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Rezas e Benzeduras XI

Quarta-feira, 31.10.07

Oração a Santa Iria

            A lavadeira lá de casa era a Rosa

              A Rosa lavadeira era tão conhecida como outras Rosas ou Marias.

              Havia também as Rosas cerzideiras- as forneiras, as aparadeiras..

              Era assim - juntava-se a profissão ao nome próprio e funcionava como apelido.

             Certo e sabido que duas vezes por semana contávamos com a visita da” nossa “Rosa.

             Sábado, vinha trazer a roupa lavada e na segunda-feira, levava o saco da roupa suja.

             Às vezes se lhe dava mais jeito a ela ou à dona da casa fazia as duas operações numa visita só.

             De qualquer modo a sua aparição causava sempre um certo reboliço na cozinha. Ou era a roupa que ainda não estava contada e lá começava a cerimónia de juntar os montinhos de peças idênticas para ser mais fácil apontar o role quase cantado como que imitando a Beatriz Costa: três corpetes, um avental,...etc. etc. etc._ ou, era o café que ainda não estava assente... e visitas de cozinha tinham direito inalienável a essa pitança...com pão condutado de queijo, azeitonas ou carnes do cozido

             Ou, era a escolha da jarra para as flores, para nós, colhidas na brandura da madrugada - que ainda guardavam dela o orvalhado  encanto - quando passavam das suas, para as nossas mãos...

             Ou, era a alvoraçada alegria com que anunciava a chegada ao mundo da beleza dos bezerros que a sua “estrela” sempre paria...

             Ou, qualquer coisa acontecida no mundo verde da sua pequena horta que, com o seu sorriso amigo, e o calor da sua simpatia teluricamente partilhava com a nossa amizade.e interesse.

             Naquele dia uma das garotas da casa não se sentia bem.

             Preocupada, porque as correrias e as andanças à soalheira tinham sido no passeio dado à sua própria horta no dia anterior, quis saber por todos os motivos e mais esse, do que se queixava a doente.

            O interesse era justificado até porque, desde sempre, criadas antigas e lavadeiras sabiam tanto ou mais das casa do que os próprios patrões.

             A menina queixa-se das guelas? Quis saber solícita.

             Nã senhora! Nem tem febres! - É só dores de cabeça - mais nada.

             Nã terá por lá comido fruta verde? (lá, era a sua horta) Insistiu! -

             Isto de rapaziada nunca fiando...

             Nã! Da barriga está bem. È” memo” só da cabeça...respondia complacente a velha empregada “Chame-a là, diga-le qu’estou aqui...ou, atão, dexe qu’ê vou vê-la.

             Assim aconteceu.

             Antecipando a acção com um: “ com sua alecença” – avançou casa a dentro até ao quarto.

             Então, abrindo a janela com o maior à vontade foi exclamando: atão qué isto hoje?! Nem se dá um passou bem à Rosa? Nem nada!

             A garota sorriu agradada.

                      A mulher sentou-se na beira da cama, foi falando, fez perguntas, escutou respostas e, a certo passo, esclareceu: já sei! - Ou foi quebranto, ou golpe de sol! Das duas: uma!

                      Nã se rale qu’ê já a livro disso!

                     “Feito o diagnóstico” a cura estava assegurada. Assim, voltou lesta à cozinha que nestes casos sempre funcionava como perfeito laboratório e, quase em seguida, regressou com as“alfaias” desejadas onde também entrava um copo de água e um lenço branco.

                      Desenfiou um terço que estava pendurado no florão da cama da menina fechou-o na própria mão e, pediu-lhe sem hesitações, como quem tem a certeza de ser obedecida:” Alevante-se “da cama e assente-se nesta cadeira aqui na” nha” frente.

                   Vai a ver que fica boa num “stantinho!”

                   Então, assumindo uma atitude de inspirada por estranhos e benignos poderes, em voz alta e segura, começou as suas rezas.

                    Primeiro o quebranto, disse:

                                    Deus é breve

                                    Breve é Deus

                                    Se tens lua ou quebranto

                                    Benza-te Deus

                                    E o Espírito Santo!

     Ofereço esta reza ao Santo da sua devoção – (qual é? inquiriu) para que Deus lhe tire a lua ou o quebranto

     Santa Terezinha respondeu a menina que se chamava Teresa                                  

                     Rezando de seguida um Pai-nosso e uma Avé Maria seguiu-se a cerimónia das gotinhas do azeite no pires com água

                     O azeite não se desfez. Quebranto, não era – estava feito o teste

                     Restava então a oração a Santa Iria destinada a anular os efeitos maléficos do “golpe de sol”

                     Colocando o lenço dobrado em quatro sobre a cabeça da garota e pondo sobre ele o copo contendo água fria iniciou a recitação de um pequeno e belo poeminha que dizia assim:             

                           Indo Santa Iria pelo mar fora

                           Cheia de sol e calmaria

                           Encontrou a Virgem Maria

                           Perguntou à Senhora como se curaria

                           Com um pano de medina

                           E um copo de água fria

                            Pai-nosso e Avé Maria

              Isto era rezado com o terço fechado na mão traçando cruzes sobre a cabeça da paciente.

             A água começou a borbulhar no copo como se estivesse ao lume a ferver.

             Prova provada de que era o sol que havia feito mal à menina.

