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Esparsos da memória

Quarta-feira, 24.10.07

            Num dia quente de Verão, destes nossos, que qualquer alentejano arrosta com a sua costumada dignidade de viver. Destes que põem os “ críticos,” da nossa tão mal entendida indolência estival, frente à dureza do clima na mais ridícula prostração e desespero. Destes que põem, esses nossos “críticos”, em fuga das nossas terras e lugares, por incapacidade, até, de se portarem como gente civilizada; num desses dias, tendo que sair em horas em que o sol não permite, qualquer manifestação de familiaridade ou afoiteza, dei comigo a compulsar a evolução das meias desde que me conheço.

            Entre as meias de hoje feitas industrialmente e as meias artísticas, verdadeiras obras de arte artesanal, que distância no tempo, na qualidade e feitura. 

 

            Tenho numa vitrine um exemplar antigo. Uma meia de fio de linho, branca, tecida com cinco agulhas finas, com pontos complicados que formam folhinhas, flores, e diversos feitios, combinando abertos e fechados e, que ainda está bordada por cima com requintes de bom gosto e habilidade. Foi-me dada como sendo de uma de minhas avós e, com a explicação de que tal preciosidade, nem sequer era para ser vista senão pela própria já que as saias nesses tempos tocavam a biqueira dos sapatos. Das botinas, melhor dizendo, pois que até havia uns ganchos próprios - alguns com cabinhos de marfim e outros requintes - para fechar as abotoaduras  que alongavam tornozelo acima os canos do calçado, que pudicamente defendiam dos olhares cobiçosos ,ou, atrevidos,  todo e qualquer pormenor do físico feminino.

            Sòzinha sorria a estas lembranças como quem desvenda um arquivo ignorado.

            Jamais me ocorrera ter fixado tamanhas bagatelas e, a sua descoberta tornava-se- me divertida.

            Recordava perfeitamente as meias masculinas. Revia as ligas ajustadas debaixo do joelho com fivelas metálicas, e as presilhas com molas de prender penduradas uma de cada lado que mantinham as peúgas ou, peúgos esticadas a rigor, que via meu pai, meus tios e meu avô usarem...

            As polainas, com passadeira por debaixo da sola dos sapatos que todos os senhores usavam. Pensando nas diferenças ao comparar com os costumes de hoje, foi irreprimível a minha vontade de rir.

Reportei-me então à minha infância, quando pelas manhãs dos dias frios, nos equipávamos também com polainas de malha de lã, grossas e macias, cobrindo as meias como remate da indumentária invernosa e, para conforto evidentemente!

            As polainas deviam representar um sucedâneo, bem mais económico, da protecção e aconchego que davam os canos das botinas, penso eu...

            Anos mais tarde o uso indiscriminado das calças compridas para raparigas e rapazes havia, de substituir, com vantagem, tais acessórios.

            Das polainas às meias de lã tecidas à mão, e às meias de linhas de algodão, com cores berrantes que as mulheres do campo eram exímias em executar sentadas às portas conversando umas com as outras enquanto tomavam o fresquinho , ou aproveitavam a dádiva do calor do sol no tempo frio - foi um fluir de recordações que acordavam e se cruzavam como riscos de luz  dum fogo de artifício inesperado.

            Os desafios mal disfarçados de rivalidades de sabedoria apreendidos nos comentários: A fulana deita melhores biqueiras que a sicrana, mas em calcanhares

ninguém a bate! - Com que se alfinetavam as comadres no soalheiro das aldeias, apareceram por acréscimo à evocação das meias grosseiras que se usavam no campo e que consertadas e reconsertadas ficavam às riscas já que o sol e as lavagens se encarregavam de ir alterando as cores. Embora da mesma meada nunca o tom dos remendos se aparelhava com o esmaecido do trabalho primitivo já muito batido pelo uso.       

 

             Desta forma até as meias contavam os prodígios de poupança a que o viver dos pobres obrigava.

            “Remenda o teu pano que chegará ao ano! – se o tornares a remendar, tornará a chegar!”

            Ainda não chegara a fúria do consumismo. O poder económico do trabalhador do campo, já então, era uma figura de retórica...

            Enquanto isso, nas cidades, triunfava a meia de fio de Escócia. Quanto mais fina mais cara e mais frágil e mais elegante! E eram as raparigas a desejar substituir as peúgas por meias altas como testemunho de já serem umas senhoras. E era o irrecusável apelo dos jogos e brincadeiras próprias da pouca idade que transformavam essa vitória no mais lamentável desastre com buraqueiras e malhas caídas comprovativas da glória imerecida.

            Mas, quando já espigadotas “que charme” poder perguntar: - tenho o revesilho das meias direito? E as baguetes?- E as meias caídas? Mal esticadas? - Céus! Isso seria o cúmulo do descrédito!

            Não consentir na exibição desses sinais de desmazelo, era o máximo do apuro.

            “Menina prendada não é desmazelada “ era outro aforismo desse tempo em que havia como que um código de compostura pelo qual toda a gente se regia.        

            Penso que só por acaso alguma rapariga de agora saberá o que é um revesilho.

            No entanto estas memórias não estão muito longe no tempo, isto não é história de há séculos, mas sim do fim da primeira metade deste que agora se despede...

            Quando tudo começou a evoluir mais rapidamente, apareceram as fibras, e o nylon destronou sem piedade as conceituadas meias aparentemente instaladas como donas do mercado. As apanhadeiras de malhas que por detrás das meias portas ou nos vãos de escada gastavam os olhos, iludindo a pobreza, a troco duns escudos, para reconstruir, quase sem rasto ou com pequeníssimas cicatrizes aquelas finas teias de aranha em que as meias se tornaram foram desaparecendo na medida em que o consumismo foi triunfando e o usa e deita fora ganhou com segurança a guerra contra as poupanças

            Estamos no apogeu desse usa e deita fora. E a perna ao léu é uma conquista da liberdade de cada qual viver à sua realíssima vontade

Neste descontraído falazar que são por vezes estas conversas soltas calhou-me hoje lançar um olhar sorridente para coisas passadas, tão sem importância, que ninguém nelas pensa, mas que são capazes ainda de acordar reminiscências no coração de quem viveu esses tempos.

Se assim tiver acontecido, por um só sorriso, que tenha feito nascer a alguém mais só, ou mais triste, terá valido a pena evocar estas ninharias.

                                            

                                          Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.464 – 31-7-1998

Conversas Soltas

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