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REZAS E BENZEDURAS II

Quarta-feira, 17.10.07

             Está fora de dúvida que o nosso tempo carece de ser benzido e exorcizado.

           Se já se viu um Maio com tanto azedume depois de um Inverno que se banqueteou com sol como num solstício de Verão!

          Que muita coisa anda a pedir chuva - também é verdade! - Porém, este descontrole passa das marcas.

           Se é que para o tempo há marcas!

           Há um nadinha tudo estremeceu com uns trovões inesperados, ameaçando-nos com uma tempestade a preceito.

           Não apareceu, afinal, perdeu-se lá por longe, graças a Deus.

           Mas, enfim! - Trovoadas, nesta época, de quando em vez não espantam ninguém.

           Toda a gente conta com os desvarios de Maio, e não há Maio sem trovões.

           As trovoadas de Maio são dos livros.

           Maio tem o condão dos dias belos como as rosas e das horas cinzentas que causam arrepios.

           Cor de cinza - é cor de tristeza.

           É o que resta na terra depois da terrível beleza do fogo.

           De cinza se pinta “o astro” quando a luz do sol se encobre.

           Cinza é o que resta de tudo que já foi.

           Afeitos, como todos estamos às variações do tempo, às vezes, só as trovoadas, que nos fazem encostar o rosto às vidraças das janelas fechadas escutando a chuva grossa e ruidosa ou o granizo-pérolas efémeras que a água forma - nos soltam  da memória de velhas orações que nos  esvoaça m na lembrança como nuvens, a correr ligeiras, pelos céus.

                                  (Desenhos de Manuel Jesus )

Foi assim agora:

                         São Jerónimo se levantou

                         Seu divino pé direito calçou

                         Seu bordanito apanhou

                         Ao caminho se deitou

                         A Virgem Nossa Senhora - encontrou.

                         Ela lhe perguntou:

                         Onde vais Jerónimo?

                         Vou espalhar a trovoada

                         Espalha-a por lá bem espalhada

                         Onde não haja pão, nem vinho

                         Nem pé de rosmaninho

                         Nem mulher com menino

                         Nem vaca com bezerrinho

                         Nem toque de sino

                         Nem galo a cantar

                         Nem pedra de sal

                         Nem ramo de Oliveira

                         Nem nada a que possa fazer mal!

             Assim rezava em voz alta minha Avó em coro com minha tia mais velha - frente ao oratório iluminada  pelos pequenos clarões bruxeleantes das lamparinas de azeite  que , noite e dia alumiavam as imagens dos santos das suas devoções.

                 Na circunstância apenas se acrescentava ao ritual a fumacinha que exalava da queima do alecrim bento do domingo de ramos e guardado para tais eventos.

                A Rapariga que fazia os mandados lá para casa hirta de pavor, acolitava o culto papagueando atabalhoadamente:

São Jerônimo

                                           Sã Jarólmo  s ‘ alevantou

                                           Sê devino pé derêto calçou

                                           Sê bordanito apanhou

                                           Ó  caminho se détou

                                           A Virgem Nossa Senhora encontrou

                                           Ela lhe précurou:

                                           Onde vás Jarólmo?

                                           Vou estrambalhar a travoada

                                           Estrambalhá por lá bem estrambalhada

                                            e por aí fora, etc.etc...

                É por certo a esta curiosa versão da reza, onde a fé era inequivoca, que eu devo a memorização de uma cena tantas vezes presenciada.

              Minha mãe, com a obrigação, sempre assumida, de não nos deixar contagiar por exageros de medos - chamava:

              Venham cá!

               E, fazia-nos repetir com ela, calma e serenamente:

                                            Santa Bárbara bendita

                                            Que no céu está escrita

                                            E na terra assinalada

                                            Com papel e água benta

                                            Quantos anjos há no céu

                                            Acompanhem nossas almas

                                            Espalhem esta tormenta

          Depois, sorrindo, perfeitamente segura de si, acrescentava: - isto já passa - vão brincar - ou, pedia-nos qualquer pequena  ajuda que nos distraisse.

           Então, se meu Pai aparecia, tirava do bolso do colete, o relógio e propunha-nos controlar o espaço que mediava entre o relâmpago e o trovão.

           Tomando em conta as velocidades da luz e do som ensinava-nos a fazer as contas e tornava-se um jogo calcular a diatância a que pairava a tempestade.

            Dos campos em redor chegava o eco do canto dos trabalhadores que regressavam a casa à pressa entoando o “Bendito e Louvado”.