             Assim exorcizado, o mal, obedientemente, desapareceu lá para os reinos das trevas onde não cabem as crenças de que, em nome de Deus, até os mais humildes fazem milagres quando são mansos de coração...

 

                                      Maria José Rijo     

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.441 – 20-Fev. -1998

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Este livro foi publicado em Novembro de 2000

Pode ser adquirido no Jornal Linhas de Elvas

             

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:11

Rezas e Benzeduras x

Segunda-feira, 29.10.07

       Numa destas tardes em que um cinzento de chumbo tudo envolvia e do céu como um pranto copioso caía chuva e mais chuva sem cessar; sentei-me desolada com a escuridão do dia e cedi à lamúria:

        Que tempo desgraçado!

        Que dia sem luz!

          Que tristeza! - E mais isto e mais aquilo aduzindo cada vez mais motivos para não fazer coisa nenhuma. Nem a musica que escolhi a meu gosto me conseguia libertar da rabugice e desalento. A certa altura comecei a bocejar como fazem os gatos quando acordam para espantar a preguiça. Foi então que me ocorreu a recordação lá daquela pobre aldeia onde andei à escola, lá onde bocejar, não era, nem jamais poderia

 ser  uma atitude deselegante, mas apenas um terrível sintoma de quebranto. Razão mais que suficiente para procurar a cura na mais cotada das bruxas lá do sítio – a ti Pinhoa!

       Ir à ti Pinhoa, significava ir à consulta de um catedrático na especialidade sempre intrigante das rezas e benzeduras.

       Batia-se à porta.

       Embiocada num lenço escuro com ramagens prateadas a cabeça da velha espreitava pelo postigo que entreabria com precaução.

       Vêm cá a modo quê? -interrogava com desconfiança.

        Desculpe lá a moenga – dizia a consolente – mas a gente acha que estamos

 Encubrantadas e queríamos que você nos desencubrantasse.

         Espreitando primeiro com os olhinhos muito vivos para ambos os lados da rua, como se receasse ser perseguida ou espiada, abria depois a porta e puxava as pessoas para dentro de casa com a rapidez da aranha que envolve a mosca na teia.

        Numa casa sem janela, iluminada apenas pela escassa claridade que umas telhas de vidro espalhavam, sobre a meia-cómoda composta com duas jarras enfeitadas com

 palmitos de flores de papel e umas pobres cadeiras de fundo de bunho ; começava a função. O chão de terra batida tornava o ambiente ainda mais soturno, a tal ponto, que

 a luz que entrava pelas frinchas da madeira da porta dava a ilusão de lâmpadas acesas

        Gerava-se um silêncio de cortar à faca.

        Assentem-se! Dizia a velha.

        Toda a gente obedecia.

        Vou buscar os pertences – esclarecia a sibila – ausentando-se com ligeireza.

         Retornava com uma garrafa de azeite, uma tijelinha com sal, um pucarinho de barro cheio de água e um pires.

         Colocava tudo sobre a mesa do meio da casa onde um Zé povinho, fazendo um manguito, marcava o centro, rodeado de abóbrinhas e outras bugigangas tão pelintras que pareciam funcionar mais como bilhetes de identidade de pobreza do que, como enfeites, missão, que sem dúvida, lhes fora confiada.

         Com água se enchia o pires, com o sal se lhe fazia uma cruz, depois tirando do bolso do avental um terço começava a velha a andar à roda do paciente fazendo cruzes sobre todas as partes do corpo enquanto recitava:

                                          (( Desenho de Manuel Jesus))

         

          Fulano ou Fulana

          Deus te dormiu, Deus te criou

          Nossa Senhora por ti passou

          Deus perdoe a que mal te olhou

          Se tens na cabeça – valha-te santa Teresa

          Se tens nos braços -valha-te santo Anastácio

          Se tens na barriga – valha-te santa Margarida

          Se tens nas pernas – valha-te santa Madalena

 

               Santa Ana pariu Maria

               Maria pariu Jesus

               Aqui se reza o credo em cruz

   

       Terminada a benzedura a ti Pinhoa molhava a pontinha do dedo mínimo da mão direita no azeite e com toda a solenidade espargia sobre a água umas gotinhas -apenas três – se as gotinhas do azeite se desmanchavam o quebranto persistia -se permaneciam redondinhas e perfeitas o mal estava afastado e não era necessário recomeçar a reza.

       A saída da casa era precedida do mesmo ritual. Primeiro a espreitadela pelo postigo

da porta , depois a transferência dos benzidos para a rua com rapidez idêntica à que fora usada para a introdução na casa dos prodígios .

       Os temores, vim a saber depois, eram parte da encenação de mistério que se quadrava a matar com aquelas artes mágicas.

        Era lógico -pois se toda a aldeia a sabia com “dons” especiais e lhe pedia os bons ofícios não havia necessidade – a não ser para criar mistério – do cerimonial que enquadrava os serviços que ela tão generosamente prestava a troco apenas da crença de bem fazer e que a vizinhança lhe retribuía com presentinhos de mimo de quem,

sendo pobre, entre pobres ,se alegrava  ao receber uma manchinha de azeitonas, um pão mole,umas pupias de torresmos em dia de amassadura...ou apenas uma pá de brasas

para  aconchego numa noite mais fria que, naqueles tempos, no Alentejo, a pobreza tinha  a dimensão de vidas inteiras .

