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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

“ As Minhas Lucubrações “

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.340 – de 1 Março de 1996

 Conversas Soltas

 

 

Sempre ouvi dizer: “ respeita se queres ser respeitado”! – O que, em meu entender é, mais ou menos, a forma laica de enunciar o mandamento da lei de Deus que, desde o berço, nos ensinam:” Ama o próximo como a ti mesmo”.

Qualquer das formas é absolutamente inteligível encerra uma lição de saber viver.

Vem isto ao acaso porquê? – Porque, como se deduz, as leis, todas elas, são dependentes de preceitos morais e éticos.

São, na sua essência, a tradução lógica de princípios que, transformados em normas, servem como regras padrão para a defesa e protecção do indivíduo e regulamentam os comportamentos da sociedade no seu conjunto.

No entanto...

Bem, no entanto, parece que são passíveis de leituras diferenciadas, conforme as partes a quem cabe fazer a interpretação.

                               

Assim conjecturava eu, nestas coisas, alimentado este meu vício de querer entender; sentada num duro banco, numa inóspita sala de espera do Palácio da Justiça de Elvas – em circunstância que me fora imposta.

É que, estando, como de costume, em minha casa, calmamente a beberricar um cafézito, em certo dia, bateram-me à porta de forma insistente.

Suspenso abruptamente o meu discreto deleite, petrificou-me de espanto a voz alarmada que tremente me alertou:

“Senhora! – a polícia”.

Multa

Vi-me, em consequência na obrigação de assinar um papel, que me foi presente, pela mão de um simpático agente da autoridade (a quem eu até ofereci café e ele não aceitou).

Assim que, eu, que como única forma de me ver confrontada com a Polícia, só via uma possibilidade: o carro! – Respirei fundo.

Vá, lá! – Não era multa por mau estacionamento.

O que seria?

Ora, pois! – o que haveria de ser ?!!!

Vamos Historiar que – vale a pena.

Houve em tempos idos, durante oito anos, nesta mui nobre cidade de Elvas um notável paladino dos bons costumes e justiça.

Hoje, ao que se conta e sabe, distraído com outras lides, passes e faenas.

Zeloso enamorado que foi – no decorrer desses oito anos – de pontos, vírgulas, exclamações e outras minudências quejandas que andassem “a monte” dos seus devidos lugares das direitas linhas – vivia obcecado, mas feliz na pesquisa sistemática de coisas – na sua óptica – vitais para a higiene da “res pública”.

Assim que, nas páginas das crónicas desses referidos tempos, catou, com brio inimitável, erro de caligrafia, espessura e cor de tinta, mazela, mancha, pintinha, (nem que fora de mosca porcalhona) para exame laboratorial profundo.

Presumindo dessa maneira, identificar até as bactérias que tão mal iam ao gosto de tão alva consciência – a sua.

Este árduo esforço foi exercido com a insistência obstinada das crianças traquinas – de quem a gente gosta apesar de malcriadas – e que moem a cabeça dos adultos a cantar aquela chata lengalenga:

“Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais...” E, nunca mais se calam nem que se lhes peça de joelhos.

Mas... basta de derivações.

Retomemos o discurso...

... De acordo com o tal documento, que assinei, eu teria que estar; e lá estava; em determinado dia, a determinada hora, para prestar contas da minha nefanda cumplicidade nos aludidos crimes contra o bem comum.

O dia amanhecera de má catadura.

          1

Frio, cinzento, ventoso.

Ameaçava nevar.

O meu velho físico, dava albergue a uma perfeita constipação que triunfante me atormentava.

Tossia, espirrava, mas... resistia.

Da hora marcada, para as presenças convocadas, já passara mais outra... e mais um ou dois quartitos...

                             

Então, com um sorriso bonacheirão – valha-nos isso! – Um senhor funcionário, por certo, mais do que afeito a estas situações, veio amavelmente, anunciar que a data fora alterada.

Será um “tal” dia – disse.

Envolvi-me melhor no meu abrigo e desci a escadaria de mármore pensando nas variações possíveis dos nossos direitos...

Então se eu habito onde me mandam a polícia ou carta registada – para cá vir – porque não me mandaram prevenir pelos mesmos meios para não comparecer?

Será que o meu tempo não merece ser considerado?

Nem eu? – Nem ninguém mais?

É que, no papel da chamada, estão devidamente enumeradas as sanções a que me sujeito se ousar faltar...

Eu compareci.

Quem me convocou – não!

Receberão as mesmas punições?

Será curial desorganizar a vida das pessoas condicionando-as a prazos que se não cumprem – quase – sistematicamente?

Ou é que a impunidade faculta a prática da arbitrariedade?

Não sei, porque, assim é!

Sei, que é assim, e sinto que não está certo.

 

 

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