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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Quem cala - consente...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.627 – 12 - Outubro 2001

Conversas Soltas

 

 

Era numa loja.

A conversa girava em torno do palmeiral.

 - Isto está lindo! - Nem parece Elvas!

Era, o unanime veredicto do pequeno grupo.

Afinal, pensei: - os apoiantes do “desastre”, ao querer fazer o melhor elogio - verbalizam e fundamentam a crítica mais crua e mais objectiva que se pode expressar sobre a desastrada arborização que contribui para confundir a  zona envolvente de  Elvas com visões de praias africanas...

Querer que Elvas deixe de parecer Elvas é pura aberração.

Se Elvas, for deixando de parecer Elvas, porque a procuram assemelhar a outras terras não lhe fazem benefício! - Só a prejudicam!

Sobrepor à sobriedade, – ao respeito que é devido ao que sendo nobre de raiz, não precisa de se mascarar para fruir o merecido apreço, – vulgaridades espalhafatosas, - é erro de palmatória.

Assim pensando, decidi: - Não serei cúmplice.

Recuso-me a permanecer num silêncio que me compromete com este descalabro.

   

Faço questão de deixar escrito e assinado o meu protesto contra o estilo “ francês de Pega” que está desvirtuando a fisionomia da cidade.

Em determinada altura da vida do povo que somos, quando os nossos primeiros emigrantes – lá do distrito da Guarda - começaram a regressar às suas terras de origem , fazia parte do seu legítimo sonho  construir casa própria. Então, cada qual seduzido por ingénuo exibicionismo fazia representar tudo quanto o tinha deslumbrado, nos países onde trabalhara, nas suas “Maisons” em sinal de abastança e distanciamento da pobreza da sua origem.

Foi assim que, ao lado de nobres e vetustas construções de granito, surgiram, desenquadradas da paisagem, as mais incríveis criações que “esse tal estilo” foi capaz de gerar...

A pouco e pouco, porém, as pessoas foram entendendo o desvario, e, muita coisa se compôs. Outras sofreram danos irremediáveis. E permanecem para a “estória”, anedóticas, como o célebre bife com bolachas...

 

Assim vai sendo por cá - agora!

Espero que com o rodar dos tempos alguém reponha a sóbria elegância do centro histórico da cidade e retire de lá aqueles bebedouros disfarçados com jactos de água, até porque já não existindo em Elvas Lanceiros I, nem para turista ver os cavalos irem “à data de água” tal mamarracho serve!

Serve apenas “para meter água” numa realidade histórica, à evidência, de forma bem infeliz.

Como se tal já não fosse mais do que suficiente, surgem agora a propósito e a despropósito - como importunos redemoinhos que afastassem para bem longe toda e qualquer ligação que a cidade tinha com o meio ambiente - rotundas e rotundinhas...

Numa delas erigiu-se um monumento ao bombeiro

Não será o local ideal, mas, óptimo. Foi um acto de justiça.

P1000226

Porquê, então, plantá-lo como se fosse um poejo com os pés dentro de água?

Porque rodear a figura do bombeiro duma serie de repuxinhos, como se um cento de Manneken Pis lá estivessem submersos?

Porquê não aproveitar essa força de água para um jacto vigoroso da mangueira que a estátua sustenta e dar majestade e vida à figura que representa colocando-a em equilibrio sobre rochas que configurassem a valentia e arrojo de que são capazes pelo bem de todos?

É que se uma coisa merece ser feita, merece ainda mais ser bem feita!

Alem do mais, basta de meter água!

É tempo de parar com as cascatas e as fontes, até porque a água não é um bem inesgotável.

Ao contrário! É um bem escasso que deve ser gerido com bom senso e parcimónia.

Melhor fora cuidar a sério do líquido que chega aos domicílios...

           É tempo de escolher com critério os designados “melhoramentos” e não copiar para Elvas tudo o que o olhar cobiça - mas - sim - ser extremamente rigoroso na eleição do que tem realmente que ver com a nobreza e história duma que  cidade pede apenas que a deixem ser igual a si própria para ser, como é, única.

Já na écloca de Jano e Franco - lá pelo  Sec. XVI

 se escrevia assim:

“ Que Alentejo era enxuito d´água e mui seco de prado.”

 

Para quê, agora, tratar Elvas como se fora as termas do Luso ou do Buçaco?

Pior do que nada fazer...é descurar o critério do que se faz.

 

 

  Maria José Rijo

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