 

                                              Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.439 – 6- Fev.-1998

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Este livro foi publicado em Novembro de 2000

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deve de contactar o Jornal Linhas de Elvas

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:45

“ E, agora Professor? “

Domingo, 28.10.07

Solto da cátedra.

         Longe da cómoda segurança do “magister dixit”.

         Perfil, politicamente, talhado por anos e anos de opiniões expressas, às vezes, bem agressivamente contra gregos e troianos.

         E, agora?

         Depois de teoricamente perfeito, agora, como é?

         Como irá ser na prática?

         Queira Deus seja capaz de cozinhar com os “temperos” de que dispõe e sem o “palco” do Parlamento para as “provas” imediatas...

         Queira Deus que o seu perfeccionismo intelectual não exija para que se avizinhe da fornalha – quero dizer: - do labor – de dispor antecipadamente de todos os ingredientes ideais...

         Queira Deus encontre dentro de si – entre todas as qualidades e virtudes de saber e inteligência – que, jamais alguém, pôs em dúvida – aquela faceta comum ao povo humilde de arregaçar as mangas e meter as mãos na massa.

         Pão ázimo?

         Pão salgado! Azedo! – Bem ou mal finto?

         O povo nem sabe.

         Sabe que precisa de pão e não se nega ao esforço – tantas vezes inglório – de por ele lutar, sem desesperança.

         E sabe também que conforme as “cores” assim serão os paladares de que se irá falar.

         Um pouco como os caramelos do velho “Rodas”!

         Enfim!

         Queira Deus – agora que – como diz um velho ditado – meteu os pés nas botas dos outros suporte os maus jeitos e permaneça de pé apesar das deformações.

Desejo-lhe por apreço pessoal.

         Porque é bom para a conservação da imagem que a sua própria pena foi definindo ao longo dos anos.

         É bom para o povo que ainda consegue acreditar em líderes.

É bom para o País que tenha ganho uma oposição inteligente e justa como uma consciência bem formada.

Agustina Bessa Luís, deu ao jornal “O Público” aqui há mais ou menos um mês uma entrevista de que retive uma afirmação surpreendente:[agustina+Bessa+Luis01.jpg]

 “Envergonho-me de não ter pensamentos de pessoa velha”.

         Isto é invejável. É uma maravilha.

         Agustina tem mais quatro anos que eu!

         Eu bem queria seguir-lhe o exemplo.

         Porém!...

         Em boa verdade, envergonho-me de politicamente ser mais pessimista do que o “ velho do Restelo”.

         Vejam lá que não me sai da cabeça que as refregas políticas são uma espécie de jogos.

         Disputam-se pelo gozo da luta. Pelo gosto do espectáculo, pela exibição do saber, pelos dons da oratória, pelos louros da vitória, pelo calor dos aplausos públicos.

         Depois...

         Bem! – Depois, cada um quereria voltar ao sossego das suas casas e, aí, sonhar com outras oportunidades de (sem consequências) mostrar como é: o bom, ou mais; de como é o melhor.

         Eu bem que avisei.

         Esta conversa é de quem já só tem pensamentos de “pessoa velha”.

         Tanto que eu nem sei se se percebeu que me convenci que “isto” de política deixou de ser “missão”, “serviço público”, “arte de gerir” etc. etc. e se tornou apenas um triste estendal de vaidades.

                                    Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2. 345 – De 5 de Abril de 1996

 Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 18:50

Rezas e Benzeduras IX

Sábado, 27.10.07

Pedi a Maria Isabel de Mendonça Soares, essa Mulher com letra grande do nosso mundo da cultura, – cuja obra, especialmente dedicada aos jovens – é por demais conhecida quer pela publicação de livros, quer por conferencias, quer pela preciosa colaboração com artigos de opinião em jornais e revistas, e outras acções de mérito a que tem dedicado toda a sua vida de docente - pedi - a essa querida amiga que me falasse sobre esta série de: rezas e benzeduras.   

           Então ela a certo passo da sua resposta, escreveu assim:

          “ Que teria sido feito dos romances populares da tradição oral, se Garrett, lembrando-se de que os ouvira da boca das criadas velhas na sua infância, lhes não tivesse «deitado mão» e dado à estampa? Por isso não desista.

           Não sei se estas que refere são exclusivamente da terra Alentejana.

           Se assim não for, permita-me mais uma achega que aprendi em pequena com a minha avó:

                                      ( Desenhos de Manuel Jesus)

          Quando nos queixávamos de ter um pé dormente, o que acontecia quando, sentadas no chão a brincar, dobrávamos uma perna, a avó aconselhava que nos puséssemos de pé, e esticando-nos fizéssemos uma cruz no peito do pé, com o dedo molhado em cuspo, dizendo ao mesmo tempo e repetidas vezes:

             Desadormenta-te pé

             Que lá vem o lobo Mé

             Que te há-de querer comer

             E tu não podes correr.

             Remédio santo! Resultava sempre; e ainda hoje resulta quando a rir o faço.

             Hoje penso que o «remédio» provém certamente da extensão muscular que permite ao nervo retomar a sua posição correcta.

             Não sei a origem desta «reza», tanto mais que minha avó era nada e criada em Lisboa, só tendo ido morar para Pernes depois de casada, e aí nunca ouvi menção de semelhante prática.”

