Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
À beirinha do Natal
É sempre com um espírito diferente, daquele do dia a dia comum, que se faz esta caminhada do advento.
Quer queiramos quer não, assim como o sol e a chuva, o frio ou o calor influenciam os nossos comportamentos, assim também as festas religiosas como que “contaminam” até o ar que se respira e, crentes e não crentes, se deixam empolgar por lembranças, evocações que conduzem a memórias guardadas no segredo de todas as almas, pelo mistério das nossas sensibilidades.
E, assim como se prepara a nossa aparência usando o melhor fato e, a nossa mesa, procurando paladares e aromas de petiscos tradicionais, para receber familiares e amigos, assim também nos corações deixamos que a ternura e o perdão amolecem as resmungos e impaciências do dia a dia e os afectos como que floresçam nos sorrisos e nos abraços de cada reencontro.
E, se é certo que a dor das grandes perdas permanece como um lastro pesado no fundo de cada um de nós, não é menos certo que o triunfo da Vida, consiste em saber que o sol, ainda que não o vejamos, nasce todos os dias, e com ele a esperança se renova.
Assim que os desejos bons que não concretizamos, as palavras que calamos e quereríamos ter dito na hora certa a quem talvez as tivesse esperado em vão, e sofresse porque as silenciamos; a companhia que não fizemos a quem triste e só, se possa ter pensado esquecido de todos; a mão que não estendemos a quem já sem forças se rendeu ao desalento porque lhe faltou esse apoio...
Tudo o que achamos que não valia a pena termos feito porque outros o fariam melhor, ou porque a preguiça nos enredou...tudo, nos apareça em consciência, como brasas, ainda vivas, sob as cinzas dos tempos que não soubemos viver plenamente e nos sacuda e nos acorde para uma fome implacável de redenção.
Porém, logo a seguir, perdoamo-nos a nós mesmos porque não somos os salvadores do mundo, não temos tempo para tudo, que é muita coisa, que fizemos o melhor que sabíamos, e mais isto, e mais aquilo, que ninguém é perfeito, e, quase logo, logo, estamos com pena de nós...
Então, como quem ingere um tranquilizante, que muito embora nada cure, tudo esbate e adormece por momentos, aqui estamos nós, ano após ano a despachar quilos de postais e cartas pelo correio com as saudações (de preferência já impressas, para maior facilidade!) a que justapomos apressadamente a nossa assinatura.
E, assim embalamos os nossos sonhos mais altruístas na vulgaridade dos nossos gestos...
Reconheço!
Reconheço, e deploro os remedeios que quase sempre substituem as mais nobres intenções, porém, aqui me rendo publicamente, fazendo para meu uso, a escolha que – também – mais à mão me calha por me parecer a mais lógica para chegar a todos os meus possíveis Leitores, ao Director e a todos os Trabalhadores do “Linhas” bem com a suas famílias os melhores desejos de Boas-Festas, e de um Santo Natal.
Votos que expresso, também – com muita esperança – para a nossa Cidade, tão à mercê das marés...
Maria José Rijo
P.S.
Aproveito, ainda, para agradecer, cartas e referências que me têm dirigido, através do jornal, de forma tão amiga, que, muitas vezes, têm sido “a mão” em que me apoio para ir em frente.
Bem hajam!
Maria José
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.845 – 22-Dez. -2005
Conversas Soltas
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A escrita e o tempo
Quer queiramos, quer não, tudo o que nos cerca tem influência no nosso ritmo de vida.
Até o tempo. Ou melhor, especialmente o tempo.

E, já nem me refiro ao tempo condições atmosféricas.
Penso que todos reconhecemos que um dia luminoso tem sobre nós a influencia positiva que um dia sombrio ou chuvoso, não oferece.
Porém, mais do que as condições atmosféricas: o tempo - época; quero dizer: - Natal, Páscoa...agarram-se á consciência de cada pessoa como se fora um atributo, um sinal, um jeito, quase um desígnio incontrolável, que nos altera o comportamento.

Retornam do passado as lembranças arrumadas na memória, que tantas vezes julgamos sepultadas no esquecimento.
Aparecem-nos vivas, frescas, viçosas como acontecidas na hora, cores, tons de voz, gestos, situações, presenças, perfumes...

Talvez que no Natal todos nos sintamos mais dispostos à ternura, ao perdão e ao amor porque todos nós deixamos reviver nos nossos corações as crianças que fomos. Todos nos enternecemos com o sonho e a esperança que canta inconsciente no olhar das crianças e, sem remissão, mesmo aqueles que o negam, deixam aflorar ao espírito alguma reminiscência mais teimosa que persiste em sobreviver...
São as toalhas de mesa que só em aniversários e festas aparecem...
É a mesa, mais farta, onde azevias e nógados, imiscuem o cheiro de fritos com o perfume exótico da canela...

São as conversas cruzadas de amigos e familiares que se cumprimentam e procuram porque é Natal...
É a troca de segredos de receitas novas de petiscos especiais provados algures, em festas ou viagens...
É o por em dia das novidades de casamentos, mortes, doenças e nascimentos...
É o exibir de testemunhos: - Retratos das bodas, baptizados, comunhões, queima de fitas, praxes, festas...
É a troca de lembranças...
É o aquecer do coração no convívio de que se faz o melhor da Vida...
É, até, um bocado de poema que na adolescência se escreveu, e nos martela na memória quase ininterruptamente...
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...eu lembro-me ainda!
E como esquecer o mundo das gavetas,
Proibido de mexer?
As malas da Avózinha e das Tias,
Que só elas abriam...e em certos dias!...
Ai, encantos meus!
Retalhos de seus encantos...
Que punham cobiça em meus olhos
E nos seus névoas de pranto!...
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Minha Avózinha morreu...
Não mais mexe em suas malas,
Agora, mexo-lhes eu!..
É também isto o Natal. Passagem de testemunho de tradições, heranças de Amor que cabem nas almas de todos, pobres e ricos, velhos e novos... e, também, tema obrigatório até para divagar, quando se escreve seja lá o que for que sempre se remata, por este tempo, com a cordial saudação de:
- Boas Festas!

Assim seja!
Maria José Rijo
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Norte Alentejo








