Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e Benzeduras XV
“Uma boa achega”
Uma ilustre elvense destas que a profissão ou a vida situou lá longe – e vivem não sei como! Pois que têm o coração por aqui. - Enviou-me uma preciosa achega para esta série de ”rezas e benzeduras”.
Trata-se, como também, com Maria Isabel de Mendonça Soares, de outra ilustre escritora, refiro-me a: Maria do Céu Cavalheiro Ponce Dentinho.
Logicamente que nunca me atreveria a trocar uma vírgula sequer da bela história que me foi oferecida -. a mim e aos meus leitores - aliás, cada oração que na infância se decorou traz com ela ao ser recordada todo o peso das circunstâncias que com ela se viveram e às vezes até a voz de quem connosco ou para nós a rezou .
Céu Dentinho, lembra assim:
“Havia na casa uma tradição, só de mulheres, a realizar uma vez por ano mas com pompa e circunstância...
. No dia 25 de Março, da Anunciação, era costume de as senhoras da Família se reunirem em casa da mais velha, ao tempo dos meus poucos anos era a avó Maria do Carmo, para cumprir uma devoção. No seu lindo quarto de vestir estava o oratório, cheio de imagens, fitas, dourados e velas e em frente nos ajoelhávamos. A luz vinha de um pátio com clarabóia. Era uma oração que era uma poesia, em que a gente se persignava cem vezes e rezava cem Avé-Marias, alternadamente e a cada uma se levantava e ajoelhava, portanto cem vezes...
Como se fossem dois terços. E em cada mistério vinha a oração que era assim:

(( desenhos de Manuel Jesus))
Ergue-te, alma minha,
com Deus e a Virgem Maria,
Lembra-te que morrerás,
Não morrerás mas viverás.
No vale de Josafá
O inimigo encontrarás,
Da parte de Deus lhe dirás
Arreda de mim Satanás
Que em mim parte não terás...
Porque no mundo aonde andei
Cem vezes me ajoelhei
Cem vezes me persignei
Cem vezes disse Amen.
No dia em que a Virgem
Encarnou o Verbo Divino, Amen.
A Avó dirigia. Começava – todas respondíamos. E era também a Avó que ralhava – porque havia sempre quem tivesse vontade de rir ou se enganasse no ritual – novos risos. Depois, havia interrupções – felizmente! De uma vez veio alguém avisar que os bolos estavam fintos, de outra passou uma procissão e lá fomos todos para a janela. E havia sempre chá e enchovalhada para completar a tarde.
Assim rezávamos aquela poesia que era uma oração, as 100 Avé-Marias tradicionais. Essa, a tradição, é que já não tinha anos para serem contados. Parou quando a Avó partiu para o outro lado da vida. Mais uma conta do rosário dos perdidos.”
Enquanto alguém recorda as coisas que estando longe no tempo se conservam na lembrança continuamos a poder dizer que permanecem vivas nos nossos corações...
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.448 – 10-Abril – 1998
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Este livro de Rezas e Benzeduras poderá ser adquirido
na redacão do Jornal Linhas de Elvas