            - Escusei-me logicamente a substituir por discurso meu as palavras de Maria Isabel de Mendonça Soares escritas ao correr da pena, numa carta particular, onde o estilo bonito da sua prosa sempre escorreita, ressalta tão limpo que me pareceu aceitável esta pequena traição!

 

             Penso, que, como eu, muita gente ainda se lembrará daquelas tardes imensas em que sentadas no chão, acomodadas em circulo - quando eramos crianças -  jogávamos ás cinco pedrinhas ,até ter as pernas dormentes .

             Jogar os jancros dizia-se no Algarve.

             Calhauzinhos escolhidos, pequenos como ovos de passarinhos.Recolhidos à beira do mar ou à beira rio, ou em passeios ao campo no leito das ribeiras pluviais que o Inverno cria e o Verão, sedento bebe...

              Atiravam-se ao ar, um a um, recolhiam-se com a palma ou com as costas das

mãos, ou, também com suaves toques faziam-se deslizar sob um arquinho  que se criava apoiando o indicador e o polegar da mão esquerda no chão enquanto com a direita se

movimentavam as pedras uma  a uma aproveitando o curto espaço de tempo em que subia no ar a que antes se lançava para que as outras preparadas em fileira fossem passando a ponte como a destreza do jogo mandava .    

                      Histórias que já fazem história

                      Histórias desta cadeia sem fim onde as nossas mãos só valem se abertas para dar o que de outras receberam...

  

 

                                                  Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.437 – 23 – Jan. – 1998

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Este Livro de Rezas e Benzeduras foi editado

em Novembro de 2000

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publicado por Maria José Rijo às 21:29

“O cavalo do espanhol”

Sexta-feira, 26.10.07

Não sei muito bem como classificar esta história.
Para lhe chamar de fábula ela, em princípio deveria ser, talvez de preferência em verso, imaginária, inverosímil, talvez mitológica, talvez passada só entre animais, enfim: - deveria ter os clássicos condimentos da figura literária referida, e, de toda a narrativa, sempre resultaria como corolário uma lição de moral... como se aprende na escola...


Se lhe chamasse de: - parábola, também seria simbólica a sua linguagem, mas, já teria implícita doutrina ou ensinamento moral...e não pretendo, nem sei, fazer apostolado.
Pretendo, tão somente contar aquela velha anedota que, se calhar, já todos conhecem mas que me pareceu vir tão a propósito, ser tão condizente, com o momento da nossa história contemporânea, que não resisti a repescá-la para fazer a analogia que se me impôs.
Começo então:
Houve em tempos um espanhol que tinha um cavalo de muita estimação.

O espanhol não era abastado, mas com os prestimosos serviços do seu cavalicoque, lá foi levando a vida sem atropelos nem misérias.
Porém, o tempo não perdoa e o cavalinho envelheceu e teve que ser substituído por outro mais jovem e possante.
Foi então que o espanhol se deu conta que mesmo velhote o cavalo conservava o apetite e...continuava a comer.


Que encargo! Exclamou o espanhol! Ainda dá despesa e já não trabalha!
Deteve-se então a conjecturar soluções para tão intricado problema.
Matá-lo não lhe parecia caridoso e ele tinha-se na conta de boa pessoa, e, como tal era considerado.
Preocupado, pensou, pensou, até que uma ideia – que lhe pareceu luminosa - lhe ocorreu, e decidiu concretiza-la.
Em cada dia reduziria um pouco mais da ração ao animal, para que ele se habituasse a não comer e não lhe fosse onerosa a sua manutenção.
Resignado e silencioso, o velho e nobre amigo que o servira, sem ninguém que o defendesse definhava a olhos vistos. Só o detentor da sua sorte não se apercebia das causas da magreza do animal que a breve trecho sucumbiu à triste sorte morrendo de inanição.

Ficou então o espanhol muito entristecido porque nunca lhe ocorrera que tal desfecho poderia acontecer, até porque tinha interiorizado que tudo vai no costume e tinha por certo o convencimento de que o bicho já estaria até habituado a alimentar-se dos bons ares da sua terra.
Pensava o “honrado” homem que tal epílogo fora um percalço do destino pois que as suas intenções tinham sido as melhores: - Poupar!

Acompanhando pela comunicação social a ligeireza com que o novo orçamento agrava as condições de vida dos portugueses, penso que para reformados e pensionistas, se afigura exemplar a história do cavalo do espanhol!...
A pobreza, a tuberculose, os deficientes cuidados de saúde e assistência, etc...etc...etc... compõem o cenário perfeito para que se morra de inanição como o protagonista da velha lenda.

Só que como se fala de situações reais e não de contos da Carochinha e, como quem legisla sabe quanto ganha e quanto gasta e como é consolador não ter privações nem para o essencial, nem para viagens, caprichos, paixões e lazeres...
Todo o povo em geral e os mais desvalidos, em especial, sentem por certo que era mais humano e justo que os “favorecidos” prescindissem de algum supérfluo, para que a outros, não faltasse o essencial...

Acontece que um cavador de enxada, não vale menos - como ser humano - do que qualquer outro indivíduo por mais sofisticado que seja o seu cargo ou a sua função nesta vida.]
Aceita e defendida essa verdade como dogma, todos nos abraçaríamos para dizer convictos:
-Porreiro, Pá! - E, seria uma festa de verdade.

