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Maria José Rijo

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Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.304 – 16 de Junho de 1995

             

 Que seres serão realmente as mulheres, – não sei!

Até porque ninguém é bom juiz em causa própria. Mas, que de anjos a demónios tudo se lhes tem chamado – é indesmentível.

Que, sobre elas, poetas e pensadores têm escrito frases belas ou contundentes que, de cor, se vão repetindo de gerações em gerações é também indesmentível.

“Se nós somos os pais dos seus filhos, elas são as mães dos nossos melhores pensamentos” – teria dito Chateaubriand - esse mestre da língua francesa que muito influenciou o romantismo europeu.

           

Mas, já a Napoleão – tenho ouvido atribuir: “Mulheres?! – seres de ancas largas, cabelos compridos e ideias curtas”.

Atendendo a que ele foi capaz de repudiar a “sua” Josefina e vivia no narcisismo dos seus gloriosos feitos militares – pode aceitar-se a mordaz definição como pertencendo-lhe…

                 

Voltaire – escritor que cultivou desde a tragédia à epopeia e ao romance ergueu a sua voz (no séc. XVIII) para afirmar:

“A sociedade depende das mulheres. Os povos que têm a desgraça de as escravizar, são miseráveis”.

E, no seu respeito pela sensibilidade feminina, aduzia: “Todos os raciocínios do homem não valem um só sentimento de mulher”.

Que filosofia de vida, que mães, que irmãs, que amigas, que amadas, teriam tido estes homens que de formas tão diversas evocam “mulheres” – como sendo: - “a mulher” que padronizam nos seus conceitos – era interessante investigar.

Tanto mais que tudo parece filiar-se numa conclusão assente de que, mulher e homem pouco ou nada teriam em comum.

“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indescrições do que as pequenas infidelidades”.

Bem entendido em psicologia se julgava que também afirmou:

               

Victor Hugo – poeta, escritor, dramaturgo, figura do romantismo – “vulto sagrado” da literatura francesa – enfatizou:

“Vós que sofreis porque amais. Amai mais ainda. Morrer de amor é viver dele”

E, Lessing, escritor alemão do séc. XVIII, rendido à beleza feminina não afirmou que “a mulher é a obra mais perfeita do universo”

                     

O autor da “Comédie Humaine” – Honoré de Balzac – Romancista que viveu apenas para a criação literária escreveu:

“A mulher é o ser mais perfeito entre as criaturas humanas, é uma criação transitória entre o homem e o anjo”.

Em contrapartida alguém houve que denunciou:

 “As mulheres que têm por único merecimento a beleza, são semelhantes aos pastéis quentes que sabem mal quando esfriam”.

                       

Porém, Rosseauescritor e pensador francês que pela sua sensibilidade e imaginação abriu o caminho ao romantismo e cujas teorias sociais tiveram grande influência sobre o liberalismo democrático, assim perorava:…”A primeira e a mais importante qualidade de uma mulher é a doçura. Feita para obedecer a um ser tão imperfeito como é o homem, quase sempre cheio de vícios e sempre de defeitos a primeira coisa que tem a fazer é aprender a sofrer tudo, até a injustiça, e a suportar todos os erros do marido sem se queixar”.

Convenhamos que, se outro mérito não tivessem estas palavras – deles se deduz sem margem para dúvidas a posição da mulher na sociedade, ainda nos fins do séc. XVIII.

                      

No séc. XIX – o nosso “grande” Herculano – escritor, pensador, criador do romance histórico português na sua exemplar linguagem vernácula, escreveu: “Examina bem a consciência e diz-me : qual é para os corações puros e nobres o motivo imenso irresistível, das ambições, do poder, da abastança do renome?

É uma só mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos”.

Pensando assim dava razão a Pailleron quando afirmara:

“É pela mulher que a sociedade julga o homem” – Enfim! – Parece que destas velhas curiosidades se pode inferir que, falando de mulheres é de si próprios que os homens falam.

Talvez que, por isso, nenhuma destas citações ou a soma de todas elas nos leve a qualquer conclusão sobre a mulher.

             

Aliás, nos tempos de agora, estes conceitos terão até, porventura, perdido o sentido e a oportunidade. Mulheres e homens, hoje, vestem as mesmas roupas, frequentam os mesmos locais, tomam as mesmas bebidas, fumam os mesmos cigarros fruem dos mesmos empregos e liberdades e, pelo menos na aparência perderam o tal toque de mistério que as épocas românticas tanto exploraram para conversas de salão, ditos de espírito ou inteligentes observações e, parecem aceitar-se como iguais.

Porém… quando penso na roupa interior de tecido às florinhas rosas e azuis, da idosa senhora, gorda e deformada que entre gemidos chegara “às urgências” amparada por muletas e sob o fato vulgar e ordinário usava um corpetinho de rendas e bordados a vestir-lhe os seios murchos como flores mortas…

Quando senti no meu coração a comovida ternura dessa pueril garridice… então, não fora o “Senão” escusado e cruel eu teria estado por inteiro com o que, no tempo de Zolla, disse  o escritor Paul Marguerite – “ Até mesmo na mulher mais honesta reina um instinto de coqueteria refinada e perversa”

Só que eu penso que perverso é querer equiparar um nó de gravata com rendas e florinhas… e, é esse o “senão” ?

 

Maria José Rijo

 

 

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