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Agora que a poeira baixou...

Quinta-feira, 18.10.07

Vamos olhar pelo outro lado acontecimentos que nos perturbaram a tal ponto que levando ao rubro as nossas emoções quase paralisaram a nossa capacidade crítica.

Temos todos nós uma intrínseca necessidade de ser aceitos pelos demais.

Isto é uma verdade insofismável. Daí que, quase que como por instinto, sejamos levados, não propriamente a mentir, mas, a calar a nossa opinião, em nome de muitos factores aceites como correctos, alguns, até como deveres de educação. Proceder de modo a não ser desagradável, está aceito como conveniente e, daí que esteja estipulado como código social embrulhar o medo de ser sincero com expressões, tais como:

Não se ganha nada em ser desagradável...

Não é correcto desmentir quem quer que seja...

Para quê falar se já não se altera nada!...

Não se devem ganhar más vontades...

Podes perder o emprego...Vão despedir-te, acautela-te!

Vais ouvir impropérios...etc, etc, etc...

E, assim engordam a injustiça, a mentira, a falsidade e, assim se torna o convívio entre as pessoas uma verdadeira fraude, enquanto triunfam a prepotência, a demagogia, o oportunismo...

Permanece-se em silencio - ao serviço de quem detém o poder e perde-se o hábito da saudável crítica formativa de opiniões que esclarece, forma o caracter, revigora a coragem ,a honestidade e a postura de cidadania que todos devemos preservar.

Quero dizer que: em nome de princípios errados, de comodismo, e, volto a repetir: falsos medos se deixam triunfar situações de injustiça que cerceiam ideais e pesam nas consciências. Assim somos nós, e só nós, com o nosso encolher de ombros os únicos responsáveis pelas agruras de que nos lamentamos, tantas vezes, só para sermos simpáticos, só para que ninguém nos perturbe...

Mas... vamos ao caso: - o país inteiro, diria até, quase o mundo inteiro, vibrou de horror com a selvajaria perpetrada - na emboscada - preparada aos industriais portugueses que foram de visita ao Brasil  confiantes num amigo que os esperava...

Não vale a pena especular com pormenores, já por todos demasiado conhecidos; pois que a televisão, para alem das notícias, se portou nas reportagens como abutres gulosos, que se banqueteassem com a podridão.

Porém, não é dessa circunstância que quero falar.

Queria, sim, respeitando embora a dor dos familiares e amigos e, também a comoção que encheu de angústia o pais de norte a sul, confessar que não achei justo que o estado português se tivesse sobreposto às famílias e arcasse com as despesas da trasladação dos corpos das vitimas para as suas terras de origem.

Não consigo, interpretando tudo o que vi e ouvi, deixar de entender que aqueles seis homens de negócios com os bolsos confortavelmente recheados foram ao Brasil para aproveitar dum turismo de bordeis, que lhes proporcionaria o amigo – lá bem longe dos olhares das mulheres, cuja companhia, alias, recusaram.

Mas, quer fosse esse, ou qualquer outro intuito, que tivessem, nem sequer a forma como terminou as suas vidas justifica que sejamos nós - contribuintes - a custear as despesas que motivaram.

Porque é preciso que se diga que: - quando o estado, ou a autarquia, ou qualquer outro poder publico dão, seja o que for, quem está a pagar é o contribuinte.

Qual o critério então que comanda estas acções?

 Se era gente abastada ao ponto de viajar porquê deixar que a emoção, o exibicionismo de ser bonzinho ultrapasse o bom senso e os tratasse como vítimas duma causa nacional?!

Digam-me que os corpos de todos os soldados que morreram em África, e morreram por nós, regressaram a custas do estado, às suas terras, e nelas estão sepultados...

Digam-me que aquele, quase menino, soldado ao serviço em Timor, que ainda ontem vimos na televisão ao colo do pai, por ter perdido a capacidade de andar -só por engano está sem ajuda, sem soldo, sem esperança porque um acidente, em gozo de justas férias, fez dele não um homem dependente da justiça social, mas da caridade publica...

Digam-me que não é preciso fazer colectas de caridade para operar crianças, com doenças que requerem custosas idas para o estrangeiro e pertencem a famílias sem meios...

Digam-me essas e outras mais coisas que então eu entenderei que - o estado - para além do apoio QUE NINGUÉM DISCUTE , tinha obrigação de custear o regresso a Portugal dos seis infelizes industriais, que foram ao Brasil , gozar férias por sua deliberada vontade.

Enquanto estas e outras perguntas não obtiverem resposta convincente; habituemo-nos a controlar as emoções e a tomar decisões mais justas e razoáveis.                           

  

                                               Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.624 – 21 /Set./2001

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 21:14





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