Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e Benzeduras XIV
A Loja do senhor Camacho

(( Desenhos de Manuel Jesus))
A loja fazia esquina com a estrada nova (assim era designada a estrada nacional) e uma ruela mal calcetada como, alias, eram todas as ruas das aldeias do Baixo Alentejo há 50 anos.
Havia na aldeia uma certa profusão de “vendas”, mas, loja, loja, digna desse nome só mesmo aquela o que conferia ao seu proprietário e família um estatuto de pessoas importantes.
Não que tivesse montra ou qualquer sinal de beleza; apenas uma tabuleta esmaltada com o símbolo dos C.T.T, assinalava funções diferentes. Nas ”vendas” para além de algumas bugigangas o que mais se procurava era vinho, enquanto que na loja havia meadas de linhas para dobar e fazer meias, riscados, cotins, serrubecas, pano cru, chitas, flanelas, estamenha, xailes, lenços, – que, crepe da China e popelines, só por encomenda. Como sinal de civilização vendia jornais, – o Século, e o Notícias mas, apenas dois ou três exemplares (que ler era um luxo) e selos de correio, mas também, feijão, grão, e muitas outras coisas mais... cordas, ratoeiras, armadilhas para pássaros, chocalhos para o gado, etc. etc. etc...
Até na forma de vestir o senhor Camacho era diferente.
Jamais alguém se poderia gabar de o ver por detrás do balcão da sua loja sem estar de casaco, colete, gravata e camisa de colarinho engomado.
Às vezes usava guarda - pó, mas, mesmo esse “bibe” de riscado cinzento listadinho de preto lhe conferia um ar de dignidade que ia a matar com o seu rosto sério, o seu bigode muito bem aparado e a sua barba muito escanhoada. O senhor Camacho era um dos grandes da aldeia; como era o ferrador (investido também na dignidade de regedor) e o dono da moagem. A estes distinguia-os o facto de não serem analfabetos porque os outros homens importantes eram os lavradores e, a esses, como aos fidalgos no exército, nada mais lhe era requerido. Do que ser rico ou ser fidalgo.
Nos dias de receber a jorna ou, quando acabavam as “adiafas” o movimento da loja crescia de forma inopinada, não tinha nada que ver com a ronceirice do dia a dia. Então, a dona Aninhas, sua recatada esposa, abria a porta de ligação entre a casa e a loja dirigia um cumprimento a todos em geral, instalava-se à secretária, pegava no livro dos assentos e ia dando baixa nas listas do: - ” aponte aí, tenha lá paciência, qu’ê cá levo fiado mas, pago assim quê possa!”que enchiam o livro comprido e estreito, de capa preta, que guardava o registo da penúria daquela pobre gente que, tal como as searas, dependiam do tempo a favor para crescer, também dependiam do tempo para trabalhar e ter que comer.
Dona Aninhas era mouca, e tal como o marido, sem ser velha, também não se diria que fosse jovem, tinha um tom de voz velado, um arzinho nostálgico de funda tristeza (sofria de enxaquecas, males, que o povo não entendia, nem podia entender, já que tinha boa mesa o ano inteiro e criada ao seu serviço que, aliás viera junto com o bragal de casa de seus pais); assim que todas as conversas com ela começavam invariavelmente pela delicada informação das melhoras da senhora que curvando-se um pouco para o interessado amavelmente lhe estendia a corneta acústica para receber a resposta. As comunicações não passavam mesmo disso, já que com aquela minúscula
Campânula de gramofone de permeio o constrangimento entre credor e devedor sofria mais esse atrito.
Dona Aninhas dizia: - uma quarta de toucinho, dois côvados de cotim, uma onça de linha roxa, tantos arrateis de açúcar...etc. etc. etc...
A freguesa conferia as parcelas enumeradas pelo monte de papelinhos que trazia fechados na mão, então, molhado o aparo no tinteiro de tinta vermelha, com uma cruz por cima do apontamento se amortalhava o débito.
Algumas vezes, porém, o rame, rame, desta contabilidade era cortado; bastava começarem-se a ouvir ao longe as guiseiras do macho da carrinha do correio. Então como formigas num formigueiro esventrado, atabalhoadamente, quase em atropelo a loja enchia-se de gente espectante de curiosidade.
Aberta a mala da correspondência começava a distribuição.
Numa voz clara o senhor Camacho lia os nomes. Mãos ávidas recebiam cartas e
postais. E, afastavam-se quase tão rapidamente como tinham surgido. Discretamente, pelos cantos, iam apenas ficando aqueles que não sabendo ler e não tendo em casa quem lho fizesse dependiam de dona Aninhas ou do senhor Camacho para a decifração das mensagens.
Para Mariquinhas, a filha do casal, era essa a hora mágica do deslumbramento! - e quando seu pai começava aquelas leituras, apertava ainda mais ao peito a sua boneca francesa com cara de porcelana, e ficava imóvel como que petrificada com os olhitos estrábicos emoldurados pelos enormes óculos redondos fixando a cena sem pestanejar ...
“ Mana Zefa
A tal mulheri que tinha o livro de S. Supriano já nã mora no monte do olivali.
Contou-me a nora dela, a Ludres, você alembra-se? era aquela qu’era falada com o managero; qu’o patrão assim que esconfiou qu’ela fazia aquelas bruxices e détava as cartas e esputava alfinetes nos sapos p’ra fazer mal ás criaturas, pos‘i-a no olho da rua.
A modos que se voceia queri chegari ás falas com ela, peça à Marianita do correio qu’a traga na carrinha qu’ela agora ‘stá morando p’rós lados da Mina na casa do neto aquele que le chamam o Chico Torto.
Se voceia quer tirar as provas já sabe. Mas ouvi dezer que comeri um ovo de cigonha frito bubido com vinho forvido com funcho faz desenmaginar da bubida e p´ra mais reze-le a reza que le mando por mor de le sair o diabo do corpo e do esprito-cruzes ,cruzes, cruzes !... De resto faça-le a cruz de sali pro baxo do cólchão e vai a ver qu ‘ele s’emenda, dexa as buboderas e dexa de le dar porrada. A gente est’ano tem uma bela lera de pupinos e uma grande novidade de molões.
Se voceia vieri leva p’ra si e p’rós mocinhos.
Atão já sabi. O pessoal daqui manda-le visitas
Sua ermã
Donzelica
Atão a reza é assim : Oração para afastar o diabo - Olhe, foi a Custoidinha do Posto da ‘scola qu’a tirou p’ra ela do livro de S. Supriano e agora deu-ma a mim p’ra ê l’a dari a si .É boa criatura sempre dá uma mão òs pobres”
Eu me entrego a Jesus
e à Santíssima Cruz,
ao Santíssimo Sacramento,
ás três relíquias que tem dentro,
ás três missas de Natal,
que me não aconteça nenhum mal.
Maria Santíssima seja sempre
comigo, o anjo da minha guarda
me guarde e me livre
das astucias de Satanás.
Pai Nosso
Ave Maria
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.446 – 27-Março-1998
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