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“Chamemos-lhe – Harmonia “

Terça-feira, 03.07.07

           

                                                        

Aqui por esta nossa terra alentejana, somos uma gente muito especial.

            Houve até quem dissesse que nós e a nossa paisagem fazemos tão harmonioso casamento quer nos  cantares, quer no artesanato, quer na gostosa gastronomia à base  de pão que, somos como que “uma pátria dentro de outra pátria”.

            A frase é bonita – é !

            Mas também é verdadeiro o conceito que encerra.

            Lá pelo norte, numa paisagem de verdes perenes as mulheres vestiam-se de  cores vivas.

            Vermelhos, verdes, esbanjando lantejoulas e enfeites de ouros num hino à  alegria, às romarias do colorido das suas vinhas e vergeis.

            Por cá, usavam-se cores discretas de tons apagados como que receosos de  macular a imensidão da paisagem.

Sabendo-se discretas pareciam ter consciência de que não turvavam nem ao de  leve a atenção que cabe à grandeza dos nossos vastos horizontes.

            Por acaso – ou coincidência – os pescadores frente á imensidão do mar também não usavam cores vibrantes.

            Eram de cores mortas os axadrezados das suas calças e camisas; negras as cintas e igualmente os gorros.

            Tudo escuro e sóbrio. Modesto e humilde como quem depende para viver de um grande e indomável rei que ama e teme.

            Cada província adapta os seus costumes ao clima e à paisagem.

            No casario é o mesmo.

            Por cá usa-se o branco reflectindo melhor a luz afasta o bafo quente que vem das  terras bêbadas de sol que obrigam restolhos e matos a transpirar  odores de que só o  Alentejo tem o segredo.

            Por apuro e garridice enfeitam-se as casas com barrões de cores.

            Azul quase sempre. Azul ferrete de preferência.

            Tem que ver com o céu, a distância e diz a gente antiga que com “Nossa Senhora  da  Conceição”.

            Muitas vezes, também, se usa o ocre.

            Apanha-se com ele a cor das searas maduras e dos pastos olorosos.

            Aqui na nossa terra o ocre bebe também seus tons, nas pedras, nos fortes, nas  muralhas.

            Também é frequente o cinza.

            Talvez se inspire nos velhos troncos dos zambujeiros, na escura sobriedade dos montados de azinho, talvez, apenas nos dias tristes dos invernos rigorosos.

       

Seja lá pelo que for – tem que ver connosco.

            Não me pergunte se gosto ou não de outras cores.

            Isso nada respeita a quanto disse.

            Apenas falei da harmonia que é sempre desejável entre as gentes, as terras, e as  coisas que lhes são mais próprias, mais a carácter.

            E falei porque olhando há algum tempo as novas cores do jardim pensei:

            - Quando as olaias estiverem em flor , no auge da floração – estralando para ali em girandolas de cor – que mal, vai estar aquele amarelo limão (aliás, lindo) com que foi pintado um muro que  lamentavelmente tem que existir ... Será um empecilho para  os olhos e quebrará ainda mais a harmonia desejável do ambiente.

            Para que chamar a atenção para o que devia pedir perdão de existir ! – pensava eu.

            Tinha este apontamento já escrito quando voltei a passar ao jardim e vi  com agrado que haviam sido adoçados os tons  do seu amarelo.

            Tanta gente me pedira para falar no assunto que embora restabelecido o equilíbrio – não fora de propósito dizer o porquê de certas “embirrações” – que, como se conta , o não são.

            Só falta que as grades apareçam revestidas de glicínias e roseiras noisettes para  ganharem o tom romântico das quintas fora de portas.

            Era bonito.

            Era uma maneira de “pintar” com flores um certo clima de Elvas que António Sardinha  com tanta beleza e sensibilidade captou em “Vesperal” – soneto que dedicou  a sua Mulher.

                                   Se eu te pintasse, posta na tardinha

                    Pintava-te num fundo cor de olaia.

                    - Na mão suspensa, nessa mão que é minha,

                    O lenço fino acompanhando a saia ! “

            

É que Elvas é uma cidade feminina.

            Não é como Évora – a das “ruas frades” –

       como disse Florbela.

            Aqui – são “ruas freira”      ...

            E, é essa subtileza.

            Esse equilíbrio que se gera  entre os testemunhos da história e o presente.

            Entre a realidade e o sonho que fazem a mística de Elvas que, ao ser respeitada a pode levar – como merece – a ser considerada Património da Humanidade.

     

                                                       Maria José Rijo

                                                   Escritora e Poetisa

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Jornal linhas de Elvas

Nº 2.365 – 30 – 8 – 96

Conversas Soltas

           

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publicado por Maria José Rijo às 13:25





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