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Rir até chorar

Terça-feira, 04.09.07

            Sempre quis, aliás, mais de metade da nossa alma é feita desse querer, desse sonho de realizar coisas que jamais se fazem! - Mas, sempre quis, sempre desejei, contar esta história que desde a minha juventude carrego comigo.

            É uma história verdadeira e, talvez por essa razão, mais difícil de contar.

            Ela enternece e perturba porque sendo inesperada fez rir. Fez rir tanto a toda a gente que terminou - sabe Deus se a todos os presentes- dando também vontade de chorar. E é desse rubor que me subiu ao rosto e dessas lágrimas que eu sempre quis falar e não sabia como.

            Acontece que ao ler uma citação de um poema de Alexandre O’ Neill intitulado: “RIR” senti que poderia contar a história sem pudor porque não magoaria ninguém

            É assim o poema:

                                        E se fossemos rir,

                                        Rir de tudo, tanto,

                                        Que à força de rir

                                         Nos tornássemos pranto,

 

                                        Pranto colector

                                        Do que em nós sobeja?

                                        No riso, e na dor,

                                        Que o homem se veja. 

            

             É assim a história:

            Tinha terminado aquele ano lectivo. Uns ficaram para traz, como sempre acontece. Outros passaram sem brilho, como também é de uso acontecer. Outros passaram com distinção e ganharam prémios.

Era da praxe apresentarem-se fardados da “ Mocidade Portuguesa “na festa de gala em que receberiam diplomas e prémios pecuniários.

            Naquela altura “ainda” eu pertencia ao grupo dos laureados o que me obrigava a estar presente, e estive.

            Na data fixada o melhor de todos os alunos do Liceu não pode comparecer por ter adoecido.

            Era um Rapazinho muito pobre a quem o Pai faltara ainda de berço mas que na escola se salientara de tal forma pela sua inteligência que a Professora fez questão de o ensinar, vestir e calçar e preparar para a admissão ao Liceu.

            Chegado lá foi logo número um e sem hipótese de dar o lugar a quem quer que fosse; aliás, assim havia de sempre acontecer até ao fim do curso que fez por inteiro com” bolsa de estudo.”

            Como em cima da hora, adoeceu, nada podendo ser alterado, foi sua Mãe

 representá-lo.

            Depois das discursatas habituais começaram os alunos a ser chamados a um e um pelos seus nomes completos.

           Aproximavam-se da mesa de honra faziam a saudação de braço no ar, perfilados e ali em destaque era ventilado alto e bom som o seu mérito seguido das felicitações e louvores, após o que se retirava renovando a saudação.

            Chegada a vez do menino ausente foi sua Mãe, uma pobre e humilde mulher que comovida e nervosamente percorreu em nome do Filho aquele pequeno percurso de momentânea glória. As cardas dos seus sapatos ouviam-se no soalho lustroso quase como as batidas do seu coração. Chegada ao estrado onde estava a tribuna fez a saudação que vira fazer: aconchegando o xaile para que não lhe escorregasse, ergueu o braço, uniu os calcanhares e perfilada aguardou.

            A sala vibrou com a estrondosa gargalhada que a garotada presente não foi capaz de suster, e aquela Mãe, que chegara à festa orgulhosa e feliz, regressou ao seu lugar com fogo de vergonha no rosto e lágrimas nos olhos carregados de tristeza

Foi então que uma de nós se levantou e começou a bater palmas. Foi um delírio.

 

“ Pranto colector

Do que em nós sobeja?

No, riso e na dor,

Que o homem se veja.”     

 

 

 

                                                 Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.449 – 17-Abril - 1998

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:27





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