual responder ao inquérito secreto da sua própria consciência:

Quantos ídolos já reverenciou?

Todos os que dispõem de poder, não é verdade?

Mas, só enquanto poderosos, claro! Não precisa confirmar. É por demais evidente.

Para quê, então, estes inquéritos caseiros, se só se interroga quem se sabe, antecipadamente, o que vai responder, e, a resposta se inscreve na política das conveniências e não na das convicções...

 

 Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:16


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