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... Dantes...

Domingo, 07.10.07

            Aqui na cidade os ruídos dos carros e das motorizadas já quase passam desapercebidos.

            São muitos.

            São constantes, já fazem parte dos sons de fundo da vivência do nosso quotidiano.

            Aqui o que nos desperta a atenção é um súbito silêncio – quase surge.

            Em Juromenha, lá bem na extremidade da povoação, onde temos uma porta com postigo e uma janela virada para o rio, não é assim.

            Lá, um carro, uma moto, um qualquer motor ou passo inusitado – são barulhos notórios que chamam à soleira das portas os interessados “fiscais” das quebras do silêncio.

            Lá imperam cigarras nas horas de calor e, noite fora, cantam os grilos ou ladram os cães, eles próprios também, guardiões da calma serenidade.

            Ora acontece que vindo a Elvas de fim-de-semana para acertar agulhas...

            Quero dizer: pagar caixa, condomínio, etc,etc, na recolha do correio que sempre se acumula cá tinha o “nosso Linhas” a esperar-me entre correio útil e a maralha aterradora da propaganda dos supermercados (de que cada vez gosto menos).

            Que saudades do Senhor Flaviano da Rua de Olivença e de outros comerciantes que nos habituamos a estimar e nos atendiam, aconselhando-nos nas escolhas e falando conversas de gente -  sem os slogans das modas de  agora ...

            Mas... tomando o fio da conversa...

            Dei uma vista de olhos ao conteúdo do cacifo fazendo um balanço geral da “colheita” e, logicamente, pendi para as notícias, veloz e curiosa, como as minhas vizinhas de Juromenha correm à voz dos pregoeiros que animam o arrabalde com seus pregões, músicas e buzinadelas.

            Então...

            Então?... Que actualidade a de “O Hissope”.

            Como seria possível esquecer obra tão bem urdida e bem escrita! – E, por indução a Quinta do Bispo... (Aquela gente toda do Hissope existiu!)

            Por outro lado, como pretendia que neste corre, corre, que por aí vai, haja tempo para pensar?!

            Pensar, até nas figuras que se fazem. Então, por estas e outras como estas, dei-me ao deleite de me refugiar nas minhas memórias.

            Privilégio da idade!

            É que dantes... 

        ... Dantes ninguém ia para a escola em carro próprio, nem de moto.

            Isso não eram transportes usuais.

            Eram miragens.

            Andava-se a pé, a cavalo, em carros puxados por mulas e também de burro.

            Ao evocar os burros sinto-me sempre enternecida.

           

            Bicho simpático.

            Simpático e útil.

            Ninguém hoje quererá acreditar – e, é verdade, juro! – Que ter burro podia ser sintoma de abastança. 

           Lá na aldeia onde fiz a instrução primária, só chegavam à escola escarranchados em gordos burros, os filhos dos lavradores ricos.

            Era vê-los com seus trajes de veludo preto, castanho ou azul-escuro, suas golas brancas, seus chapéus de feltro com aba redonda, a sacola dos livros numa das bolsas do alforge e o farnel na outra.

            No Inverno completava-se o paramento com largo capote de gola de peles (raposa ou coelho) mas o abrigo tinha dimensões tão vastas que repartia com o burro o conforto que proporcionava.

            Era pois à velocidade do burro que se caminhava nos meus tempos de criança.

            E era bom.

            Era cómodo e seguro.

            Via-se nascer e crescer o trigo; engrossar a azeitona; o florir dos chaparros em cadilhos de flores miudinhas...

            O sangrar dos sobreiros esfolados da cortiça.

            Via-se a margaça branquear o chão como neve. Via-se lavrar, semear, mondar, ceifar.

            Aprendia-se a amar o campo pelo contacto íntimo e vivo que se estreitava entre as coisas e as pessoas.

            E... pensava-se.

            Dava tempo para pensar.

            Recapitular até o que se ia aprendendo.

            Agora não.

            Parte-se correndo ou voando de um lado para o outro e, na pressa até se esquece ou, nem se chega a saber como se chegou ao destino ou se o “poleiro” pode ser destino.

            Depois...

            Depois, são os passos em falso, as falsas atitudes, as confusões.

            As tristes figuras.

            Dantes era norma amadurecer pareceres e decisões. Era comum cultivar a dignidade, respeitar os compromissos, honrar a palavra dada.

            Não fales antes de tempo.

            Agora, realmente, corre tudo tão depressa, tão à toa, e tudo se diz e desdiz com tal presteza e leviandade que se chega a duvidar do que os nossos olhos vêem e nossos ouvidos escutam.

            Esquece-se que palavra – a Palavra – é compromisso.

            Mas, cuidado! – É temeridade ignorar as evidências quer se corra ou vá pachorrentamente (como acontecia dantes) reparando bem onde se põem os pés.

       Por muito que o homem baralhe e dê cartas de novo – a Natureza – sabiamente não altera os seus ciclos – nem os burros ou qualquer bicho saudável as suas características genéticas.

       Assim: Homem é homem – bicho é bicho agora ou como era dantes...

 

                                             Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.362 – 9 /Agosto- 1996

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 23:27

Escritos de Eva

Domingo, 07.10.07
 Escritos de Eva --->>>  http://escritosdeeva.blogs.sapo.pt/
De Maria José Rijo a 3 de Outubro de 2007 às 14:01
Ser escolhido por alguém é sempre uma distinção e quando esse alguém é Eva só posso dizer Muito, muito obrigado.

Maria José Rijo

 

@@@@

De eva a 3 de Outubro de 2007 às 20:12

Eu, e todos os que temos a felicidade de a poder ler, é que lhe agradecemos o ter-se disposto a partilhar connosco os seus textos.
São lições de vida. Precisas porque sempre necessárias e precisas porque certeiras!
Muito obrigada, eu!
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publicado por Maria José Rijo às 00:34





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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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