Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e benzeduras XII
Entro na sala de espera do Hospital da Vila e, depois de cumprimentar, sento-me entre gentes da terra e enovelo-me no meu abafo semicerrando os olhos, como se dormitasse, para que pudesse recomeçar o falatório, que, pressinto, cessara com a minha aparição.

( desenhos de Manuel Jesus)
Ainda não aquecera lugar, quando um velhote, no outro canto, comentou, julgando falar baixo:
- A que fede?
- A água de chêro -- respondeu-lhe a mulher.
- Empesturices! - Resmungou ele.
- Cala-te qu’a criatura ouve; julgas qu’é tudo mouco com’a ti?
-- Tá bem, dêxa! - Tornou ele a rezingar, voltando-se de costas para a companheira, em jeito de amúo.
(O mulherio presente ria à sucapa com gozo matreiro, olhando-me) Nem pestanejei com receio de denunciar o meu deleite pela cena, e assim, a breve trecho, a conversa retomou o fio.)
-......atão foi memo na tu rua e tu nã deste por nada?
-Nã di! - Nã di! - Nã bradaram por nenguém, nem ouvi falas, ó chôros de rijo...
-Ê cá ouvi os dobres, mas pensi que fosse a asilada que está p’ra acabar desde transantontem
. Transantontem? --Ò tempo que o doutor a despediu!
- Mandem apregoar a pobre! Queres veri qu’ a mulher comeu carne de grou sem saberi?
-Xi! S`é parva!
- Parva a quêi? - Tem havido casos... é só o pregoêro, ir à meia-noite, bradar a três esquinas:
“Senhor fulano de tal
Deus o quera perdoari
Quer passari e nã passou
Porque comeu carne de grou!”
e a criatura assocega logo!
-- Então a que já comentara: xi s’é parva! - Disse risonha:
-- Olha, como o pregoêro já morreu, apregoa-a tu, já que nem pranteaste a tu vizinha Parreirinha.
--Vái mangar pr’a uma parte qu ‘ê cá sei - respondeu a interpelada, que acrescentou :
- Estas, em pondem as moças no “circulo”, até parece que tamém têm letras - sabem de tudo !
- Nã di por isso ! - Nã di, atão!
Nã se vá sem resposta, - atalhou outra, - que quando morreu o mê tio, agente morava nos baxos e a nha tia, pr’a nã acordar nenguém, andou descalça a vesti-lo e amortalhá-lo e só de manhã é que deu a saberi à genti.
O quêi?... - Interferiu a que galhofara do pregão - atão morre-le o homem e ela fica-se só com o defunto sem abrir olho nem buraco ?
Atão! É mulher de corage!
Corage? - Pergunta-le lá, se ela já tinha algum “amigo” escondido debaxo da cama, e nã queria qu’ o vissem fugiri!
Cada um, éi, como éi! Replica a “sobrinha” agastada, mas, logo o velho a tossir, sacudido de riso, diz bem alto:
- Raio de mulheri qu’é mesmo desbocada!
E, depois já mais calmo e ainda risonho acrescentou:
- Essa mulheri, essa tal Parreirinha – tive cá pensando – era da minha edade
Tinha os seus oitenta e quatro – ainda balhi com ela quando eramos moços
-Alarvêrão! - Já nem ata as botas, mas dos balhos alembra-se...
(Não resisti. Ri, como toda a gente, tanto mais que o velho com os seus olhinhos escuros brilhando de malícia levantou a mão simulando ameaça e disse jovial:
-Queres uma orelhada? Queris?
-Alarverão! - Repetiu a mulher confusa sorrindo e corando com um pudor antigo de rapariga.
-Ela morreu soltêra? - Insistiu curiosa a folgazona.
-Pois! - Assentiu o velho que explicou: - Nunca di que namorasse.
- Mas ela nã teve fora lá pr’o Barrero, ó pr’o Lavradio, a coidar duma madrinha que lhe dexou as casas!
-Teve, teve! Concordaram todos
-Atão pode ser que tenha namorado por lá! - –Confortou-se esperançada a brincalhona muito séria desta vez.
Depois, levantou-se, foi abanar a amiga que persistia calada no seu ar ofendido; e disse-lhe com bondade:
-Desenchofra-te mulheri! Qu’ê fali de reinação! - E sem mais palavras foi encostar-se à janela que abriu de par em par e ficou a olhar para fora, pensativamente.
O ar dos campos inundou o ambiente.
Então o velho respirando fundo, disse com prazer:
Chêra bem! Chêra a terra acabada de lavrari!...
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.443 – 6-Março-1998
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Este livro foi publicado em Novembro de 2000
Para conseguir adquirir um exemplar tem de
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Para todos os comentadores
Por agora, deixo para todos um ternurento beijo pelo estímulo que o vosso apreço me tem dado para continuar...
Afectuosamente
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Carta do Brasil – I – 1996
Chegamos aqui num voou da TAP, que inesperadamente nos levou até ao Porto como primeira escala.
Com essa variante arranjamos 10 horas de viagem quando poderiam ter sido apenas nove.

Meia hora de Lisboa ao Porto e mais outra meia fechados no avião para retomarmos o nosso rumo aumentaram a chateza da viagem que, graças a Deus não teve percalços.
A comida era péssima – que a TAP – está cá com uma descontracção!...
Para matar o tempo – televisão – que nem olhei. Optei pela música, que escolhi ao meu agrado e me regalou.
Dormir em viagem?! Nada. Não é comigo.
Chegamos ao Rio cansados, pés inchados...
Mas... tudo bem.

