Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
A partida das andorinhas
“Uma velha tinha um gato, debaixo da cama o tinha. O gato miava, o pinto piava e a velha dizia: mil raivas vos persigam – que não vos posso aturar!”
Não! - Não é a velha história!
Esta é diferente.
Eu tinha um gato. - Até aqui coincide. No resto é completamente distinta esta narrativa.
O meu gato chamava-se Picolino e era filho da gata Bambina.

Ambos eram de boa estirpe. Casta apurada.
Eram persas, mas exprimiam-se no idioma universal dos felinos. Miavam.
Noutras ocasiões, davam marradinhas nas nossas pernas, pulavam-nos para o regaço e, mesmo sem miar a gente entendia o que eles queriam fazer entender.
Não é que as pessoas falem língua de gato ou de cão.
Não, não é isso.
A verdade é que quando as pessoas assim o pretendem, todas são capazes mesmo sem palavras, de falar e entender a linguagem do amor.
Mesmo que seja do afecto por um animal de companhia.

Ora, naquele dia em que as andorinhas irrequietas esvoaçavam, treinando o voo da partida, fugindo ao frio, rumo à rota das temperaturas amenas, tendo eu as janelas abertas de par em par, para não perder aquela bela mensagem do Outono a instalar-se entre nós, percebi que o meu gato estava impaciente porque queria cuidar de si e, eu, andando de um lado para o outro não lhe dava paz.

Ajeitei uma pequena poltrona no vão da janela, acomodei-me nela com gosto, agarrei nas meias que tinha para cerzir e, por ali me quedei, gozando a bela tarde daquele dia, agora já bem distante.
Ainda se cerziam meias! - Veja-se! a que distância no tempo isto aconteceu...
Então o meu gato que gostava de seguir os meus passos como uma sombra silenciosa sentou-se no chão, bem na minha frente, e começou a lamber as patas e a esfrega-las pelo focinho, lavando as orelhas e penteando os bigodes com a delicadeza e a suavidade que caracterizam os movimentos de um gato bem disposto, que se presa!
Eu olhava-o apreciando como são elegantes as atitudes dos gatos. Como são meigos e mansos quando descuidados e confiantes e pensava como são ardilosos, falsos e agressivos, se por qualquer razão se tornam desconfiados.

Então toda aquela doçura se esvai, arqueiam o lombo para parecerem mais volumosos, eriçam o pêlo, silvam como serpentes, acendem chamas nos olhos e, as tais patitas almofadadas de pelúcia e cetim desembainham como lancetas afiadas, as suas unhas retracteis capazes de cegar, ou ferir, qualquer incauto.
Ora acontece que enquanto eu assim pensava, olhando-o, o meu gato se apercebeu, talvez por algum chilreio de tom mais elevado do esvoaçar das andorinhas tão ansiosas que pareciam recear esquecer-se de realizar alguma tarefa importante.
Penso que elas andavam num difícil trabalho de contagem, dificultado pela irrequietude das componentes do bando. Por certo, seria isso.

Então, de repente levantaram voo dos fios dos telefones onde se passavam estes ensaios que referi, e, a pouco e pouco foram desaparecendo do meu horizonte.
Mas o curioso da história é que foi através dos olhos do meu gato que eu presenciei a partida das andorinhas.
Quando ele se apercebeu daquele burburinho e vaivém, ficou extasiado, imóvel olhando...Nos seus grandes olhos verdes, a sombra daquelas asas em movimento reflectia-se como num espelho. Tremiam-lhe os bigodes, pela força da cobiça. Emitia uns sons velados como gemidos ou suspiros, e, quando o rectângulo de céu que a janela lhe mostrava ficou apenas enfeitado com umas leves nuvens brancas, começou a miar para que eu o seguisse, o que fiz. Levou-me até junto do prato onde sempre comia.

Olhou-o, virou-se e começou a raspar como os gatos fazem, quando querem tapar alguma porcaria.
Em seguida, com um jeito de resmungão, ostensivo, foi deitar-se na sua almofada para mostrar claramente que os petiscos dos seus sonhos - tinham asas...
Maria José Rijo
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Revista Norte Alentejo
Novembro 2001 – nº 15
Crónica