 

                                        Maria José Rijo

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Conversas Soltas

Nº 2.940 – 25-Outubro-2007

Jornal Linhas de Elvas



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publicado por Maria José Rijo às 20:01

REZAS E BENZEDURAS VIII

Quinta-feira, 25.10.07

O Ti Carrapiço era o maioral das vacas.

Não sabia ler nem escrever, mas com uma técnica da sua autoria por meio de risquinhos conseguia dar conta da história toda da manada.

Sabia os dias e os meses em que cada vaca parira, os preços que cada cria rendera e, portanto, era impossível não saber com segurança o rendimento que cada vaca dava.

Aliás, cada bicho tinha um nome, era a malhada, a estrelinha, a pimpona, a cotovia, a salpicada, etc, etc. 

Chamava-as pelos nomes e movia-se entre elas falando com tal à-vontade que parecia esperar que lhe respondessem.  

Pessoalmente nunca me cansava de apreciar aquelas cenas e sempre ficava convencida que havia um secreto entendimento entre eles, tanto mais, que os animais obedeciam a todas as ordens que o velhote lhes dava ainda que o fizesse num tom quase sussurrado. 

O outro comparsa destas andanças era o cão. Era um Serra d’Aires magrito, de olhinhos vivos e atentos que respondia por: Chito.

Bem! - Nem sei contar!

É que, se com as vacas já era um entendimento surpreendente, com o cão era autentica telepatia. Ti Carrapiço, mal acabava de cortar com a sua navalha de folha reluzente o resto da «linguriça» que mastigava com visível deleite com a última dentada de pão – logo se preparava para deixar o assento. 

Qualquer «padragulho» ou tronco de árvore caído servia de instalação para merendar repartindo com o Chito.

Era o maioral a fechar a navalha e o cão a por-se de pé antes do dono, mas sempre a olha-lo de olhos fitos e orelhas afiladas.

Então, pensando alto, o velhote dizia: -“ a gente agora podíamos ir dirêtos ós pocinhos mas nã vamos, tá bem de veri que vamos ó rés da estrada velha.”

O cão disparava numa corrida para cumprir o desejo do homem.

Verdade, verdade, que Ti Carrapiço nunca dizia: “o mê cão” – dizia sempre: ê cá, trabalho com o mê ajuda, ou com o mê companhêro.

E, porque assim era, porque tinha ajuda, ia sempre arranjando tempo para fazer umas “porquerinhas”em pau de buxo...

É que usando aquela navalha luzidia que ele afiava no couro das grossas botas de atanado quer fosse antes de começar as refeições, quer fosse antes de iniciar as suas obras de arte: - marcadores de pão, cadeirinhas minúsculas para pendurar ao ombro como corrediças de linha; que mulher, filhas e até já a neta, eram peritas em fazer meia de cinco agulhas... as suas mãos, tinham o condão de falar da sua alma.

A mulher, a Ti Estrudes, até já lhes deixara para elas essa arte que, para ser perfeita, precisava de “boa vista” - coisa que já lhe faltava.

Ensinara-lhes os pontos, os segredos de armar os calcanhares e as biqueíras para que os “mates” fizessem lindos feitios em vez de “ catramolhos “.

Para si própria guardara a recolha das ervas para as “fevres e fastios” e as benzeduras.

“Nove cabecinhas de macela postas de molho de véspera – e beber essa água em jajum – amarga mas cura e o que aperta é que segura.”

“A folha do rilha-boi, tem a gente sempre em casa num frasquinho dentro de azeite virgem. A gente queima-se bersunta-se com uma pena de galinha e alivia.

 A raiz da abrótea é o melhor que há p´rás empinges.”

 “A gente parte-as, espreme aquele charume amarelo e esfrega-se.”

São três dias.

P’rós males de feridas arejadas nada se chega ao chá das malvas! - Isso atão é bom p’ra tudo, até se bebe.

É remédio santo!

Até p’ra quistéles – desenvolve os entestinos.

Ele é p’ra bortoejas, pegamaço d’olhos, mal de pele, – dum tudo! 

Só p’ras almorroidas é que é melhor a alfavaca - p’ros banhos de assento - de restos p’ra mais nada , - veja lá!

P’ras pontadas nas costas esfricções e copos de ventosa; p’ras dores de cólicas: - chazes.

P’ras dores no pêto e tossera enxúndias de galinha em papel pardo bem quente.

E depois de prontamente dar estas lições de sabedoria popular herdada, sem esperar pagamento pelas consultas, lá ia benzer qualquer comadre atacada de cobro.

                                (desenhos de Manuel Jesus)

Pegando numa faca e fazendo cruzes sobre a zona doente dizia com convicção:

                                           “ Eu te corto cobro

                                             A cabeça e o rabo todo

                                             Para secares e não rebentares

                                             E daqui não passares”

Três vezes repetia o exorcismo que completava rezando um Padre-nosso e uma Avé Maria.

A seguir metendo num bolso um punhadinho de trigo tremês levava a paciente até ao ferreiro mais próximo. Aí, sobre a chapa com um ferro em brasa o ferrador esmagava o trigo. Com o óleo obtido enegrecido com a fuligem da forja mascarrava-se de negro toda aquela borbulhagem miudinha.

