Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Conversas de Natal
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.637 – 21 de Dezembro de 2001
ENTREVISTA Sraª. D. Maria José Rijo
Conversas de Natal
“Gostaria de fazer uma viagem no tempo”
Desde os tempos mais remotos que o Natal é um dos momentos mais maravilhosos na infância de uma pessoa. Maria José Rijo, com a grande experiência de vida que tem, atravessou várias fases da quadra natalícia. A mudança dos costumes e da tradição não lhe são indiferentes.
Cresceu num meio e num tempo em que a festividade era uma época de sonho e continua a acreditar que só é Natal se se tentar manter esse espírito.
Num tempo em que não se dizia Natal, mas sim “a festa” , o “mês do Menino” , ou ainda “vamos festejar o nascimento”, todos estavam muito ligados à figura de Jesus. Essa era a base da alegria do momento.
Com a televisão, “todos estes sentimentos são vendidos ao desbarato”. As pessoas perderam a noção do que é verdadeiramente original. Enfeita-se a porta de casa, a árvore de Natal, mas apenas se estão a cultivar os sinais exteriores. O Natal é, ou deveria ser, acima de tudo, uma festa de interiorização.
Linhas de Elvas (LE) –> O que recebia no Natal quando era criança?
Maria José Rijo (MJR) –> Recebia bonecas, mobílias em miniatura, chocolates. Não tínhamos muitos brinquedos. Recebíamos alguns jogos, dominó, o jogo da glória, o loto para brincarmos ao serão, quando estávamos doentes ou quando estava a chover e não podíamos ir para a rua. Havia sempre alguém que estivesse disponível para brincar connosco. Não tínhamos a abundância que se tem hoje, em que cada criança tem uma loja. Na altura dizíamos: “a minha boneca, a minha caminha, o meu jogo” , porque tínhamos apenas um. Identificávamo-nos mais com as nossas coisas.
(Registo- Trabelho de Maria José )
L.E. -> A Tradição ainda é o que era?
MJR -> Não. Principalmente porque se cultiva muito o exterior.
No meu tempo as crianças tinham um leque de cobiças, mas, por outro lado, identificavam melhor o prazer das coisas.
Os chocolates bons, as caixas bonitas de chocolates, as ameixas de Elvas chegavam ás nossas casas pelo Natal. As coisas não estavam banalizadas.
Hoje as crianças têm tudo sem apreciarem nada, não sonham com coisa nenhuma.
O facto das mulheres terem ganho o direito de trabalhar fora de casa, fê-las relegar os meninos um pouco para a prateleira. As crianças têm necessariamente menos qualidade no afecto. Para os compensar do pouco tempo que passam com eles, começam a comprar. Mas não é um comboio eléctrico que vale uma tarde de colo e de miminhos.
Claro que hoje há coisas maravilhosas, mas em algumas coisas perdeu-se a noção da primordialidade que têm.
(Registo - trabalho feito por Maria José Rijo)
L.E -> O que é para si o verdadeiro espírito do Natal?
MJR -> É o espírito de família, é pensar nos outros. Por exemplo no Baixo Alentejo, onde eu vivia, as pessoas mais humildes cantavam à porta das pessoas que tinham mais. Estes recebiam-nos, mandavam-nos entrar, ofereciam-nos filhós e azevias. Era uma oportunidade para conviverem com outras classes.
Dentro desse espírito de família, os mais carenciados eram convidados para passarem o Natal com os mais abastados.
L.E -> Qual é o mais bonito gesto que se pode ter no Natal ?
MJR -> Eu acho que é tentar identificar as carências das pessoas e, discretamente, arranjar forma de colmatar essas falhas.
Era ponto de honra do meu avô e da minha avó, quando sabiam que alguém passava necessidades, ajudar sem que a pessoa soubesse quem era o autor. Nas vésperas de Natal, principalmente, aproveitavam para transmitir essas mensagens de amor. Colocavam o dinheiro ou os géneros na medida das suas possibilidades, à porta da pessoa e não diziam nada a ninguém.
L.E -> Pensa que o Natal é quando o homem quiser?
MJR -> Creio que dentro do coração de cada um, é . Se a pessoa cultivar a fraternidade e o respeito pelos outros, se pensar um pouco menos em si e um pouco mais nos outros, acho que é possível.
Eu sou muito virada para a comunidade. Gosto muito de coisas bonitas mas não me agarro a nada. Sou capaz de dar tudo. A única coisa a que me sinto, realmente, ligada é aos meus livros. Fazem muito parte da minha vida, são fruto de opções.
L.E -> Em quem acredita: no Menino Jesus ou no Pai Natal?
MJR -> O Pai Natal para mim, não tem sentido. A mim sempre me ensinaram que quem trazia as prendas era o Menino Jesus, se nos portávamos bem o ano inteiro. A minha avó ensinava-nos a rezar quando éramos pequeninas: Menino Jesus perdoa as maldades que hoje fiz e ajuda-me a ser boa. Rezava isto, todas as noites e quando chegava perto do Natal fazia-se o balanço. Então achas que mereces as prendinhas do Menino Jesus? Era o menino que tinha essa responsabilidade.
L.E -> Qual a prenda que gostaria de receber nesta quadra?
MJR -> Queria muito a segurança na saúde da minha mãe. De material não há nada que cobice. Gostaria de fazer uma viagem no tempo. Tenho muitas saudades das pessoas do antigamente.
L.E -> Qual é a tradicional gastronomia alentejana da quadra natalícia?
MJR -> No Alentejo, os pratos mais típicos são os de peru, do lombo com amêijoas, as migas. Havia também, sempre um prato de peixe. Acho que o prato de peru não é uma tradição portuguesa, mas começou a entrar muito cedo nas nossas mesas devido à face criação da ave. A gastronomia do Alentejo sempre assentou nas coisas que havia. Temos também o arroz doce, os borrachos, as azevias que no baixo Alentejo se chamavam pastéis de batata-doce.
L.E -> CoNatal é a nsidera que o altura dos milagres?
MJR -> Nunca tinha pensado nisso, mas talvez seja. Porque o espírito de Natal, por vezes, toca tanto nas pessoas que, na medida em que conseguirem ser menos egoístas, mais generosas e voltadas para os outros, acaba por ser. O milagre pode ser esse…
Ás vezes penso no Natal um pouco como penso
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AZEVIAS

Para as azevias – use a massa das filhós é fácil de estender.
Pode rechear com grão cozido, pelado e passado – igual porção
de açúcar e meia dose de amêndoas (se tiver).
Quando o açúcar estiver em ponto de pasta leva o grão (e a amêndoa); quando fizer estrada sai do lume e arrefecerá um pouco para se lhe juntarem as gemas bem batidas (
Coze um nadinha.
Perfuma-se com raspa de limão e canela.
Serão também empoadas depois de fritas com açúcar e canela em mistura a gosto.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Doces


