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Mais vale tarde...

Sexta-feira, 12.10.07

            Em 26 de Junho deste ano de 2000 chegou-me às mãos um documento muito especial, via “mail” que começava assim:

             

            Estimada jornalista Maria José Rijo

        

            Sou membro dum grupo inglês que gosta muito de aprender Português. Somos quatro: eu e o meu marido Richard, a nossa amiga Ros cuja mãe mora no Algarve, e mais uma amiga Nicola que é empregada de British Airways e precisa de aprender muitas línguas europeias. Todos nós moramos mais ou menos a 50 kms oeste de sul de Londres. A nossa professora, Teresa, é Elvense e muitas vezes lemos o “ Linhas de Elvas” para praticar e também porque hoje em dia temos interesse na terra dela.

            A nossa jornalista preferida etc. etc etc...

e continua:

 

            O artigo que gostamos mais foi a história triste da matança das olaias : esperamos que hoje elas ganhem a sua beleza mais uma vez!

 

         Guardei a carta que pelo Linhas me fora entregue com um misto de confusas emoções. Algumas vezes a reli, sentindo sempre que devia responder. Só que não tinha

para dar, a resposta, que, para tal carta -  era a merecida.

            Pensei logo agradecer, o que só agora estou a fazer e convidar este grupo para visitar a nossa Cidade. Pensei que lhes poderia oferecer pousada ali em Juromenha  naquela casinha de porta de postigo de onde se vê o rio Guadiana, manso, quase quieto, correndo para o seu destino ...e onde o castelo, nobre e arruinado conta lendas de princesas mouras e guarda lembranças de rainhas de Portugal que por ali passaram em caminhos da história...

            Pensei... mas...

            Queria também puder dizer outras coisas mais.

              

            Sabem que estou convencida que Nossa Senhora só aparece às crianças porque elas são simples de coração e não têm nem vaidade nem orgulho de tudo saber?

            As crianças condoem-se dos velhos, dos cães estropeados, dos passarinhos implumes que as tempestades deitam ao chão. As crianças choram as árvores que os raios queimam , só porque estão mortas ou porque à sua sombra brincaram...

            As crianças, como os simples, sabem só as leis do coração.

             

            Daí que, como elas, ignorantes como eu, não entendam que para repovoar se arrase, porque isso era afirmar que fica mal um neto, lado a lado, pela mão de seu avô ou avó.

            Daí que por certo não passe pela cabeça de ninguém - penso eu - arrancar os pinheiros velhos do pinhal de Leiria e, em seu lugar, plantar choupos ou chorões porque crescem mais depressa...

Daí que me pareçam mais de acordo com a sensibilidade das gentes, as leis do coração do que as determinações políticas. E, esta carta,  vinda de longe mostra que o sentimento quando é sincero fica a fazer eco na alma de pessoas que muito embora não nos conheçam se  preocupam também, com a frieza com que se atenta contra a vida ainda que vegetal, sem que para isso haja uma razão imperativa.

                Passei junto à grade do Jardim Municipal. Tal como no ano passado, algumas Olaias, porque não haviam sido completamente arrancadas, ou foram apenas cortadas, apesar de regadas posteriormente com produtos exterminadores, teimam em rebentar.

            Custará assim tanto ao orgulho Municipal deixar que cresçam e voltem a florir aquelas teimosas sobreviventes?

            Elas, assim como assim, já mostraram que não estavam tão caducas como poderia parecer...

            Todos nos enganamos, e, como já li algures, nem todos podemos saber de tudo

            Que eu saiba só o senhor professor Cavaco Silva nunca se enganava! ...   

                Mas esse é do P. S. D.

 

 

 

                                                           Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº2.578 – de 27/10/00

Conversas Soltas

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:08





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