O óleo de trigo ao fim de três dias tinha feito o milagre, mas a aureola coroava a cabeça da ti Estrudes que, também três dias seguidos fizeram brilhar a sua navalha num bailado em cruz sobre as mazelas da crédula paciente.

                                           

 

                                                                    Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.428 – 21 – Nov. - 1997

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Este livro foi Publicado em Novembro de 2000

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publicado por Maria José Rijo às 21:22

Esparsos da memória

Quarta-feira, 24.10.07

            Num dia quente de Verão, destes nossos, que qualquer alentejano arrosta com a sua costumada dignidade de viver. Destes que põem os “ críticos,” da nossa tão mal entendida indolência estival, frente à dureza do clima na mais ridícula prostração e desespero. Destes que põem, esses nossos “críticos”, em fuga das nossas terras e lugares, por incapacidade, até, de se portarem como gente civilizada; num desses dias, tendo que sair em horas em que o sol não permite, qualquer manifestação de familiaridade ou afoiteza, dei comigo a compulsar a evolução das meias desde que me conheço.

            Entre as meias de hoje feitas industrialmente e as meias artísticas, verdadeiras obras de arte artesanal, que distância no tempo, na qualidade e feitura. 

 

            Tenho numa vitrine um exemplar antigo. Uma meia de fio de linho, branca, tecida com cinco agulhas finas, com pontos complicados que formam folhinhas, flores, e diversos feitios, combinando abertos e fechados e, que ainda está bordada por cima com requintes de bom gosto e habilidade. Foi-me dada como sendo de uma de minhas avós e, com a explicação de que tal preciosidade, nem sequer era para ser vista senão pela própria já que as saias nesses tempos tocavam a biqueira dos sapatos. Das botinas, melhor dizendo, pois que até havia uns ganchos próprios - alguns com cabinhos de marfim e outros requintes - para fechar as abotoaduras  que alongavam tornozelo acima os canos do calçado, que pudicamente defendiam dos olhares cobiçosos ,ou, atrevidos,  todo e qualquer pormenor do físico feminino.

            Sòzinha sorria a estas lembranças como quem desvenda um arquivo ignorado.

            Jamais me ocorrera ter fixado tamanhas bagatelas e, a sua descoberta tornava-se- me divertida.

            Recordava perfeitamente as meias masculinas. Revia as ligas ajustadas debaixo do joelho com fivelas metálicas, e as presilhas com molas de prender penduradas uma de cada lado que mantinham as peúgas ou, peúgos esticadas a rigor, que via meu pai, meus tios e meu avô usarem...

            As polainas, com passadeira por debaixo da sola dos sapatos que todos os senhores usavam. Pensando nas diferenças ao comparar com os costumes de hoje, foi irreprimível a minha vontade de rir.

Reportei-me então à minha infância, quando pelas manhãs dos dias frios, nos equipávamos também com polainas de malha de lã, grossas e macias, cobrindo as meias como remate da indumentária invernosa e, para conforto evidentemente!

            As polainas deviam representar um sucedâneo, bem mais económico, da protecção e aconchego que davam os canos das botinas, penso eu...

            Anos mais tarde o uso indiscriminado das calças compridas para raparigas e rapazes havia, de substituir, com vantagem, tais acessórios.

            Das polainas às meias de lã tecidas à mão, e às meias de linhas de algodão, com cores berrantes que as mulheres do campo eram exímias em executar sentadas às portas conversando umas com as outras enquanto tomavam o fresquinho , ou aproveitavam a dádiva do calor do sol no tempo frio - foi um fluir de recordações que acordavam e se cruzavam como riscos de luz  dum fogo de artifício inesperado.

            Os desafios mal disfarçados de rivalidades de sabedoria apreendidos nos comentários: A fulana deita melhores biqueiras que a sicrana, mas em calcanhares

ninguém a bate! - Com que se alfinetavam as comadres no soalheiro das aldeias, apareceram por acréscimo à evocação das meias grosseiras que se usavam no campo e que consertadas e reconsertadas ficavam às riscas já que o sol e as lavagens se encarregavam de ir alterando as cores. Embora da mesma meada nunca o tom dos remendos se aparelhava com o esmaecido do trabalho primitivo já muito batido pelo uso.       

 

             Desta forma até as meias contavam os prodígios de poupança a que o viver dos pobres obrigava.

            “Remenda o teu pano que chegará ao ano! – se o tornares a remendar, tornará a chegar!”

            Ainda não chegara a fúria do consumismo. O poder económico do trabalhador do campo, já então, era uma figura de retórica...

            Enquanto isso, nas cidades, triunfava a meia de fio de Escócia. Quanto mais fina mais cara e mais frágil e mais elegante! E eram as raparigas a desejar substituir as peúgas por meias altas como testemunho de já serem umas senhoras. E era o irrecusável apelo dos jogos e brincadeiras próprias da pouca idade que transformavam essa vitória no mais lamentável desastre com buraqueiras e malhas caídas comprovativas da glória imerecida.

            Mas, quando já espigadotas “que charme” poder perguntar: - tenho o revesilho das meias direito? E as baguetes?- E as meias caídas? Mal esticadas? - Céus! Isso seria o cúmulo do descrédito!

            Não consentir na exibição desses sinais de desmazelo, era o máximo do apuro.

            “Menina prendada não é desmazelada “ era outro aforismo desse tempo em que havia como que um código de compostura pelo qual toda a gente se regia.        