           Alheio a tudo, o nosso gato dormia regalado na almofada da sua cadeira. Se lhe calhava acordar com o ribombar forte de algum trovão mais violento-passado o susto, bocejava, esperguiçava-se e lá ia silencioso procurar conforto na “sua mesa” sempre posta.

           Num quarto, às escuras, com a cabeça debaixo dos cobertores, rezando terços alucinadamente, minha tia mais nova sucumbia aos seus terrores.

          Entretanto - como agora - a claridade vencia.

          Paravam as chuvadas loucas.

               O sol irrompendo glorioso, irisava a humidade do ar pondo belos arco-íris, como bandoletes gigantes, no céu.

               O ar cheirava a lavado.

               Aqui e ali pingavam árvores, beirais.

               As crianças soltavam-se a correr para a rua.

               Chapinhavam com os pés nas poças de água.

              Riam pelo gosto de rir e lá iam repetindo as suas inocentes cantilenas:

                    “Olha o arco-da-velha!”

                    “Olha o arco-da-velha!

                    A chover e a fazer sol

                    Estão as bruxas a comer pão mole!”

               E, eu, sem o saber, arquivava recordações que, agora, de vez em quando vou deixando aflorar...

 

                                             Maria José Rijo        

 

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 Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.407- 20-Junho-1997  

Conversas Soltas

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Livro Publicado  pelo Jornal Linhas de Elvas

Novembro de 2000

O livro pode ser adquirido na redacção do Jornal linhas

                         

         

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publicado por Maria José Rijo às 21:28

Maniqueísmo

Quarta-feira, 17.10.07

          Até nas cores há diferenciação de tons.

Verdade que na base estejam as sete do arco-íris. Mas, verdade também, que qualquer delas se desdobra em tons que vão do mais vivo ao mais ténue.

Verdade que se podem esbater até que o tom se lhe ausente.

Incolor é a gota de água que actua como prisma e devido á decomposição da luz, gera esse fenómeno óptico que como um milagre fugaz, após as chuvadas risca os céus.

Tão belo, tão espantoso, tão inverosímil na sua luminosidade que também se lhe chama uma coisa do: “arco-da-velha”, segundo reza a tradição.

Aliás se todas as cores cabem entre o preto e o branco, também é verdade que o azul escuro – o índigo - se desdobra em azuis - o amarelo, em amarelos – o verde, num mar de verdes...e, assim é com todas elas, quer seja  o vermelho, o laranja, o amarelo, o verde o índigo ou o violeta

Pelo menos, no mundo das cores, não existe maniqueísmo, nenhuma delas se afirma por um só tom irredutível.

Estamos a viver um momento político de tremenda gravidade.

O mundo dividiu-se em apologistas do bem, e do mal. Só que cada qual, só acha virtudes na sua posição e de seus adeptos.

Desta forma, o bom, o melhor, é sempre o que está com o uso da palavra acusando o outro, e, assim, nesta alternância, são melhores e piores – os mesmos –, dependendo de qual está a expor o seu convencimento.

Pessoalmente, creio, que como verdade fundamental, indispensável à felicidade dos povos só se pode acreditar na Paz.

Nunca as guerras resolveram com justiça os problemas deste mundo.

Apenas conseguem soluções precárias, pela força, pela violência, pelo medo.

Derrotar, não é convencer, e, sem convencimento não há vitória.

Ganhar pela força, pode representar a humilhação de quem perde, mas, também, a derrota interior de quem vitima o seu semelhante, pelo poderio, pelo dinheiro, pela técnica, sem convencimento pela razão, pela inteligência, pelo humanismo.

Daí que aprendida pelo sofrimento directo, ou por herança ancestral, se tenha formado no mundo uma certa consciência colectiva que só aceita, por justas, soluções negociadas de Paz.

Não acredito que seja certo, matar, estropiar, tirar a esperança de Vida a quem quer que seja, – indiscriminadamente – quanto mais às crianças que, com fé nos olhos, tudo de bom esperam dos adultos a quem dão, confiantes, a mão, esperando serenamente, exemplo, protecção e apoio para crescer, serem livres e felizes.

Seja-me perdoado o desabafo... porém, vendo e ouvindo os noticiários, creio que todos nós, até no ar que respiramos, sentimos a dor da tristeza, e do desamparo das Mães e famílias, que olhando os filhos prisioneiros, tão cruel e despudoradamente mostrados ao mundo, – como troféus de caça – já aceitavam para eles, a morte, como um mal menor...   

 

 

                                                Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.705 – 11 – Abril –2003

Conversas Soltas

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