Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Para todos os comentadores
Por agora, deixo para todos um ternurento beijo pelo estímulo que o vosso apreço me tem dado para continuar...
Afectuosamente
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Carta do Brasil – I – 1996
Chegamos aqui num voou da TAP, que inesperadamente nos levou até ao Porto como primeira escala.
Com essa variante arranjamos 10 horas de viagem quando poderiam ter sido apenas nove.

Meia hora de Lisboa ao Porto e mais outra meia fechados no avião para retomarmos o nosso rumo aumentaram a chateza da viagem que, graças a Deus não teve percalços.
A comida era péssima – que a TAP – está cá com uma descontracção!...
Para matar o tempo – televisão – que nem olhei. Optei pela música, que escolhi ao meu agrado e me regalou.
Dormir em viagem?! Nada. Não é comigo.
Chegamos ao Rio cansados, pés inchados...
Mas... tudo bem.

Vista de cima a cidade do Rio de Janeiro perturba pela imensidade das suas dimensões. Parecem oito ou dez cidades das nossas todas juntas, mas, não se compara – para mim – com a beleza de Lisboa vista do alto.
Eram sete horas e vinte locais, quando o avião aterrou. Onze e vinte aí na nossa terra.
No aeroporto a Família em festa, aguardava-nos de máquina de filmar para registar o evento.
Depois dos abraços e das formalidades os primeiros telefonemas para “casa” a dar conta da viagem.
A primeira impressão que se colhe em terra é de largueza, de espaço e do verde vivo da vegetação exuberante.
O ambiente humano é como o das cidades portuguesas e espanholas de fronteira. Isto é: -- muita gente nas ruas, afabilidade no trato, desconcentração e à-vontade de quem estivesse a gozar férias.
Os nossos anfitriões estavam de carro. Olhei as bagagens com alguma preocupação. Não havia razão para tal. Era um V.Wagem “Quantum” que as engoliu sem custo e mais que fosse.
Por aqui tudo se baptiza com bom humor. Assim o nosso transporte é o “belo António” para “injuriar” o dono que trata os carros com excesso de zelo. (Fofoca de amigos!)
Logo que abastecidos, acomodamo-nos no carro e começamos a viagem rumo à região sul do Estado do Rio de Janeiro (antigo Estado da Guanabara). Lá fomos estrada fora entre as imensas filas de trânsito de camiões como é comum em todas as rodovias.

Sempre presente a sensação de imensidão de espaço. Quando se começa a subir para a montanha é que tudo muda.
Começam a surgir por todos os cantos “botecos”.
Parámos num deles “Belvedere” para tomar água de coco e comer pastéis fritos de banana e queijo.
Reabasteceu-se o carro no posto de gasolina anexo e reparei que também têm bomba de álcool.
Há por aqui muita viatura que usa esse combustível que dizem ser menos poluente.
Tínhamos o propósito de almoçar em Resende – que é a cidade mais perto do nosso destino.

A cidade é pequena. Lembrou-me “Ayamonte”.
No centro – o calçadão – onde as esplanadas se sucedem. Deixam apenas uma faixa de rodagem para os carros. As outras duas estão transformadas
Outro indício da pequenez do meio é que toda a gente se conhece.
Escolhemos para almoçar “Casa Blanca”.
Lá estavam no tecto as grandes ventoinhas do célebre filme.
Fabulosa a comida tipo caseiro.
Saladas variadissimas e iguarias típicas. Desde o feijão com arroz e farofa – obrigatórios – aos ovos de codorniz, passando por toda a espécie de grelhados – há de tudo, todos os dias. Só não serve jantares e o café ou chá no fim das refeições – á escolha – está incluído no preço da refeição que custa entre

Tivemos sorte com o tempo. Sempre soalheiro. O Outono aqui é a melhor estação. No Verão chove imenso.
Excluindo as estradas principais – os caminhos são péssimos.
A subida de Resende para a montanha faz-se por um verdadeiro trilho de cabras. Só covas e pedras. Parece um leito de um rio seco. Mas é o que há e quer os carros particulares quer o autocarro da carreira passam todos pelos mesmos percalços.
Compensa-nos a paisagem. Vegetação intensa e variada. Já anotei os nomes de imensas árvores.
Em flor, agora, estão três.
A Quaresmeira de floração roxa. Angico de floração amarela e a Spatódea florindo em vermelho vibrante.
Ainda se avista um ou outro Ipê roxo

A julgar pelo roxo acredito que sim. Tal como as olaias aí na nossa terra dá flor antes que lhe nasçam as folhas. Só que floresce em cachos redondos como hortênsias que ficam pendurados nos ramos como balões. É realmente muito bonita!
A roça – ou sítio – onde estamos, parece um jardim colocado na base da montanha a que se encosta.
Estamos a

Os macacos, em bandos, ao amanhecer e à tardinha vêm numa algazarra doida saquear os bananais nos locais mais isolados. Ninguém lhes dá comida porque por vezes se tornam violentos. Porém ao resto da bicharada toda a gente oferece protecção colocando comedores em sítios certos.

O meu encanto é um esquilo que todas as manhãs desce pelo pé de mamoeiro junto à janela e vem comer à mão nozes e amendoins.
Hoje, no fim da refeição roubou uma banana aos passarinhos e foi come-la à nossa frente numa rocha coberta de antúrios vermelhos em flor.
No alpendre da casa, suspensos, estão frascos com água bem açucarada para os colibris.
Porém, como até no paraíso tem que haver complicações há um – a que chamamos – “a bruxa” – que pousa constantemente na “Samambaiçu” ou na “Quaresmeira” frente a nós e vem atacar todos os colibris pequenos que ousem beber das garrafas que ela considera suas. Ontem à hora do almoço dois “tucanos” calmamente catavam comendo as tâmaras dum palmito.

Chego a pensar que é irreal a beleza que nos cerca.
Qualquer dia digo os nomes dos pássaros e das árvores que alegram aqui a nossa vida. Os nomes dos rios que já atravessamos e das cachoeiras onde já tomamos banho e mais um rol de coisas que nos dão a visão deste mundo diferente.

Até a figura do caseiro – “O Baiano” – é digna dum postal ilustrado. Parece criado a propósito para turista ver.
Qualquer dia escrevo outra vez para o jornal. É a maneira mais fácil para mim de dar notícias aos amigos todos de uma só vez.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.353 – 31 / Maio 1996
Conversas Soltas