            Penso que só por acaso alguma rapariga de agora saberá o que é um revesilho.

            No entanto estas memórias não estão muito longe no tempo, isto não é história de há séculos, mas sim do fim da primeira metade deste que agora se despede...

            Quando tudo começou a evoluir mais rapidamente, apareceram as fibras, e o nylon destronou sem piedade as conceituadas meias aparentemente instaladas como donas do mercado. As apanhadeiras de malhas que por detrás das meias portas ou nos vãos de escada gastavam os olhos, iludindo a pobreza, a troco duns escudos, para reconstruir, quase sem rasto ou com pequeníssimas cicatrizes aquelas finas teias de aranha em que as meias se tornaram foram desaparecendo na medida em que o consumismo foi triunfando e o usa e deita fora ganhou com segurança a guerra contra as poupanças

            Estamos no apogeu desse usa e deita fora. E a perna ao léu é uma conquista da liberdade de cada qual viver à sua realíssima vontade

Neste descontraído falazar que são por vezes estas conversas soltas calhou-me hoje lançar um olhar sorridente para coisas passadas, tão sem importância, que ninguém nelas pensa, mas que são capazes ainda de acordar reminiscências no coração de quem viveu esses tempos.

Se assim tiver acontecido, por um só sorriso, que tenha feito nascer a alguém mais só, ou mais triste, terá valido a pena evocar estas ninharias.

                                            

                                          Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.464 – 31-7-1998

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 20:59

PRÉMIO - Este blog vale a pena conferir!

Terça-feira, 23.10.07

                             

Este prémio veio da parte de Bítágora

o qual agradeço e deixo o endereço

para que os leitores deste blog

possam conhecer também

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:04

Rezas e Benzeduras VII

Terça-feira, 23.10.07

                A prima Guiomar era uma pessoa muito especial.

                Na verdade, quando as famílias estavam organizadas dentro dos antigos moldes convencionais em todas as casas havia uma prima Guiomar, uma tia ou uma comadre Guiomar...

                Também não era possível imaginar sequer um aglomerado familiar que não comportasse um cão de estimação e dois ou três gatos dando marradinhas nas pernas de quem se aventurasse a abrir a porta e entrar em qualquer cozinha.

                Quer queiramos, quer não, temos que reconhecer que o facto de o mercado de trabalho não estar aberto às mulheres criava uma espécie de casta constituída pelos parentes pobres a que se juntavam ainda os amigos que quase sempre por morte de pais ou parentes se viam desprovidos de meios de subsistência.

                Esta classe constituída por pessoas de boa educação, um certo orgulho de berço mas, sem meios, era um drama pungente que a sociedade disfarçava dando-se ares de muito generosa quando na verdade em muitos casos, sob uma capa de afectuosa protecção, se limitava a engrossar com esses deserdados a legião de pessoas que as serviam sem receber quaisquer proventos em troca.

               Engolindo por força das circunstâncias o seu amor-próprio muitas vezes a revolta pelas injustiças e humilhações recebidas tornava as pessoas dissimuladas e falsas sempre prontas a servir quem no momento lhes desse maiores vantagens.

                Balzac, no seu romance Prima Bette, como mestre que foi, ergue com essa personagem o retrato exemplar dessa trágica situação.

               Mas, a prima Guiomar, em nada se comparava à Prima Bette.

               A prima Guiomar era um doce de pessoa.

               Ela tinha o dom de ser sempre a primeira a aparecer para ajudar em qualquer aflição, para tomar conta de doentes, entreter crianças e o mais que fosse necessário.

               De avental e lenço branco sujeitando-lhe o cabelo, era vê-la em actividade nas matanças.

               Temperava os chouriços, as morcelas, era mestra na feitura de paios e cacholeiras e tinham fama as farinheiras saídas da sua mão.

               Ah! - mas o forte; o seu ex-libris eram as sopas de cachola que juntavam toda a família e amigos em redor da mesa celebrando a festa da abundância como uma orgia romana.

               Depois, cheios como odres, cada comensal tentava dormitar por seu canto e ainda era a prima Guiomar que, solicita, aparecia com um barrigudo bule cheio de chá de ervinhas milagrosas, (segredos e mistérios que ela conhecia mas não confessava) para aliviar os tormentos daquelas digestões em que as gorduras e as especiarias regurgitavam guelra acima com diabólica insistência.

Entregues os adultos às merecidas penitências da sua própria gula, a prima Guiomar, aliciava a criançada com velhas histórias que sabia contar como ninguém.

Na frescura das casas de altas abóbadas instalava-se um silêncio de recolhimento como se ali se fora praticar um culto a qualquer deus primitivo, então a sua voz fraca e já um pouco insegura pontuava frente a uma assistência sempre interessada.

                               (Desenhos de Manuel Jesus )

Naquele dia em que surpreendi este ritual, contava ela:

Noutros tempos quando não chovia era costume levar o andor de Nossa Senhora ao campo para lhe mostrar as cearas, então rezava-se:

 

Ó minha Mãe Santíssima

Dai-nos o perdão

          Senhor mandai-nos água

Para regar o pão

Eu sou pecadora

Não vos sei pedir

Não sou merecedora

Do Senhor me ouvir.

 

Cantado:

 

Bendito e louvado seja

O Santíssimo Sacramento da Eucaristia

Virgem Sagrada

Santa Maria.

