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CARTAS

Quinta-feira, 16.08.07

            As cartas caíram em desuso.

            Ninguém escreve mais a ninguém.

            Tudo hoje se resolve pelo telefone e por fax.

            Na caixa do correio aparece muita papelada, é certo!

            Mas, cartas, cartas de verdade são poucas e raras.

            Atafulham-na as propagandas e as circulares.

            Claro que as circulares vêm em envelopes e até parecem cartas.

            Mas, não! Não são.

            Também envelopados vêm recibos, saldos de contas (minúcias de Bancos!) e, se bem que iguais na aparência também não são propriamente cartas.

            As velhas missivas que se trocavam entre familiares e amigos para contar graças e desgraças de existências que o bem-querer ligava – eram de outra textura.

            Eram feitas de paleio. Paleio que a escrita fixava no papel e se relia retomando-lhe o prazer cada vez que nos apetecesse.

            Para comunicar por carta qualquer pretexto servia, como agora se faz com o telefone.

            Escreviam-se cartas de parabéns, de luto, de namoro, de negócio...

            Contavam-se viagens, passeios, festas... Descreviam-se toilletes. Por carta se namorava.

            Cartas de namoro e cartas de pessoas ilustres ou muito queridas – coleccionavam-se.

            Atavam-se com fitinhas de cor e arrumavam-se em gavetas e baús.

            Depois até isso servia de assunto.

            Os pais às escondidos, contavam às tias: “Eles escrevem-se todos os dias, não sei como têm tanta coisa para dizer...”

            Isto, claro está, não era crítica – era vaidade disfarçada pelas “conquistas” das filhas prendadas.

            É pena!

            É pena que quando agora se abra a caixa do correio nela só se encontrem vestidas de sobrescrito, marcadas com a direcção certa, papelada e mais papelada sem uma palavra que tenha que ver com a nossa particular sensibilidade, com o nosso próprio coração.

            São quase sempre “obra” resultante de estudos de mercado, técnica de vendas, saber de psicologia aplicada.

            Nada que as aparente com as tais outras.

            As que pingavam amor, amizade, notícias privadas, subtilezas, curiosidades.

            “Já compramos o tecido para o vestido -- é guipure”.

            “A tia perdeu este ano nas águas – no hotel do Buçaco – a escalfeta de cobre que usava quando tinha cólicas de fígado. Está inconsolável, coitada! – Não se ajeita aos panos quentes!”

            Corrige a receita dos pastéis que te dei. Não disse, por lapso, que se fazem com açúcar amarelo”.

            “Já sabes o nome da velhota que conserta tapetes de Arraiolos? Manda-mo antes que o Sr. Padre meta o pé no rasgão, caía na Capela e se magoe”.

            Enfim as cartas de verdade, eram cheias destas pequenas delícias que retratavam costumes e falavam de afectos e vivências.

            “Escrevo-te para te contar que os nardos do nosso quintal estão todos em flor. Vou colhê-los e levá-los à igreja. É beleza demais só para mim”.

            Isto não se diz ao telefone.

            Não tem cabimento. Isto é conversa de cartas.

            Afinal, a que vem tudo isto?

            Eu conto:

            Vou estar fora, se Deus quiser, uns tempos.

            Muito ou pouco?! – Não sei.

            Podiam ser três meses! – Não acredito.

            Onde ia eu buscar valentia para estar longe tanto tempo?! – Veremos o que se passa.

            O que eu não era capaz era de fechar a minha janela e desaparecer sem vos deixar uma saudade.

            Disso estou a tratar – por carta – à antiga.

            Porém, de forma mais aconchegante que o telefone e, mais abrangente também, porque assim, espero, chegará até ao meu Amigo da Guarda que me comoveu confessando ter guardado escritos meus e a todos os outros que por mim perguntam quando não “apareço”.

            Então, para todos, deixo uma enternecedora carta de António Sardinha – que tal como eu, não sendo de Elvas, aconchegou Elvas no seu coração.

            Por ela se pode ver de uma maneira muito particular a dimensão de amor do Pai desvanecido que foi e do marido exemplar que igualmente era.

            Melhor de quanto eu pudesse querer contar esta carta, mostra como poderiam ser as cartas.

            É o meu presente de despedida para os vossos corações.

 

            “ Meu Ex.mo Amigo e Sogro:

            Recebi hoje, (...) os seus dois postais que muito agradeço e estimei.

            A Aninhas continua bem. Já ontem teve alta do médico para se sentar na cama

            e dentro de quatro dias vê-la-emos já a pé, ainda que circunscrita ao quarto. Já come

            uns bifes de peito de galinha e acha-se magnificamente disposta com muito leite e

            muita resistência física.

            O morgado esse então chora, dorme e mama, não teve ainda alteração de saúde e

             atira-se como um leão aos peitos da Mãe. Tem fúrias de impaciência quando lhe

             não dão logo o seio e chega a arranhar-se com as unhitas.

            Se assim fôr andando, sem contratempo, dentro de breve estará famoso de

             Dimensões e peso.

            Ontem e hoje muito calor. Não admira. É o solstício a manifestar-se. Todavia,

            Apesar das ameaças, cá vamos escapando sem trovoadas, que seriam de péssimas

            Consequências.

            O Padrinho José sempre fez no dia dos anos o que me disse. Almoçou com a

            Esposa e foi jantar a Portalegre, uma massada épica, sem dúvida!

            A Aninhas e o seu netinho enviam-lhe beijos e abraços. Abraça-o também o seu

            Genro muito agradecido e dedicado.

                                                           António “

 

 

                                                                             Maria José Rijo

@@@@

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.350 – 10- Maio – 1996

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:56





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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