Vista de cima a cidade do Rio de Janeiro perturba pela imensidade das suas dimensões. Parecem oito ou dez cidades das nossas todas juntas, mas, não se compara – para mim – com a beleza de Lisboa vista do alto.
Eram sete horas e vinte locais, quando o avião aterrou. Onze e vinte aí na nossa terra.
No aeroporto a Família em festa, aguardava-nos de máquina de filmar para registar o evento.
Depois dos abraços e das formalidades os primeiros telefonemas para “casa” a dar conta da viagem.
A primeira impressão que se colhe em terra é de largueza, de espaço e do verde vivo da vegetação exuberante.
O ambiente humano é como o das cidades portuguesas e espanholas de fronteira. Isto é: -- muita gente nas ruas, afabilidade no trato, desconcentração e à-vontade de quem estivesse a gozar férias.
Os nossos anfitriões estavam de carro. Olhei as bagagens com alguma preocupação. Não havia razão para tal. Era um V.Wagem “Quantum” que as engoliu sem custo e mais que fosse.
Por aqui tudo se baptiza com bom humor. Assim o nosso transporte é o “belo António” para “injuriar” o dono que trata os carros com excesso de zelo. (Fofoca de amigos!)
Logo que abastecidos, acomodamo-nos no carro e começamos a viagem rumo à região sul do Estado do Rio de Janeiro (antigo Estado da Guanabara). Lá fomos estrada fora entre as imensas filas de trânsito de camiões como é comum em todas as rodovias.

Sempre presente a sensação de imensidão de espaço. Quando se começa a subir para a montanha é que tudo muda.
Começam a surgir por todos os cantos “botecos”.
Parámos num deles “Belvedere” para tomar água de coco e comer pastéis fritos de banana e queijo.
Reabasteceu-se o carro no posto de gasolina anexo e reparei que também têm bomba de álcool.
Há por aqui muita viatura que usa esse combustível que dizem ser menos poluente.
Tínhamos o propósito de almoçar em Resende – que é a cidade mais perto do nosso destino.

A cidade é pequena. Lembrou-me “Ayamonte”.
No centro – o calçadão – onde as esplanadas se sucedem. Deixam apenas uma faixa de rodagem para os carros. As outras duas estão transformadas
Outro indício da pequenez do meio é que toda a gente se conhece.
Escolhemos para almoçar “Casa Blanca”.
Lá estavam no tecto as grandes ventoinhas do célebre filme.
Fabulosa a comida tipo caseiro.
Saladas variadissimas e iguarias típicas. Desde o feijão com arroz e farofa – obrigatórios – aos ovos de codorniz, passando por toda a espécie de grelhados – há de tudo, todos os dias. Só não serve jantares e o café ou chá no fim das refeições – á escolha – está incluído no preço da refeição que custa entre

Tivemos sorte com o tempo. Sempre soalheiro. O Outono aqui é a melhor estação. No Verão chove imenso.
Excluindo as estradas principais – os caminhos são péssimos.
A subida de Resende para a montanha faz-se por um verdadeiro trilho de cabras. Só covas e pedras. Parece um leito de um rio seco. Mas é o que há e quer os carros particulares quer o autocarro da carreira passam todos pelos mesmos percalços.
Compensa-nos a paisagem. Vegetação intensa e variada. Já anotei os nomes de imensas árvores.
Em flor, agora, estão três.
A Quaresmeira de floração roxa. Angico de floração amarela e a Spatódea florindo em vermelho vibrante.
Ainda se avista um ou outro Ipê roxo

A julgar pelo roxo acredito que sim. Tal como as olaias aí na nossa terra dá flor antes que lhe nasçam as folhas. Só que floresce em cachos redondos como hortênsias que ficam pendurados nos ramos como balões. É realmente muito bonita!
A roça – ou sítio – onde estamos, parece um jardim colocado na base da montanha a que se encosta.
Estamos a

Os macacos, em bandos, ao amanhecer e à tardinha vêm numa algazarra doida saquear os bananais nos locais mais isolados. Ninguém lhes dá comida porque por vezes se tornam violentos. Porém ao resto da bicharada toda a gente oferece protecção colocando comedores em sítios certos.

O meu encanto é um esquilo que todas as manhãs desce pelo pé de mamoeiro junto à janela e vem comer à mão nozes e amendoins.
Hoje, no fim da refeição roubou uma banana aos passarinhos e foi come-la à nossa frente numa rocha coberta de antúrios vermelhos em flor.
No alpendre da casa, suspensos, estão frascos com água bem açucarada para os colibris.
Porém, como até no paraíso tem que haver complicações há um – a que chamamos – “a bruxa” – que pousa constantemente na “Samambaiçu” ou na “Quaresmeira” frente a nós e vem atacar todos os colibris pequenos que ousem beber das garrafas que ela considera suas. Ontem à hora do almoço dois “tucanos” calmamente catavam comendo as tâmaras dum palmito.

Chego a pensar que é irreal a beleza que nos cerca.
Qualquer dia digo os nomes dos pássaros e das árvores que alegram aqui a nossa vida. Os nomes dos rios que já atravessamos e das cachoeiras onde já tomamos banho e mais um rol de coisas que nos dão a visão deste mundo diferente.

Até a figura do caseiro – “O Baiano” – é digna dum postal ilustrado. Parece criado a propósito para turista ver.
Qualquer dia escrevo outra vez para o jornal. É a maneira mais fácil para mim de dar notícias aos amigos todos de uma só vez.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.353 – 31 / Maio 1996
Conversas Soltas