 

Ora vai, ora vai com cuidado

Mas nunca te esqueças

Do Bendito e Louvado

Do Bendito e Louvado

Não me hei-de esquecer

Que a Virgem do Carmo

Nos há-de valer na maior aflição

Bradai Deus por Ela

No meu coração

No meu coração

Tenho grande dor

Em ter ofendido

A Deus Nosso Senhor

 

               

          Isto era cantado várias vezes até dar a volta ao campo e regressar à Igreja.

          Entretanto, os adultos pé ante pé já se tinham aproximado e, mal a prima Guiomar terminava o seu conto logo em coro lhe pediam:

                        - Conte, conte mais, conte outra história!

Sem mostrar cansaço sorrindo por vezes ela recomeçava ou, mantendo o sorriso, discretamente, desaparecia para os fundos da casa, dizendo apenas: - volto já!

 

 

 

                                   Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.426 – 7-Nov. -1997

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Este Livro foi publicado em Novembro de 2000

Caso esteja interessado na aquisição de algum volume

de Rezas e Benzeduras deve contactar o Jornal Linhas de Elvas

 

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publicado por Maria José Rijo às 16:15

“Diga lá – Excelência”

Segunda-feira, 22.10.07

Leio sempre com a maior atenção, os artigos de opinião dos meus companheiros “de lides”, que sinto como verdadeiros amigos. Quer pelo tempo que já levamos de percurso comum, quer também, por este “parentesco” de comportamento que, nos faz, sem contrapartidas económicas, ou outras, dar a face em prol do que em consciência achamos ser o Bem comum. Somos uma espécie de não acomodados, nem sempre bem entendidos, mas, convictos e resistentes...

Por eles, muitas vezes tomo conhecimentos de factos que de outra forma me passariam despercebidos, dado que só pelo jornal algumas notícias me chegam e, por essa circunstância já nem sempre muito frescas...  

Desta vez, após a leitura de um excerto de afirmações proferidas por Sua Excelência o Senhor Presidente Rondão, numa entrevista que João Gois cita, não consegui deixar de reparar na circunstância que, na minha opinião, torna a forma como está exposto um critério de decisão, que até pode estar certo (não é essa agora, a minha tese) numa tremenda gafe, e, até ofensa, para outras personalidades que ocupem ou tenham ocupado os cargos que de forma “tão frontal”, (como a designa João Gois, com uma generosa tolerância, que me recuso a subscrever), são referidos, por – Tachos! -

Apetece perguntar como no programa cujo título parafraseei: - diga lá Excelência, o que é um tacho?

Aqui fica, ipsis verbis, o que motiva os meus comentários: -“Havendo quatro regiões, há quatro tachos porque há quatro presidentes”

Então a definição de presidente, qual é? - Tachista!?...

            Se a sugestão proposta é para que fique uma só região, o que equivale, a um só tacho e, consequentemente, um só presidente, ou – Tachista - ocorre perguntar: - é como tacho que um presidente de Câmara vê os cargos de outras pessoas, como ele, escolhidas ou eleitas, para servir o Povo que somos, - o País que somos?

Parece lógico intuir deste discurso, que, se deve reduzir a quantidade de tachos, para que haja menos... tachistas! E, os referidos tachos possam – sendo menos – servir mais fartamente os seus usufrutuários! – Será isso?

Então é a isto que está reduzido o respeito que se tem por cargos públicos, e políticos?

Neste caso, qual é o espírito que preside ao desempenho das funções inerentes a tais cargos?

Achar bem – um só presidente -  porque isso reduz o número de tachos???...

Então neste país no nosso país - já não há ideais? - Espírito de missão? – Espírito de serviço? - Amor ao progresso, ao bem-estar do próximo? Altruísmo? – Abnegação? - Solidariedade? - Dignidade? – Nada que dignifique o ser humano!?...

Estará esquecida a lição do Papa João Paulo, ao dizer que o caminho é o Homem?”

Impõe-se a pergunta: - é para tachos que se fazem eleições?

Não se esclarece em tão notável entrevista quantos elementos afectos ao tachista, poderão comer do dito tacho. A família? Os compadres? - Os amigos?

Porque: - se não é um cargo, com os seus deveres, compromissos de honra, com os seus consequentes encargos, alegrias, tristezas, sucessos e insucessos, vitórias e derrotas, projectos e ideais, que é atribuído a alguém que, como tal, precisa de colaboradores à altura de tais responsabilidades – mas sim um tacho!...

... Então de um tacho como diziam os ceifeiros e os malteses que se recolhiam à noite, lá nos montes, pelos palheiros:”- podemos garfar todos do mesmo barranhão!” E, à roda do tacho, abancava um sem número de gente vária, desenraízada de deveres e de afectos, que deambulavam comendo onde podiam e que, uma vez saciados, partiam sem escrúpulos, até sem dizer adeus, para onde mais lhes conviesse já que nenhuns tabus os detinham.

Espero em Deus que o senhor primeiro Ministro, com a sua decisão de reduzir postos de Trabalho, não confunda Pão com Tachos, porque são realidades bem diferentes, e, tenho a certeza de que, nenhum Excelentíssimo Ministro quereria “ calçar as botas” dos funcionários atingidos pelas tão justas medidas, que estão promulgando – para os outros – claro!

 

                                                   Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.860 – 6/Abril/2006

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:49


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