Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e benzeduras XIII
“As linhas torcidas”
A senhora Isaura – a Ti Isarua – como era conhecida no monte e nas redondezas era especialista em benzeduras.
Viera numa leva de ceifeiros na força dum Verão ainda mais inclemente do que era habitual. Chegou com o bando dos “ratinhos” e foi ficando...ficando..., agora por isto, logo por aquilo, que ela era pau para toda a obra, e, às tantas, a bem dizer, já fazia parte da mobília! -- Ti Isarua faz a boia, - Ti Isarua vá lá aparar o bezerrinho, que o raio da vaca está com’á galinha pedrês – tem o ovo atravessado! -ti Isarua mate lá um frango, – Ti Isarua vá lá entreter as crianças...para tudo a Ti Isarua tinha préstimo.
Ti Isarua tem que cuidar do amojo da cabra malhada que na certa foi mamada por cobra, está luzindo de inchaço... e, assim por aí adiante!
Porem onde o seu saber tinha cátedra era no conserto de ossos fora do sítio, espinhelas caídas, entorces e outras maleitas afins.
Quase sempre à tardinha, se era no Verão, ou antes do almoço, se era no tempo dos dias pequenos, apareciam os mitigantes da sua sabedoria
Ti Isaura era ossuda, fortalhaça, pouco ou nada devia à formosura, mas tinha um jeito doce que agradava, era paciente com as lamúrias dos queixosos e tinha aquela habilidade de mãos que seduzia e sabia confortar.
Era solicitada com frequência para trabalhos fora, e por vezes, levava por lá dias e dias até voltar.
Então cochichava-se à boca pequena, isto e mais aquilo, -envenções como ela dizia, dessas malucas que nem sabem prantar um jantar ao lume!
Tá-se memo a ver que nem les respondo e acabou-se! Isso era o qu’elas queriam! Logo se calam! - Toda a conversa òs três dias esmorece.
E, assim, com estes despachos, encerrava o seu expediente.
Naquela tarde chegou uma cliente ainda nova empurrando à sua frente de escantilhão “de tabefe em tabefe “um rapazito que lamuriava sem cessar.
O que é isso mulher? - Largue o garoto e diga lá o que aconteceu, interveio conciliadora a ti Isaura que já havia sido avisada da necessidade de abrir a “consulta” Ora o que havera de ser! Voceia já sabe como são-nos moços; por mais qu’a gente diga. Pranta-te quedo! - Pranta-te quedo! Nã senhora, colam por cima dos tarrões e ospois vá de esmurrar as ventas e trocer as linhas.
Dexi-o a tomar conta das manas; qu’é fui fazeri uns mandados por mor de ganhar umas molhaduras e quando volti tinha desapracido e déchou as mocinhas fechadas à chave. Voceia já viu o cabrão do gaiato? - Já viu? - Isto só partindo-le os cornos e ospois ainda me volta desasado!
Já s’ontro dia se nã chego à justa matava -me a ermã mais pequena. Atão nã le ia dar o lete na almintolia do pitrole?
Já viu o que m’havia de cabedari? - Já viu?
Só a mim è que me cabeda esta sina...
Oh, moçada dum cabrão- com sua alicença - nem com uma calda de porrada de manhêm e outra à noite a gente os assocegava !
Entretanto mãe e filho carpiam as suas lástimas a Ti Isarua tirava da panela de ferro que se eternizava ao rés do lume uma pucarada de água fervente e dobrava-lhe sobre a boca uma toalha turca.
Sobre o pano humedecido com o vapor de água quente ajeitaram o cotovelo do rapazinho que imediatamente o retirou rezingando: está quente, porra!
Habituada a tal léxico Ti Isarua continuava, sem esmorecer, as suas funções
Sob a ameaça de mais algumas “orelhadas”o franganote magoado e ofendido acabou por acatar as recomendações e colaborar.
Quando eu precurar: o que é que ê coso tu dás de resposta: carne quebrada e nervo torto. Nã te esqueças mod’a reza dar certa qu’ê cá precuro tres vezes.
Então assumindo uns ares de seriedade de quem estivesse investida em poderes secretos começava, a Ti Isarua, depois de ter esfregado a região doente com azeite, a coser e recoser com uma agulha desenfiada num novelo de linhas e a recitar a milagrosa benzedura:

(Desenhos de Manuel Jesus)
Coso!
O que é que eu coso?
Vinha a resposta: - carne quebrada e nervo torto
Isso mesmo é que eu coso
Carne quebrada volte ao seu lugar
Nervo torto volte ao seu posto
Melhor cose a Virgem que eu coso
Que eu coso pela carne
E a Virgem cose pelo osso
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Padre-nosso e Avé – Maria
O rapazote, a fungar, esfregava o nariz na manga do braço são, para enxugar o pingo e as lágrimas mas submetia-se com docilidade.
Voltando a friccionar o cotovelo, – que na circunstância já estava vermelho como um pimento, – outra vez com azeite, terminava o tratamento que se repetiria três dias seguidos e sempre seria acompanhado da mesma recomendação: - agora agasalha bem o cotovelo p’ra não constipares o braço não seja o caso de ainda por cima apanhares erisipela!
Depois com uma palmadinha amigável, discretamente, a Ti Isarua meteu uma guloseima no bolso do rapazinho que, finalmente, mostrou um sorriso aberto de criança.
Respondendo: - não é nada! Deixe-se lá dessas coisas...à inquietação da consolente, Ti Isarua ficou encostada à parede do “monte” a vê-los afastar.
A mãe já serena pusera o braço sobre os ombros do garoto aconchegando-o a si.
Nos ouvidos de Ti Isarua a frase de despedida:
A pobreza é uma desgraça! - A gente pede às crienças favores qu’eles nã têm-na idade de fazer, mas é a precisão... e ospois, coitadnhos, ainda “as mamam” por cima....
Maria José Rijo
@@@@@
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.445 – 20 – Março - 1998
@@@
Para adquirir um exemplar deste livro de Rezas e Benzeduras
Deve remeter o seu pedido ao Jornal Linhas de Elvas


