Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Os poliglotas
Tal como a vida não se constrói sobre as grandes catástrofes, embora elas alterem circunstancialmente tudo e todos, são, penso eu, as pequenas coisas, os pequenos gestos, que fazem o encanto ou o desencanto do nosso dia a dia e nos orgulham ou deprimem.
Hoje, de uma maneira geral, todos dependemos da informação que os noticiários de rádios e televisões, fornecem ao domicílio.
Há relativamente poucos anos eram, apenas, os jornais e revistas que nos facultavam esse precioso serviço que exerciam cultivando com rigor o uso da língua portuguesa.
Nada tenho contra o progresso. Antes pelo contrário; vivo extasiada com os avanços da técnica e da ciência que, agradeço a Deus, ainda posso apreciar e, nunca imaginei pudessem vir a acontecer.
Porém, o facto de ter um pé no passado e outro no presente, faz-me sentir como uma ponte por onde vejo passar indiscriminadamente aquilo de que gosto ou entendo, e, também aquilo de que não gosto, talvez porque não consigo entender!
E, uma das realidades que mais me agride, como indivíduo comum, natural do “Nosso País”, para alem dos atropelos constantes à língua portuguesa, que são por demais repetidos, é o uso e abuso de termos estrangeiros, principalmente em inglês, e de siglas, que proliferam na comunicação social e nos discursos de responsáveis pela governação.
Se é imprescindível o seu uso, ponham no canto inferior direito do écran um glossário para que se saiba a que “charadas” aludem.
Porque quem trabalha um dia inteiro fora de casa, e, ao jantar espreita o noticiário, gosta de entender do que lhe falam, ainda que não tenha tido oportunidade de ter cultura de ministro.
Nos noticiários proliferam termos em inglês, nos concursos de cantorias predomina o inglês, nos discursos dos políticos cá vai mais inglês e, por aí fora... Como se fossemos súbditos de Sua Majestade Britânica!

Pensemos então: quantos políticos estrangeiros usam a língua portuguesa quando nos visitam?
Quantos artistas internacionais cantam em português?
Que média de músicas ou canções portuguesas transmitem as televisões ou rádios estrangeiras?
Quantos termos em português usam no seu quotidiano?
Era interessante saber se não traduzem de imediato para os seus idiomas alguns com que sejam obrigados a conviver...
Como gostava de saber porquê Sócrates
nossa língua pátria, quando não domina o inglês a ponto de evitar ser depois ridicularizado [cito a revista Sábado de 4/10/07] pelo seu linguajar estrangeiro na recente visita que fez à Casa Branca, e, já antes, quando recebera o Primeiro Ministro do Luxemburgo?...se, é Portugal, que ele representa!
De onde lhes vem a obrigação de ser poliglotas, se em verdade o não forem, para dialogar com quem não faz questão de nos entender na nossa própria língua? – Não percebo!
E, os tradutores, para que servem?
Que usem variados idiomas na sua vida privada, nada temos com isso, mas ao representar Portugal falem e discursem em bom e escorreito português.
Outro facto que chego a recear seja propositado para que o cidadão comum fique longe da compreensão imediata dos acontecimentos, é o uso abusivo de siglas, que acaba redundando numa linguagem não acessível à maioria – e, resulta como se fora um idioma diferente.
Basta pensar que a supressão de uma Vida – a que o povo ainda hoje, à boca pequena, envergonhado, denomina de: - desmancho - porque sabe o que representa, também já deixou de ser designado, até, por aborto. Agora, em termos modernos é apenas – ivg!...
Como se assim se minimizassem os factos...
Como se o sol se tapasse com uma peneira...
Qualquer coisa tão insignificante como três “inocentes” iniciais...
Que mal tem? - É apenas uma maneira – Light! – De referenciar a diferença entre Vida e Morte!
Mas...o povo também canta:
- Com três letrinhas apenas
Se escreve a palavra Mãe!
Das palavras mais pequenas
A maior que o mundo tem.
Maria José Rijo
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Conversas Soltas
JORNAL LINHAS DE ELVAS
Nº 2.941 - 31 de Outubro de 2007

